Milícia faz alianças e trava guerras para sobreviver; investigações apontam parcerias com o Terceiro Comando Puro

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Rio das Pedras foi o berço de nascimento da milícia — Foto: Custódio Coimbra/Agência o Globo


Era fim da tarde da última terça-feira quando dezenas de homens armados invadiram a comunidade da Vila Sapê, em Curicica, na Zona Sudoeste do Rio. Usando fuzis e até drones para lançar granadas, os criminosos, que seriam associados à milícia, iniciaram um confronto com traficantes que dominam a região, numa tentativa de retomar a favela, historicamente controlada por paramilitares e invadida pelo Comando Vermelho. No mesmo dia, milicianos atacaram traficantes na comunidade Nova Palmares, em Vargem Pequena, tentando reassumir o controle da região.

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Enquanto na Grande Jacarepaguá a milícia faz ataques para recuperar o protagonismo que perdeu para o Comando Vermelho nos últimos dois anos, pela Zona Oeste do Rio ela trava guerras sangrentas para manter o que hoje é um dos últimos grandes redutos das forças paramilitares na cidade, ao lado da Baixada Fluminense. Outro bastião do grupo é Rio das Pedras, no Itanhangá, cada dia mais vulnerável às investidas do tráfico. As investigações apontam que, para não perder mais territórios, a milícia está se transformando e fazendo parcerias para impedir o monopólio do CV.

Quando começou a tomar territórios do tráfico, no início dos anos 2000, formada majoritariamente por policiais, a milícia — que se autointitulava “Comando Azul”, em referência a uma das cores da Polícia Militar — tinha forte vínculo com agentes de segurança. Com o passar dos anos, o grupo se reinventou; hoje ainda conta com agentes e ex-agentes públicos em seus quadros, mas eles já não são maioria. O titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco), delegado Jefferson Ferreira do Nascimento, explica que uma das principais transformações foi o consórcio da milícia com o Terceiro Comando Puro (TCP).

— Nós notamos que eles começaram a fazer alianças pontuais com o TCP nessa tentativa de fazer frente ao avanço do Comando Vermelho. Em razão disso, eles se tornaram mais reativos. Antigamente, a polícia conseguia entrar com mais tranquilidade em uma área de milícia, quando comparado com regiões do tráfico. Hoje, não é mais assim — disse Nascimento.

Aliança com o ‘inimigo do meu inimigo’

Um policial da 32ª DP (Taquara) explicou que essa parceria é feita na lógica de que “o inimigo do meu inimigo vira meu amigo”. Segundo ele, por ter perdido quase todas as comunidades da Zona Sudoeste — restando apenas Rio das Pedras —, os milicianos hoje precisam da força bélica do TCP para se impor diante de um CV sedento por monopólio.

— Hoje a milícia daqui (Zona Sudoeste) está “respirando por aparelhos”, muito longe de ser o que já foi um dia. São os que sobraram mesmo. Tanto que eles já não têm o aparato que tinham e contam com a ajuda do TCP para realizar as incursões — explicou o policial, sob anonimato.

A delegacia da Taquara já mapeou pelo menos duas comunidades em Curicica que estão divididas entre os dois grupos. Em Dois Irmãos e na Cabeça de Porco, metade do território é controlada pela milícia e a outra parte pelo TCP, numa harmoniosa convivência.

Vínculo ainda forte com as origens

Apesar disso, a chamada “identidade miliciana” permanece fortemente associada à origem do grupo. Também sob anonimato, um policial contou que, quando ocorrem prisões, é comum os criminosos tentarem estabelecer uma relação de proximidade, alegando que estão do mesmo lado.

— Eles falam como se fôssemos irmãos, como se estivéssemos fazendo algo parecido. Na cabeça deles, eles também são policiais — relatou.

A força exercida por esses grupos voltou ao centro do debate nacional durante o julgamento dos mandantes da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, discorreu, durante a audiência, sobre a forma como essas organizações atuam para eliminar quem ameaça seus interesses e estabelecem influência política nos territórios. Condenados a 76 anos e três meses de prisão pelo crime, os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão são acusados de comandarem uma milícia na Zona Sudoeste.

Desde a morte de Marielle, em 2018, muita coisa mudou no reduto dos Brazão — a milícia perdeu quase todas as favelas na Zona Sudoeste, mas paramilitares mantiveram a hegemonia nos amplos territórios da Zona Oeste. A avaliação é da professora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo ela, quando se observa toda a Região Metropolitana, os milicianos foram ultrapassados pelo Comando Vermelho no que diz respeito ao controle territorial.

Mas, ao se considerar controle e influência (áreas no entorno das favelas dominadas), as milícias ainda lideram. De acordo com a pesquisadora, o grupo ainda segue forte e mantém uma capacidade de cooptação do Estado e de agentes públicos superior à das facções criminosas do Rio. A pesquisadora ressalta que, embora o tráfico também tenha interferência na política e conexões com agentes públicos — como ocorreu nos casos do ex-deputado TH Jóias e do advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor —, essas alianças costumam ser mais pontuais:

— As milícias possuem agentes públicos e integrantes das forças de segurança em seus quadros. Isso faz parte da origem histórica do grupo. Não à toa, atores ligados às milícias muitas vezes se tornam representantes daqueles territórios junto às forças políticas e passam a influenciar decisões. Eles têm uma enorme capacidade de coordenação das políticas públicas em suas áreas, algo que as facções do tráfico ainda não têm na mesma proporção.

Cuidados com as eleições deste ano

A preocupação com essa interferência e a possibilidade de o crime organizado tentar eleger seus próprios candidatos motivaram a criação de dois projetos no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). O presidente do órgão, desembargador Claudio de Mello Tavares, explica que foi montada uma força-tarefa com órgãos de investigação estaduais e federais para identificar possíveis candidaturas ligadas à milícia ou ao tráfico.

— A ideia é identificar o quanto antes esses nomes para conseguir indeferir a candidatura assim que possível. Além disso, também estamos, com a ajuda da Polícia Militar, identificando em quais locais dominados pelo crime os eleitores podem sofrer intimidação para votar em um determinado nome, para mudar o endereço dessas seções eleitorais. Até o momento, já alteramos 30 locais para garantir que os moradores possam votar com tranquilidade em quem quiser — disse o magistrado.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/03/15/milicia-faz-aliancas-e-trava-guerras-para-sobreviver-investigacoes-apontam-parcerias-com-o-terceiro-comando-puro.ghtml

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