Depois que o tráfico passou a monopolizar a distribuição de trigo em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, os criminosos ampliaram o controle sobre outro produto básico: os ovos. Uma funcionária de um mercado, que pediu para não ser identificada, contou que a cartela com 20 unidades, antes comprada legalmente por valores entre R$ 8,99 e R$ 10,50, passou a ser distribuída pelos criminosos por R$ 14. Sem conseguir arcar com a imposição do grupo, os proprietários decidiram deixar de comercializar o produto, item comum na mesa dos brasileiros. O caso ilustra uma mudança na lógica de atuação do crime organizado no Rio. Depois de erguer barricadas, controlar territórios com homens armados e restringir o direito de ir e vir dos moradores, facções e milícias avançaram sobre o mercado de produtos essenciais.
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Na Região Metropolitana, grupos criminosos passaram a dominar a distribuição de alimentos, como arroz, trigo e ovos, além de itens de limpeza e materiais de construção, obrigando comerciantes a comprar mercadorias de fornecedores indicados por eles. Levantamento feito pelo GLOBO mostra ao menos 19 produtos e serviços que já são monopolizados pelo crime.
Investigações mostram que essa exploração não é uma prática restrita a uma única organização criminosa. Facções, como o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP), além de grupos milicianos, operam como um cartel territorial, ampliando o controle sobre o consumo das famílias.
Custo de R$ 21,4 bilhões por ano
Um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) calcula que esse domínio custa cerca de R$ 21,4 bilhões por ano à economia formal fluminense — um dos maiores valores absolutos do país.
Samuel Rivero, especialista em Segurança Pública da Firjan, explica que esse prejuízo inclui o impacto de mercados ilícitos sobre a produção, a circulação e a comercialização de bens. Enquanto isso, nas ruas, a população se depara com a exploração do crime nos afazeres mais simples do cotidiano, como ir à feira ou à padaria.
— A ilegalidade representa um custo relevante para o ambiente de negócios, ampliando a concorrência desleal, elevando riscos operacionais e pressionando gastos com logística, segurança e gestão de risco. Ou seja, desorganiza cadeias produtivas e reduz competitividade.
O promotor de Justiça Fábio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), do Ministério Público do Rio, classifica o avanço desse monopólio como a “terceira onda” de atuação do crime organizado. A primeira foi a do comércio varejista de drogas; a segunda, a exploração de serviços, como TV por assinatura clandestina, internet e transporte alternativo. Agora, os grupos criminosos migram para setores da economia formal.
— Eles estão passando a controlar o fornecimento de matérias-primas e produtos essenciais. Se antes extorquiam dinheiro de construtoras e comerciantes, hoje atuam de outra forma: abrem os próprios negócios ou impõem que apenas os produtos indicados pela facção sejam comercializados, pelos preços que eles determinam. Em muitos casos, sequer precisam recorrer a laranjas. Eles criam e administram suas próprias empresas — explica o promotor.
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Daniel Cerqueira, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que a infiltração cada vez mais intensa do crime organizado no mercado formal tem impacto direto sobre a produtividade da economia.
— Quando o crime se apropria da distribuição de produtos e do controle de empresas, elas deixam de operar pela lógica normal do mercado, que busca aumentar os lucros por meio da eficiência e da competitividade. Em vez disso, passam a funcionar puxando a produtividade da economia para baixo. No longo prazo, isso gera uma série de consequências, sendo a principal delas a redução da capacidade de crescimento sustentável. É um verdadeiro tiro no pé da economia — afirma.
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Cerqueira destaca ainda que essa dinâmica cria um ambiente hostil para empresas que atuam dentro da legalidade. A extorsão, o monopólio imposto pelo crime organizado e a insegurança comprometem o desenvolvimento das regiões dominadas por essas organizações:
— As áreas sob domínio do crime organizado no Rio continuam se expandindo e, para uma empresa legal funcionar nesses locais, há muitos riscos. Por isso, elas acabam indo embora. Isso tem um efeito direto sobre os investimentos e a atividade empresarial. Se essas empresas deixam de operar, muitas pessoas perdem o emprego e acabam recorrendo à informalidade para sobreviver.
Segundo a Firjan, empresas que atuam no Rio têm um gasto adicional de cerca de R$ 9,7 bilhões por ano, o equivalente a 0,7% do PIB do estado, com segurança, seguro, logística e gestão de risco, além de perdas de produtividade e de atratividade para novos investimentos.
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Em março do ano passado, Rafael da Silva Braga, de 43 anos, acordou cedo e deixou a família dormindo em casa. Naquela manhã, foi informado de que uma de suas padarias, em Paciência, na Zona Oeste do Rio, estava sem energia elétrica. Ao chegar ao estabelecimento, por volta das 6h, enviou um áudio à esposa pedindo ajuda para transportar os pães até outra unidade da rede, a cerca de 1,5 quilômetro dali. Ela, porém, não teve tempo de ouvir a mensagem. Cerca de dois minutos depois, dois homens passaram em frente ao comércio em uma motocicleta e dispararam cinco vezes contra Braga, que morreu no local. Ele deixou três filhos.
Padaria em Paciência onde comerciante que não quis pagar taxa aos criminosos foi morto
Reprodução
A Delegacia de Homicídios da Capital apurou que o crime teria sido motivado pela recusa do comerciante de aderir à “taxa da farinha”, mecanismo que, além de impor o fornecedor do trigo, determina o preço de venda do pão, que passou de R$ 0,30 para R$ 0,60 a unidade. Rafael, que havia inaugurado a padaria apenas quatro meses antes de ser assassinado, já pagava a “taxa de segurança”.
Após esse crime, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) identificou pelo menos três empresas ligadas ao crime organizado que monopolizavam a distribuição de trigo na Zona Oeste. Segundo o delegado Jefferson Ferreira, o controle exercido por milicianos e pelo TCP chegou ao ponto em que a demanda superou a capacidade dos fornecedores ligados ao grupo.
— Eles pegaram um fornecedor pequeno e deram a ele o monopólio da distribuição. Só que começou a faltar matéria-prima, porque a demanda era muito grande. Quando os produtos acabavam, eles até permitiam que os comerciantes comprassem de outro fornecedor. O problema é que, quando os caminhões chegavam para fazer a entrega, eram assaltados e, as cargas, roubadas. Depois, esse material era repassado ao fornecedor ligado ao crime, que continuava revendendo a farinha e mantendo o monopólio — explicou o delegado.
Polícia fez operação contra empresas que distribuíam trigo na região da Zona Oeste
Polícia Civil
Esse controle, que já atinge há mais tempo a venda de botijões de gás e água mineral, também está chegando à cesta básica, ao arroz, ao cigarro e às bebidas. Em uma denúncia anônima encaminhada ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) no fim do ano passado, um morador conta que comerciantes desses produtos numa determinada área da Zona Oeste são obrigados a comprar exclusivamente de empresas ligadas à milícia. “Estamos vivendo em um local onde não temos o direito de ir e vir, nem de nos expressar ou questionar as ordens impostas por eles, o que faz com que todos vivam coagidos”, relatou.
O crime também avançou na venda de tijolos e areia para lojas de materiais de construção em Queimados, Nova Iguaçu e Itaguaí, na Baixada Fluminense. Segundo denúncias investigadas pela Promotoria de Investigação Penal de Itaguaí, comerciantes estariam sendo obrigados a adquirir esses produtos de fornecedores indicados por paramilitares. O órgão apura ainda a suspeita de extorsão a proprietários de usinas de energia solar. Além de cobrança de taxas para funcionar no município, os criminosos estariam exigindo dos empresários a contratação de empresas de manutenção vinculadas à quadrilha.
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Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/07/27/levantamento-mostra-ao-menos-19-servicos-e-produtos-monopolizados-pelo-crime-organizado-no-rio-veja.ghtml

