Marcos Oliveira reflete sobre relações, solidão e desejos: 'Tenho pavor de dormir junto, gente ao lado na cama'

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Aos 70 anos, Marcos Oliveira, sempre lembrado pelo inesquecível Beiçola, de “A grande família’’, vive no Retiro dos Artistas e atravessa o envelhecimento com uma franqueza sem filtro. No terceiro episódio da série em vídeo “Envelhecer é uma arte’’, disponível no YouTube do jornal Extra, o ator fala sobre manter a dignidade, continuar produzindo e reinventar a própria forma de estar vivo. Confira os melhores trechos da conversa a seguir:
O que você está fazendo hoje e o que te dá prazer no trabalho?
Estou fazendo uma escola de dublagem, que é maravilhosa. Mesmo com a boca meio comprometida, em tratamento dentário, faço exercícios de respiração, articulação, dicção. Isso é essencial. Velho que não cuida disso vai ficando murcho, vai perdendo expressão. É um exercício de estar vivo. De continuar lutando pela existência. Quando aparece trabalho, são curtas, coisas pequenas, mas que me interessam. Só que o cachê é simbólico, não dá para sobreviver.
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E essa descoberta da dublagem agora, depois de tantos anos?
Eu já tinha feito no começo da carreira, mas era outra técnica. Hoje mudou tudo, tem software, você pode gravar por partes. É desafiador, e isso é bom. É um exercício de estar vivo, de aprender de novo.
Isso mantém você ativo?
Total. É você continuar exercitando o corpo e a mente.
E o que te dá prazer fora do trabalho?
A alegria do absurdo, a alegria de transgredir. O atrito me move. O que é muito educadinho, muito normal, me cansa.
Como você se vê hoje e como enxerga o envelhecimento?
Estou com 70 anos. Tenho dinâmica. Não me considero velho nesse sentido. Quero produzir. Não importa se cinema, teatro ou escrita. O problema é depender dos outros. Isso é humilhante. Passar a mão de pires é a pior coisa que existe.
Você acredita em sorte ou em escolhas?
Não acredito muito nem numa coisa nem na outra. Tem coisa que a gente acerta e tem coisa que a gente erra.
Marieta Severo e Marcos Oliveira, o Beiçola, em “A Grande Família”
TV Globo/Divulgação
Você acertou ou errou mais?
Acho que acertei mais. Fui errar agora, num desespero da vida. Fiquei muito sozinho. Quando apareceu uma doença mais séria, eu vi que não estava com ninguém. A realidade caiu na minha cabeça. E aí me fudi. Porque eu fui muito ligado às pessoas. Criei uma dependência afetiva enorme. Quando precisei, percebi que estava sozinho.
Sofre por causa disso?
Um pouco. Mas não fico pensando nisso todo dia. Estou bem comigo mesmo.
Você gosta da solidão?
Hoje eu estou bem comigo. Não tenho problema com isso. Agora, viver com outra pessoa? Acho difícil.
Por quê?
Porque eu tenho pavor dessa coisa de dormir junto. Acordar e ter alguém do lado da cama. Eu olho e penso: “Meu Deus do céu, como é que ontem eu tive uma relação amorosa com essa pessoa e hoje ela está aí parada?”. Me dá medo. Me dá pavor.
Então você tem mais medo da companhia do que da solidão?
Tenho medo do outro ser humano. Não sei o que pode vir. É por isso que faço tudo meio na defensiva.
Você ainda gostaria de viver um grande amor?
Tenho minhas dúvidas. Não sei. Já está complicada a minha relação comigo mesmo. Não estou tendo prazer nem comigo. Então não sei se quero colocar mais alguém nessa história. Essa ideia de “se eu te amo, você tem que me amar” não existe. Amor não é promissória.
Como vê a sexualidade na maturidade?
É um assunto importante. A sexualidade continua existindo. O desejo continua existindo. Mas parece que a sociedade vai dizendo que você não pode mais desejar. Que a mulher não pode mais sentir prazer. Que o homem não pode mais ter orgasmo. Vai surgindo uma disputa estranha entre juventude e velhice. Como se envelhecer significasse abrir mão disso tudo.
Como você lida com isso hoje?
Não lido. Sublimei.
E no Retiro dos Artistas, como é sua rotina?
Acordo às quatro da manhã. Fico um tempo olhando para o nada. Cuido de coisas daqui, tomo meus remédios. Depois sigo o dia. Vou ao Pechincha, compro minhas coisas…
Você se sente isolado às vezes?
Não. Eu escolho com quem falo. Aqui cada um tem seu mundo. Eu respeito isso. Tem gente com quem não me identifico e não interajo. E tudo bem.
Como está sua saúde?
Tenho problemas sérios. Bolsa de colostomia, uma fístula, uso fralda. Isso limita muito. Mas sigo tentando manter minha dignidade. Cuido do corpo porque ele é meu instrumento de trabalho.
O que é mais frustrante em relação às suas limitações?
Eu sinto falta de doce. E de algumas coisas simples da alimentação. Mas tenho que controlar por causa da diabetes.
Você já teve uma vida muito ativa fora daqui?
Sim. Viajei muito, fiz teatro na Europa, comia em restaurantes incríveis. Vivi intensamente. Hoje é diferente, mas isso fica na memória.
E se pudesse conversar com o Marcos mais jovem, diria o quê?
Diria para ele ter mais cuidado consigo mesmo. Eu não tive. Fui muito vaca braba.
Em que sentido?
Eu vim ao mundo muito sozinho. Minha mãe me deu as condições básicas da vida. Mas depois fui eu por mim mesmo. Trabalhei em fábrica de brinquedos, fui torneiro mecânico, fiz um monte de coisas. Mas queria estudar. Queria aprender interpretação. Fui atrás.
E depois vieram trabalhos importantes…
Vieram. Fiz “Macunaíma”, fiz Nelson Rodrigues, “Romeu e Julieta”. O importante era realizar. Fazer.
Você costuma pensar em como as pessoas o enxergam?
Não. Acho muito difícil saber.
Mas você sabe que é querido pelo público…
Eu sei que muita gente gosta de mim. E tem gente que não gosta também.
Como você percebe esse carinho?
As pessoas me chamando de Beiçola.
Incomoda?
Tem uma contradição aí. Às vezes eu gosto. Às vezes não gosto. Tem hora que me chamam e eu mando tomar no cu. (risos)
Por quê?
Porque eu sou uma contradição ambulante. Ao mesmo tempo aceito, ao mesmo tempo não aceito.
Como você quer ser lembrado?
Não sei. Não me interessa muito isso. Quando eu morrer, acabou. Não tenho essa preocupação.
Você acredita em Deus?
Acredito, mas não num negócio institucionalizado. As religiões acabam enganando as pessoas. Não necessariamente por maldade. Mas oferecem respostas muito simples para questões que são complexas demais. A experiência humana é muito mais complicada. A fé, para mim, é uma experiência íntima. Não gosto quando ela vira exploração ou ferramenta de manipulação.
Vale a pena viver?
Claro que vale. Eu jamais seria suicida. Nunca tive essa tendência. Vontade de me matar? Não tenho coragem, não. Quero saber o que eu fiz para estar aqui nessa merda. Quero entender o que vim aprender nessa existência. Então, eu só tenho que agradecer. Estou aprendendo. De um jeito certo ou errado, estou aprendendo.
O que faz você rir?
A desgraça. O absurdo das coisas. A vida é cheia de contradições.
E o que faz você chorar?
A emoção da vida. A beleza.
Quais seus planos para o futuro?
Não faço grandes planos. Tenho metas pequenas. Vou seguir vivendo com dignidade até onde der.
O que faz você continuar?
A vontade de continuar existindo com lucidez. E a necessidade de não parar.
Você se considera feliz?
Acho que sim, apesar dos problemas. Continuo curioso, continuo aprendendo, observando a vida. E isso é maravilhoso.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/06/marcos-oliveira-reflete-sobre-relacoes-solidao-e-desejos-tenho-pavor-de-dormir-junto-gente-ao-lado-na-cama.ghtml

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