A Prefeitura do Rio anunciou com tom de solução definitiva o Rio Rotativo Digital, sistema de estacionamento pago por aplicativo que começa a ser testado em agosto. Integrado ao app Jaé, o modelo promete acabar com a atuação de flanelinhas nas ruas — mas especialistas e experiências recentes acendem um alerta: a mudança pode ficar apenas na forma de pagamento, sem atacar o problema central da fiscalização.
Segundo o projeto, o motorista fará o pagamento exclusivamente pelo celular, via Pix, cartão ou créditos no aplicativo. “Pagou no aplicativo, acabou. Qualquer um que cobrar na rua é criminoso”, afirmou o prefeito Eduardo Paes ao apresentar a proposta.
Na prática, porém, a promessa esbarra em um velho problema: a ausência — ou ineficácia — da fiscalização nas ruas. Hoje, mesmo com regras claras, flanelinhas irregulares continuam cobrando valores informais e, em muitos casos, extorsivos, sem qualquer intervenção do poder público. Com o novo sistema, nada impede que a cobrança “por fora” continue acontecendo, paralelamente ao pagamento digital.
Mudança digital, problema analógico
A principal alteração do novo modelo está no meio de pagamento — que deixa de ser feito por talões físicos e passa a ser digital. Mas o comportamento irregular, que sustenta a chamada “máfia dos flanelinhas”, não depende do sistema de cobrança, e sim da presença efetiva do poder público nas ruas.
Mesmo com a previsão de guardadores credenciados e remunerados pela prefeitura, críticos apontam que o modelo pode apenas institucionalizar parte da atividade, sem eliminar a atuação clandestina.
Além disso, o próprio discurso oficial levanta dúvidas sobre a capacidade de controle. A promessa de que qualquer cobrança fora do aplicativo será tratada como crime já existe, na prática, há anos — mas raramente resulta em punição.
Espelho preocupante: Niterói
O histórico recente reforça o ceticismo. Em Niterói, município vizinho, um sistema semelhante de estacionamento rotativo digital foi implantado com objetivos parecidos — incluindo o combate aos flanelinhas. O resultado, porém, ficou aquém do esperado.
Relatos recorrentes indicam que os flanelinhas continuaram atuando normalmente, cobrando motoristas mesmo em áreas com controle digital. Além disso, o modelo foi alvo de críticas políticas e denúncias.
O vereador Alan Lyra chegou a apontar possíveis irregularidades no uso do sistema, levantando questionamentos sobre transparência, gestão e fiscalização do serviço. As críticas incluíram suspeitas de falhas no controle e no repasse de recursos.
Promessa x realidade
A Prefeitura do Rio aposta que a digitalização, aliada ao rastreamento por GPS e à integração com órgãos de trânsito, será suficiente para disciplinar o uso das vagas e coibir abusos. Guardadores credenciados devem atuar na fiscalização e receber diretamente do município.
Ainda assim, o sucesso do projeto dependerá menos da tecnologia e mais da execução. Sem presença constante de fiscalização e punição efetiva, o risco é que o Rio apenas troque o talão pelo aplicativo — enquanto a cobrança irregular segue acontecendo nas calçadas.
No papel, o sistema promete modernização e ordem. Nas ruas, a história recente sugere cautela.

