São Bento do Una, Pernambuco.
Tinha eu pouco mais de 10 anos quando entrei em casa, como fazia diariamente ao voltar do grupo escolar, correndo e gritando por minha mãe. Ela, colocando verticalmente o indicador direito sobre os próprios lábios, fez um prolongado ‘psiuuuuu’, e pediu-me que, antes de começar a falar, ficasse em silêncio e escutasse aquela música que tocava no enorme e recém-adquirido rádio Telefunken.
– Escute, meu filho, que coisa linda! A vida me ensinou que as músicas de carnaval, na verdade, podem ser incrivelmente tristes, mas dentro dessa linha podem ser belíssimas
“Ai, ai saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do clube das Pás, do Vassouras
Passistas traçando tesouras
Das ruas repletas de lá
Batidas de bumbos são maracatus retardados
Chegam da cidade cansados
Com seus estandartes no ar
Que adianta se o Recife está longe
E a saudade é tão grande
Que eu até me embaraço
Parece que eu vejo
Walfrido Cebola no passo
Recife está dentro de mim”
Minha mãe baixou a cabeça e, ao final da audição, vi uma furtiva lágrima escorrendo na sua face.
Mais tarde, aprendi que aquela música se chamava Frevo Nº1 do Recife e refletia a nostalgia de Antonio Maria, pernambucano radicado no Rio de Janeiro.
Alguns anos depois, estudando em Recife, avistei várias vezes o popular Colaço, muito branco e magro, decadente e quase sempre embriagado, perambulado nas calçadas da Avenida Guararapes. E a lágrima da minha mãe ressurgia em minha mente, sempre.
Naquela época o Rio de Janeiro, para mim, ainda era um quimérico e distante lugar.
Mas, por que estou escrevendo isto?
Porque, mais de meio século depois da minha mãe me pedir silêncio, morando na ainda linda, mas não mais utópica Rio de Janeiro, eu estava passeando de carro com meu único neto homem. Eu dirigia e ele, sentado e amarrado em uma cadeirinha no banco traseiro, matraqueva intensamente numa linguagem de dificil compreensão para aqueles que não têm os seus quase 3 anos. Liguei o rádio do carro em uma FM qualquer e eis que surge a voz inconfundível de Maria Bethânia:
“Ai, ai saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto…”
Inconscientemente fiz um prolongado ‘psiuuu’ e pedi para Antonio ficar em silêncio e escutar aquela música:
– Escute que coisa linda! A minha mãe me ensinou que as músicas de carnaval podem ser muito tristes, mas algumas são lindas.
Ele escutou-me e obedeceu. Calou-se.
Parei o carro no acostamento e escutamos até o final:
“Parece que eu vejo
Walfrido Cebola no passo
Recife está dentro de mim”
Felizmente, ou infelizmente, nunca saberei se, do seu banquinho, ele pode ver as muito pouco furtivas lágrimas do seu avô.
Com informações da fonte
https://temporealrj.com/saudade-tao-grande-coluna-alfeu/

