No quarto dia do Rio Fashion Week (RioFW), a moda brasileira não andou em linha reta. Ainda bem. Marchou, sambou, correu, flutuou, rasgou, voltou e seguiu. Como a vida, quando não cabe em desfile comportado, o guia vem de outra força menos estática e mais traiçoeira: o ritmo. O ritmo do corpo, do desejo, da cidade, da memória, da festa e claro, da passagem do tempo. Ao longo de sete desfiles, cada um com uma linguagem distinta, a sensação comum foi de que a moda brasileira, quando acerta a mão, desfila permanência e recomposição.
A abertura desse raciocínio começa por Angela Brito. Em “Entropia”, a estilista tratou o Rio como ele merece ser tratado: não como cartão-postal domesticado, mas como organismo contraditório, saturado, quente, mineral, exuberante e meio torto. A coleção nasce desse Rio de pedra, asfalto, água, vegetação insistente e excesso cotidiano. Oito artesãos colaboraram com peças em madeira descartada, trançados de couro, sementes naturais e crochê em palha com tingimento natural. É a energia que a cidade gera quando decide ser tudo ao mesmo tempo.
Karoline Vitto apresenta coleção sobre o corpo como escultura
Karoline Vitto entrou em seguida com uma estreia que não dependia do carimbo “histórico” para se justificar, embora o carregasse. Depois de inovar em Londres e Milão, a designer apresentou uma coleção que reafirma sua pesquisa sobre o corpo como escultura, e não como problema a ser corrigido. Em tempos de culto farmacêutico à redução das vontades e excessos, Karoline faz o contrário: emoldura, dobra e cria uma armadura desconstruída para uma mulher que naturalmente demanda poder.
Suas cordas não apertam, sustentam. Os metais não violentam, envolvem. Os recortes não escondem, acompanham o olhar. Em “Sunburn”, os recortes deixaram mais pele à mostra, não como provocação, mas como gesto de quem entende que no Rio o corpo é o primeiro lugar onde a cidade se manifesta. A mulher que venceu o LVMH Prize e fez o primeiro desfile 100% plus size da história da temporada italiana em 2022 só precisou pisar no Pier Mauá para lembrar que o corpo brasileiro nunca precisou de molde importado.

Inspiração na mitologia dos orixás
De uma imagem de Clarice num cartaz do metrô de São Paulo, a coleção da Apartamento 03 é o que acontece quando alguém decide dar uma festa para quem nunca foi convidada. Dela, foi à Macabéa de “A Hora da Estrela” e de lá à Conceição Evaristo, que reconheceu naquela mulher não uma vítima, mas uma ancestral. A coleção é o que acontece quando alguém decide dar uma festa para quem nunca foi convidada.
A alfaiataria plissada apareceu leve como uma folha de papel, escorrendo pelo corpo em camisolas, cetins e rendas que se misturavam a elementos esportivos numa leitura solar do Rio. Já as referências literárias sobre religiões de matriz africana, mitologia dos orixás e obras de Clarice não foram adereço. Foram a espinha dorsal. “Chegar ao Rio é como uma coroação de uma trajetória”, destacou Luiz Cláudio. A coleção falou de obstinação quieta, de brilho que não grita, de gente que ocupa espaço sem pedir licença. Tendo nas roupas estrelas suficientes para uma constelação completa.

Noivas, sereias e piratas de Helô Rocha
Helô Rocha talvez tenha entregue o momento mais delicadamente emocional da noite. Suas noivas, sereias e até piratas não se conceberam em uma fantasia imaculada, mas em um rito atravessado pelo tempo. Começando com referências vitorianas, pérolas, organzas, sedas e a imaginação clássica da noiva. Mas logo que avançam, os looks de seda rasgam, o branco amarela, a superfície perde a falsa pureza e ganha outra coisa no lugar: a memória. Não havia melancolia ali, nem culto à decadência. Havia beleza sobrevivente. Havia o entendimento de que o tempo altera idealizações, mas aprofunda a força simbólica das coisas.
Helô utilizou tecidos de segunda mão, com manchas, desgastes, rasgos, toalhas antigas, lençóis inutilizáveis, metais reciclados, joias vintage e bordados feitos por artesãs de Timbaúba dos Batistas para construir uma coleção em que o ritmo da imperfeição vira linguagem. Quando a Marcha Nupcial de Mendelssohn se converteu em funk, o desfile deixou claro o truque: não se trata de conservar o amor numa redoma, mas de aceitá-lo em suas metamorfoses pela vida.

Camisas Copa do Mundo FIFA 2026
Depois veio a adidas Originals, e com ela o quarto dia trocou a reverberação íntima pelo pulso da rua. O Megaride, tênis dos anos 2000 que virou ícone nas periferias brasileiras, voltou como fio condutor. As rappers Tasha e Tracie abriram com música ao vivo. As camisas da Copa do Mundo FIFA 2026, a coleção adidas x Time Brasil para Los Angeles e o styling ancorado em referências da estética periférica construíram um desfile que não era sobre moda no sentido tradicional. Era sobre quem usa o quê, e onde.
As referências ao corre diário e ao futebol para além dos gramados ajudaram a mostrar por que certas peças esportivas ganham vida própria quando saem da prateleira e vão morar no corpo real. As camisas da Copa do Mundo FIFA 2026 e a coleção com o Time Brasil ajudaram a costurar essa narrativa de forma pop. A Adidas entendeu uma coisa básica, e ainda assim rara: no Brasil, esporte é cultura visual.

Com o arranjo da bateria da Beija-Flor, a MISCI de Airon Martin garantiu a ele o reconhecimento de ser o primeiro estilista a desfilar na Marquês de Sapucaí. Seu “Escapismo Tropical” partiu da tensão entre como o mundo vê o Brasil e como o Brasil se vive. O que chamam de escapismo tropical, para quem é daqui, não é fuga. É forma de continuar. E o ritmo foi dado pela bateria da Beija-Flor de Nilópolis, com 80 ritmistas e uma passarela azul cortando a avenida como linha de horizonte que evoca o mar.
As referências iam do Pier de Ipanema dos anos 70 e das Dunas do Barato, território de liberdade durante a ditadura, até Gal Costa e Maria Bethânia. O bordado filé de Alagoas, desenvolvido com a artesã Petrúcia Lopes, evoluiu em escala. Redes de pesca descartadas pela Colônia de Pescadores São Pedro viraram tecido. Um couro vegano de capim, feito com a Nova Kaeru, manteve as fibras e veios naturais visíveis. A colaboração com Alan Crocetti nas joias e com a Veja para um sneaker de couro de pirarucu inspirado nos Lençóis Maranhenses uniram o global com o local, num compasso globalizado.

Espaço para a dramaturgia
Houve ainda espaço para a Globo transformar dramaturgia em passarela. “A Nobreza do Amor” levou mais de 30 figurinos da novela das seis e fez um movimento curioso: em vez de usar a moda para promover a televisão, usou a televisão para reafirmar a força estética do figurino. A travessia de Alika, personagem de Duda Santos, que partiu de Batanga, conduziu a apresentação com tecidos encorpados e realeza africana, passou pelo desgaste do deslocamento e chegou ao encontro entre África e Nordeste brasileiro nos anos 1920.
No quarto dia do Rio Fashion Week, a moda brasileira não andou em linha reta. Ainda bem. Marchou, sambou, correu, flutuou, rasgou, voltou e seguiu. Assim como a vida faz todos nós.

Com informações da fonte
https://temporealrj.com/riofw-quarto-dia/

