Teatro, por Claudia Chaves: “Vale a pena viver”, diz Vilma Melo sobre peça

Tempo de leitura: 7 min


“Pra Te Ver Feliz” é um feliz sopro de alegria, talento, afeto, família, amizade e do mais puro suco de brasilidade. João Batista escreve e dirige um musical que encontra grandeza justamente nas pequenas cenas do cotidiano. Em vez de heróis, coloca pessoas comuns no palco. Em vez de grandes acontecimentos, celebra os encontros que constroem nossa memória afetiva.

(Nil Caniné/Divulgação)
Quatro artistas negros em um palco, todos vestidos de branco. Uma mulher à esquerda gesticula enquanto canta, um homem ao lado dela a observa. No centro, uma pequena árvore de Natal decorada sobre uma mesa azul. À direita, outro homem gesticula e uma mulher sorri, dançando. O fundo é um degradê de cores quentes
(Nil Caniné/Divulgação)

Quem nunca pegou um cabo de vassoura, transformou em porta-estandarte e saiu sambando pela casa? Fui criada assim, do Encantado a Ipanema, passando pelo Morumbi, numa família em que todo encontro terminava em samba. Foi impossível não me reconhecer no espetáculo. A felicidade apresentada em cena nasce exatamente desse lugar onde a música transforma qualquer reunião em celebração.

A dramaturgia é construída por pequenos esquetes sobre a vida: um encontro às cegas, um churrasco, uma festa de Natal, uma enchente, um réveillon, amigos a caminho da praia. Mesmo as situações mais difíceis fazem parte desse mosaico afetivo. João Batista confirma aquilo que os grandes compositores populares sempre souberam: o samba também é uma crônica social e sentimental do Brasil.

Sete pessoas negras dançam no palco, vestindo roupas brancas. Quatro mulheres e três homens, com expressões alegres, movem-se em sincronia. Ao fundo, um baterista e um percussionista tocam, e uma árvore de Natal iluminada decora o cenário. A iluminação avermelhada cria uma atmosfera festiva
(Nil Caniné/Divulgação)
Continua após a publicidade

Um homem negro sorridente, de camisa e calça brancas, braços abertos, com uma mulher negra sorrindo atrás dele, mãos em seus ombros. Ela veste um vestido branco e saia estampada. Ao fundo, uma bandeira vermelha e branca e um músico sentado
(Nil Caniné/Divulgação)

A direção musical de Marcelo Alonso Neves é um dos grandes acertos da montagem. As canções não interrompem a narrativa; elas a conduzem. Clássicos como “Conselho”, “Insensato Destino”, “Mel na Boca”, “Lugar ao Sol” e “Da Melhor Qualidade” surgem como poemas que embalam emoções e memórias. A banda, formada por Carlos Rufino/Felipe D’Lélis, Fábio D’Lélis, Leo Antunes e Marlon Julio, permanece em cena como uma verdadeira roda de samba.

O elenco, formado por Aline Borges, Elli Fêrreira, Jeniffer Dias, Lucas da Purificação, Thiago Thomé, Udylê Procópio e Vilma Melo, funciona como um verdadeiro ensemble. Todos cantam, dançam e interpretam com absoluta sintonia, sem disputas de protagonismo. Os figurinos brancos acrescentam delicadeza e poesia, reforçando a atmosfera de paz, afeto e comunhão que percorre toda a montagem.

Um homem e uma mulher, ambos de branco, dançam com uma bandeira branca e vermelha da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. Músicos tocam instrumentos ao fundo, sob luz vermelha
(Nil Caniné/Divulgação)
Continua após a publicidade

Sete pessoas negras, três homens e quatro mulheres, sorriem e se abraçam no palco, vestindo roupas brancas. Luzes azuis iluminam o fundo.
(Nil Caniné/Divulgação)

“Pra Te Ver Feliz” vai muito além de um musical sobre o subúrbio carioca. É um espetáculo sobre o Brasil e sobre a nossa capacidade de transformar perdas em encontros, dificuldades em esperança e lembranças em música. Ao final, fica a certeza de que o samba continua sendo uma das formas mais bonitas de contar quem somos.

No fim da sessão, conversei com Vilma Melo. Falamos sobre a peça, teatro e vida. Só faltou ela revelar a receita dos quitutes da Dona Jussara, personagem da novela “Dona de Mim” (2025), da TV Globo, que conquistava todo mundo pela barriga.

1- Qual é a cena mais marcante para você?

Tem uma cena específica que eu poderia citar, mas, pelo meu ponto de vista, o espetáculo fala de um lugar que é da família e da amizade. Isso independe de ser subúrbio, Zona Sul, interior do Brasil, Norte, Sul, Leste ou Oeste. Estamos falando de afeto, amor e relações. Tem, por exemplo, a festa de Natal. Quem nunca teve uma ceia cheia de pequenas rusgas familiares? Ou aquele amigo, irmã ou irmão que deu um abraço apertado quando você mais precisava? Quem nunca passou por uma decepção e encontrou um ombro amigo dizendo: “Vai dar certo, vamos seguir em frente”? Por isso, não consigo escolher um único momento. Toda a dramaturgia passa dentro do meu coração.

Continua após a publicidade

2 – De todas as canções, qual fala mais ao seu coração?

“Lama nas Ruas”, na cena da enchente. O contexto que o João Batista criou para essa música representa a vida de muitos brasileiros. Não estou falando apenas do samba ou do Rio. Você vai ao Nordeste, ao Sul, ao Centro-Oeste e encontra histórias parecidas. É sobre pessoas que perderam quase tudo, mas não perderam o bem mais precioso, que é a vida e quem elas amam. E, mesmo assim, conseguem se reerguer.

3 – Qual é o impacto do teatro na vida e nas artes?

O teatro, assim como a música e a arte, tem o papel fundamental de perpetuar relações e contar histórias. Quando falamos de teatro, falamos do encontro ao vivo, mas também das memórias que permanecem. Até hoje bebemos da fonte do teatro grego. Essas histórias continuam chegando até nós. Hoje existe um movimento para ampliar as referências — e isso é importante. Mas o teatro continua sendo esse lugar capaz de tocar o ilusório, o utópico e aquilo que está mais escondido dentro da gente: os sentimentos.

4 – Essa peça marca uma volta ao teatro depois das novelas?

Engraçado… Eu acho que não, porque nunca saí do teatro. Faço muitos espetáculos por ano, dirijo montagens, sou professora de teatro e sempre dirigi os espetáculos de fim de ano do Calouste. Também trabalhei como assistente de direção do Antônio Pedro em várias peças. O teatro é a minha casa. Foi minha formação e o lugar que me abriu as portas. Acho que é a linguagem mais democrática que existe. Você coloca um banquinho numa praça e já pode contar uma história. Eu sou uma boa contadora de histórias. Estar diante do público, no palco, compartilhando essas histórias, é o que me faz existir. É o que me mantém viva.

5 – Se tivesse que definir “Pra Te Ver Feliz” em poucas palavras, quais seriam?

Não consigo em três… mas consigo em quatro: “Vale a pena viver.”

Continua após a publicidade

Serviço:
Teatro Sesc Ginástico, Centro (Av. Graça Aranha, 187) 
Quintas e sextas, às 19h
Sábados e domingos, às 17h

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-vale-a-pena-viver-diz-vilma-melo-sobre-peca/

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *