Teatro, por Claudia Chaves: “Fim de partida”

Tempo de leitura: 6 min


“O fim está no começo e, mesmo assim, continua-se.”

A frase de Hamm poderia ser a senha para entrar no universo de Samuel Beckett. O dramaturgo irlandês, que também escreveu em francês e transformou a linguagem em matéria de sua dramaturgia, está entre os grandes autores do século XX justamente porque desmontou aquilo que tradicionalmente entendemos por teatro.

(Fernando Young/Divulgação)

“Fim de Partida” — Endgame, no original — poderia quase se chamar, para nós, simplesmente “Fim de Jogo”. E não é uma ideia tão absurda: em 2016, uma montagem brasileira da peça chegou aos palcos justamente com o título “Fim de Jogo”, no Sesc Vila Mariana, com Renato Borghi como Hamm e Elcio Nogueira Seixas como Clov. Porque é disso que se trata: um jogo que parece terminado e que, ainda assim, continua.

Nesta montagem, optou-se por “partida”, no duplo sentido de iniciar e finalizar.

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Um homem idoso de boina verde e óculos escuros, com batom escuro, olha para cima. Ao fundo, outro homem de camisa e colete marrons, com a mão na parede, parece surpreso. O cenário é escuro, com painéis de madeira
(Fernando Young/Divulgação)
Duas pessoas, uma mulher e um homem, emergem de cilindros cinzas, cada um com uma cabeça de manequim. A mulher, de cabelo ruivo e blusa escura, segura uma cabeça de manequim com cabelo ruivo. O homem, de barba e bandana amarela, abraça uma cabeça de manequim com barba branca. O fundo é escuro com painéis dourados
(Fernando Young/Divulgação)
Um homem de cabelos grisalhos, vestindo roupas esfarrapadas, inclina-se para entregar um boneco de pato a uma mulher idosa em cadeira de rodas. Ela usa óculos escuros, gorro e luvas, segurando o boneco com as mãos enfaixadas. O cenário é um palco escuro com fundo marrom.
(Annelize Tozetto/Divulgação)
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Não há uma história para acompanhar no sentido clássico. Não há linearidade, grandes acontecimentos ou uma narrativa que conduza o espectador pela mão. Há palavras, repetições, silêncios, comportamentos, relações de poder e quatro personagens presos a um mundo que parece já ter terminado.

E é desse aparente nada que Beckett tira tudo.

Hamm, vivido por Marco Nanini, está sentado em seu trono. A cadeira de rodas é também um trono. E há nele aquela certeza dos reis: quem é rei jamais perde a majestade. Hamm não precisa reivindicar o poder. Ele simplesmente o exerce. É mesquinho, autoritário, vaidoso, cruel e, nas mãos de Nanini, absolutamente deslumbrante.

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Mas Beckett não deixa nem o rei escapar da ironia do nome. Hamm pode nos fazer pensar em ham, presunto — o rei reduzido à própria carne, quase uma peça esperando a panela.

Um homem de cabelos grisalhos e roupas esfarrapadas empurra uma cadeira de rodas com outro homem idoso, de boina e óculos escuros, que sorri com as mãos unidas. Ambos estão em um palco com fundo de madeira, sob iluminação dramática
(Annelize Tozetto/Divulgação)
Dois atores, uma mulher de cabelos ruivos e um homem barbudo, sorriem enquanto emergem de latas de lixo abertas no palco
(Annelize Tozetto/Divulgação)
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Do outro lado está Clov, vivido por Guilherme Weber. Curvado, quase um Quasímodo, carrega no corpo sua condição de vassalo. Mas Clov também é um clown, um palhaço beckettiano que transforma a própria deformação e o próprio desajeitamento em linguagem cênica.

E há uma associação que me persegue: Clov, derivado de clover (trevo), pode nos fazer pensar em um dos símbolos da Irlanda. Não é uma tradução do nome, mas, diante de um autor irlandês, a aproximação ganha uma força curiosa: o trevo submetido ao rei.

Clov quer partir, mas permanece. Está sempre em reverência, porque essa é a sua posição. Seu corpo parece carregar uma cruz — e a cruz é também aquela relação da qual ele não consegue se libertar. Só que, pouco a pouco, a submissão começa a rachar. O vassalo descobre a possibilidade de sair. O fim pode ser também o fim da submissão.

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É uma espécie de lei de Muricy: cada um trata de si. E, paradoxalmente, é desse desencontro que nasce o sentido.

Porque, em Beckett, o sentido não está na história. Está no jogo. No jogo de palavras, nas repetições, nos gestos, nos silêncios, naquilo que os personagens fazem e deixam de fazer. Eles quase não se encontram — e é justamente desse não encontro que a peça se constrói.

O palco é grande e aberto. A cenografia de Daniela Thomas cria, dentro dele, uma espécie de história própria. Não é apenas um cenário: é um mundo. Um espaço que parece ter sobrevivido aos personagens e que, ao mesmo tempo, aprisiona todos eles.

A luz de Beto Bruel participa desse jogo. Esconde o que se quer mostrar e mostra o que se quer esconder. Não ilumina simplesmente; revela e encobre. É quase mais um personagem.

Rodrigo Portella radicaliza as posições. O caminho já é o fim, porque todos aqueles personagens já estão, de alguma maneira, no fim: Hamm em seu trono; Clov, condenado a permanecer de pé; e Nagg e Nell, vividos por Ary França e Helena Ignez, confinados dentro de seus cubos, como cucos de relógio que aparecem e desaparecem.

A presença de Helena Ignez e Ary França é pequena em duração, mas enorme em importância. Suas aparições interrompem a lógica daquele mundo e acrescentam mais significado à máquina beckettiana. São quase os cucos de um relógio quebrado, marcando um tempo que insiste em passar quando tudo parece já ter acabado.

A direção de Portella é brilhante, engenhosa, teatral e precisa. Ele entende que, numa peça em que quase não há movimento, o menor movimento precisa significar alguma coisa. O corpo vira linguagem. A repetição vira dramaturgia. O silêncio vira ação.

E há uma enorme dificuldade aí.

A prova do talento de todos é fazer teatro em um palco italiano, com atores magníficos, sem história e sem linearidade.

Apenas teatro.

SERVIÇO:

Teatro TotalEnergies (Rua do Russel, 804 — Glória)

Quintas e sextas, às 20h; sábados, às 19h; e domingos, às 17h.

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-fim-de-partida/

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