O anúncio de que o cult “Rocky Horror Picture Show” integrará a programação de 2027 da Sphere, em Las Vegas, provoca uma reflexão sobre como é possível que um filme B ícone do cinema underground que foi um fracasso retumbante de bilheteria possa ganhar sessões num local tão moderno, ilustre e sofisticado. Maior estrutura esférica do mundo, a Sphere é uma arena de entretenimento imersivo inaugurada em 29 de setembro de 2023.
Lançado em 1975, “Rocky Horror Picture Show” foi uma aposta sensata da 20th Century Fox, já que a peça musical fizera sucesso e ganhara prêmios no início da década. Só que o longa, inicialmente, deu errado, sendo retirado dos cinemas logo após a estreia por total rejeição do público. Em abril de 1976, os executivos do Waverly Theater, em Nova York, decidiram arriscar e incluíram a produção nas sessões de meia-noite. Esse horário atraía um público eclético composto por notívagos, pela comunidade LGBTQIAPN+ e por jovens da contracultura em busca de um ensaio compartilhado. O experimento deu muito certo e criou uma legião de fãs ao redor do planeta que passaram a subir no palco durante a exibição para encenar o filme à frente da tela. Essa tradição interativa transformou o assistir passivo em um ritual de forte caráter comunitário repetido até hoje nas sessões de “Rocky Horror Picture Show”.
Todo ano o filme é exibido no Rio de Janeiro, nos cinemas do Grupo Estação, com sessões lotadas e interativas. Na Sphere, essa experiência se tornará única não só para os fãs, mas também para o público em geral, já que o local é muito mais do que um cinema. A Sphere é uma vivência cinematográfica 4D totalmente imersiva que desperta os sentidos como nunca antes, com vistas panorâmicas de uma tela de LED de 160 mil pés quadrados (cerca de 15 mil m2) que exibe imagens em uma resolução impactante de 16K x 16K.
A Sphere, localizada no cassino The Venetian Resort, foi projetada para mergulho total. Por isso todos os assentos oferecem uma vista impressionante e áudio de alta qualidade. O espaço revolucionário de 366 pés de altura (cerca de 112 metros) conta com uma tela de LED envolvente em resolução 8K (com processamento de imagem 16K), áudio imersivo e efeitos 4D, redefinindo o entretenimento ao vivo e as experiências cinematográficas. Lá você se torna parte do que está sendo exibido como estivesse realmente dentro da tela. O local tem capacidade para até 20 mil pessoas, com espaço para espectadores em pé, no piso térreo, e 18,6 mil sentados.
Atualmente, “O Mágico de Oz” está sendo exibido com efeitos intensos de luz, som, aroma e movimentos para criar uma releitura interativa do clássico do cinema de 1939. Durante a projeção, além dessas características, a sequência com os macacos voadores surge não só na tela, mas também em réplicas físicas e em tamanho real operadas por drones e suspensas nas vigas do teto. Os macacos voam, de fato, por cima das cabeças do público. E ainda tem as 500 maçãs de espuma que caem sobre os espectadores, recriando a famosa cena do longa com as macieiras falantes. Os visitantes podem levar para casa as maçãs, que trazem a logomarca do filme, como lembrança. Essas maçãs se tornaram um objeto tão desejado que os fãs que não conseguem pegar nenhuma pagam até 500 dólares por uma.
Também os shows fazem parte do cardápio da Sphere. O local foi inaugurado oficialmente com a residência da turnê “UV Achtung Baby Live at Sphere”, do U2. Em 2026, as bandas Eagles, Phish, No Doubt, Backstreet Boys, Carín León, o cantor Kenny Chesney e o DJ ILLENIUM são as atrações. A mais aguardada do ano é a apresentação do grupo de thrash metal Metallica, com a turnê “Life Burns Faster”. A série de shows dará continuidade à tradição do “No Repeat Weekend” (fim de semana sem repetições), em que nenhuma música é repetida nas sessões de quinta e de sábado ao longo da temporada.
Contudo, nada é perfeito, e a Sphere acaba virando um problema para o espectador. Isso porque, após assistir a um filme ou a um show lá dentro, o nível de exigência se torna tão absurdo, que, além de causar sphere-dependência, qualquer outro evento cultural pode parecer muito menor.

