“O fim está no começo e, mesmo assim, continua-se.”
A frase de Hamm poderia ser a senha para entrar no universo de Samuel Beckett. O dramaturgo irlandês, que também escreveu em francês e transformou a linguagem em matéria de sua dramaturgia, está entre os grandes autores do século XX justamente porque desmontou aquilo que tradicionalmente entendemos por teatro.
“Fim de Partida” — Endgame, no original — poderia quase se chamar, para nós, simplesmente “Fim de Jogo”. E não é uma ideia tão absurda: em 2016, uma montagem brasileira da peça chegou aos palcos justamente com o título “Fim de Jogo”, no Sesc Vila Mariana, com Renato Borghi como Hamm e Elcio Nogueira Seixas como Clov. Porque é disso que se trata: um jogo que parece terminado e que, ainda assim, continua.
Nesta montagem, optou-se por “partida”, no duplo sentido de iniciar e finalizar.



Não há uma história para acompanhar no sentido clássico. Não há linearidade, grandes acontecimentos ou uma narrativa que conduza o espectador pela mão. Há palavras, repetições, silêncios, comportamentos, relações de poder e quatro personagens presos a um mundo que parece já ter terminado.
E é desse aparente nada que Beckett tira tudo.
Hamm, vivido por Marco Nanini, está sentado em seu trono. A cadeira de rodas é também um trono. E há nele aquela certeza dos reis: quem é rei jamais perde a majestade. Hamm não precisa reivindicar o poder. Ele simplesmente o exerce. É mesquinho, autoritário, vaidoso, cruel e, nas mãos de Nanini, absolutamente deslumbrante.
Mas Beckett não deixa nem o rei escapar da ironia do nome. Hamm pode nos fazer pensar em ham, presunto — o rei reduzido à própria carne, quase uma peça esperando a panela.


Do outro lado está Clov, vivido por Guilherme Weber. Curvado, quase um Quasímodo, carrega no corpo sua condição de vassalo. Mas Clov também é um clown, um palhaço beckettiano que transforma a própria deformação e o próprio desajeitamento em linguagem cênica.
E há uma associação que me persegue: Clov, derivado de clover (trevo), pode nos fazer pensar em um dos símbolos da Irlanda. Não é uma tradução do nome, mas, diante de um autor irlandês, a aproximação ganha uma força curiosa: o trevo submetido ao rei.
Clov quer partir, mas permanece. Está sempre em reverência, porque essa é a sua posição. Seu corpo parece carregar uma cruz — e a cruz é também aquela relação da qual ele não consegue se libertar. Só que, pouco a pouco, a submissão começa a rachar. O vassalo descobre a possibilidade de sair. O fim pode ser também o fim da submissão.
É uma espécie de lei de Muricy: cada um trata de si. E, paradoxalmente, é desse desencontro que nasce o sentido.
Porque, em Beckett, o sentido não está na história. Está no jogo. No jogo de palavras, nas repetições, nos gestos, nos silêncios, naquilo que os personagens fazem e deixam de fazer. Eles quase não se encontram — e é justamente desse não encontro que a peça se constrói.
O palco é grande e aberto. A cenografia de Daniela Thomas cria, dentro dele, uma espécie de história própria. Não é apenas um cenário: é um mundo. Um espaço que parece ter sobrevivido aos personagens e que, ao mesmo tempo, aprisiona todos eles.
A luz de Beto Bruel participa desse jogo. Esconde o que se quer mostrar e mostra o que se quer esconder. Não ilumina simplesmente; revela e encobre. É quase mais um personagem.
Rodrigo Portella radicaliza as posições. O caminho já é o fim, porque todos aqueles personagens já estão, de alguma maneira, no fim: Hamm em seu trono; Clov, condenado a permanecer de pé; e Nagg e Nell, vividos por Ary França e Helena Ignez, confinados dentro de seus cubos, como cucos de relógio que aparecem e desaparecem.
A presença de Helena Ignez e Ary França é pequena em duração, mas enorme em importância. Suas aparições interrompem a lógica daquele mundo e acrescentam mais significado à máquina beckettiana. São quase os cucos de um relógio quebrado, marcando um tempo que insiste em passar quando tudo parece já ter acabado.
A direção de Portella é brilhante, engenhosa, teatral e precisa. Ele entende que, numa peça em que quase não há movimento, o menor movimento precisa significar alguma coisa. O corpo vira linguagem. A repetição vira dramaturgia. O silêncio vira ação.
E há uma enorme dificuldade aí.
A prova do talento de todos é fazer teatro em um palco italiano, com atores magníficos, sem história e sem linearidade.
Apenas teatro.
SERVIÇO:
Teatro TotalEnergies (Rua do Russel, 804 — Glória)
Quintas e sextas, às 20h; sábados, às 19h; e domingos, às 17h.

