O inquérito da investigação que acarretou a prisão do vereador Salvino Oliveira (PSD), detido nesta quarta-feira em operação da Polícia Civil, é embasado com trechos sobre a relação do parlamentar com favelas do Rio de Janeiro. Enquanto era levado para a Cidade da Polícia, depois de ser detido, ele afirmou que foi alvo de uma “briga política”. Desde a operação, a disputa política entre o prefeito Eduardo Paes (PSD) e o governador Cláudio Castro (PL) sofreu uma escalada, com judicialização e pedidos do PSD até para o afastamento do secretário de Polícia e de Castro do governo, sob acusação de uso da corporação para perseguição de opositores políticos. Entenda quais foram as provas reunidas pela polícia no inquérito que causou a prisão do parlamentar.
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Durante a investigação conduzida pela Polícia Civil, que começou em 2024, o nome do parlamentar surgiu em uma conversa. Já no início da argumentação sobre Salvino, a polícia cita que o vereador foi eleito sob o slogan “Vereança das Favelas do Rio” e que ele se autodenomina “cria” e “representante da Cidade de Deus”.
“Tal autodeclaração adquire especial relevo quando contextualizada com o histórico territorial da região, uma vez que a Cidade de Deus, em razão de seus limites contíguos com a Comunidade da Gardênia Azul, foi historicamente utilizada como base avançada e ponto de concentração logística para a reunião de criminosos do Comando Vermelho, oriundos de diversas localidades, como Penha, Complexo do Alemão, Rocinha, Chapadão, Lins de Vasconcelos etc., no processo de tomada do controle da Gardênia Azul, anteriormente exercido por grupos milicianos”, diz um trecho do relatório da polícia.
Os investigadores ainda citam que Salvino foi indicado como “relator de uma Comissão Especial da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, instituída para analisar, debater e propor políticas públicas voltadas às favelas, com funcionamento no período de 15/04/2025 a 04/12/2025, conforme registros públicos oficiais”.
No próprio inquérito, os policiais afirmam que as atribuições podem ser consideradas regulares do mandato do parlamentar, mas argumentam que o nome dele aparecer em uma conversa com lideranças do Comando Vermelho muda o enquadramento da situação.
Na conversa, um homem que faria a ponte com traficantes do CV manda uma mensagem de texto para um número que, segundo a corporação, pertence a Doca. No texto, ele pergunta se procede que o traficante e outra pessoa identificada como Pé “autorizaram o Salvino a trabalhar”. E ainda pergunta se é para dar “suporte e ajudar nos projetos dele”. A resposta do destinatário, no entanto, é por chamada de voz. Não há informações sobre o que ele disse.
“Tal conteúdo revela, de forma indiciária, que a atuação do parlamentar na localidade pode não se dar de maneira autônoma ou estritamente institucional, mas condicionada ao aval e à tutela da organização criminosa dominante”, diz trecho do inquérito.
“A expressão ‘dar suporte’, empregada no diálogo, assume contornos relevantes no contexto investigativo, por não se compatibilizar com a lógica do exercício regular do mandato, indicando, ao contrário, mobilização de estrutura local controlada pelo crime organizado, seja para facilitar acesso, viabilizar circulação, garantir segurança informal, intermediar contatos comunitários ou remover resistências internas — funções típicas de quem detém o controle territorial de fato”, continua o relatório feito pela Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro.
A conclusão da polícia é de que esses elementos demonstram que Salvino pode “não ter atuado como ator periférico, mas como beneficiário potencial de um arranjo político-criminoso, no qual o exercício do mandato parlamentar revela-se condicionado à chancela da facção criminosa, com aderência a plano que conjuga interesses eleitorais e a manutenção do poder paralelo do Comando Vermelho na região da Gardênia Azul.”
A polícia afirmou Salvino “solicitou auxílio logístico e financeiro à organização criminosa conhecida como Comando Vermelho, com o fito de viabilizar projetos sociais por ele promovidos na comunidade da Gardênia Azul”.
Sobre a citação da Comissão Especial da Câmara Municipal do Rio de Janeiro no inquérito, a Câmara Municipal do Rio disse que é “inaceitável qualquer tentativa de associar o debate sobre políticas voltadas às comunidades a indícios de atividade criminosa”:
“Nascer ou morar em favela não pode ser tratado como sinal de irregularidade e, muito menos, crime. Da mesma forma, participar de uma comissão parlamentar dedicada a discutir os desafios das comunidades é parte legítima do exercício do mandato e da representação de milhões de cariocas que vivem nesses territórios. A Câmara do Rio reafirma a legitimidade da Comissão Especial e continuará cumprindo seu papel de dar voz às comunidades e defender políticas públicas que melhorem a vida de quem mora nas favelas do Rio”, diz a nota.
Em nota, a Polícia Civil afirmou que a investigação que levou à prisão do vereador começou dia 15 de outubro de 2024 e que passou por três esferas “diferentes e independentes”. Segundo a corporação, a representação pela prisão foi feita em 1º de janeiro de 2026. O Ministério Público analisou e deu parecer favorável no dia 21 de janeiro e o Poder Judiciário autorizou os mandados em 27 de fevereiro, com expedição em 3 de março deste ano, segundo a polícia.
“A investigação foi conduzida com rigor técnico e seriedade e não possui lado político. Prova disso é que a operação cortou na própria carne do Estado, com a prisão de seis policiais militares, incluindo dois oficiais. A Polícia Civil não escolhe alvo por posição política, por grupo ou por conveniência. Durante uma investigação, caso apareçam provas de crime, a polícia faz o que a lei manda: investiga, pede a prisão à justiça e captura. Por todos esses fatos, a operação que resultou na prisão do vereador foi legal e legítima, baseada em provas técnicas”, diz a nota.

