Se você já se pegou conversando com a Siri ou a Alexa como se fossem velhas amigas, o novo espetáculo em cartaz em Botafogo vai tocar em uma questão bem conhecida. Estreia no próximo dia 2 de julho, no Teatro Poeira, a comédia musical “Apocalip-se”. O texto inédito, escrito a quatro mãos pela vencedora do Prêmio Shell Julia Spadaccini e por Marcia Brasil, joga luz sobre um dos maiores paradoxos da atualidade: como a era da hiperconexão digital tem nos tornado cada vez mais solitários.
No centro do palco, o ator Jorge Caetano, vencedor do Prêmio APTR por “Outside“, dá vida a um homem que, preso aos resquícios do isolamento da pandemia, não consegue mais se relacionar com o mundo exterior. Sua única interlocutora é uma Inteligência Artificial, interpretada por Nina da Costa Reis, que passa de mera ferramenta a confidente e terapeuta. Jorge Caetano, que também assina a direção ao lado de Alexandre Mello, resume que “Apocalip-se é um monólogo profundamente humano sobre um homem que desaprendeu a estar com as pessoas. A peça pergunta até que ponto a tecnologia aproxima ou apenas cria a ilusão do encontro.”
Mais do que prever o fim dos tempos, a montagem propõe o neologismo “apocalipsar” — o ato de atravessar o fim de um mundo conhecido e elaborar as marcas emocionais deixadas pelo distanciamento social. Para as autoras, a Inteligência Artificial entra nessa equação de forma sedutora, mas perigosa. Julia Spadaccini alerta que “a IA acaba ocupando o lugar do outro. Ela parece substituir aquilo que é insubstituível: a presença imprevisível de uma pessoa.”
Marcia Brasil completa lembrando o contexto de criação da obra, comentando que “começamos a escrever a peça assombradas pelo ‘fim’ do teatro, no auge da pandemia. Hoje, entendemos que aquela experiência coletiva de afastamento abriu espaço para a fantasia de que companhias artificiais Digital poderiam preencher esse vazio.”
Codiretor do espetáculo, Alexandre Mello, destaca que “o texto investiga como a tecnologia construiu enormes pontes de comunicação que, paradoxalmente, acabaram nos afastando do encontro físico e da convivência real. Nós só existimos plenamente nas relações humanas. É dessa tensão entre humor, solidão e desejo de reencontro que nasce a força da peça.”
Embora a trama se concentre no isolamento do protagonista, ele não está sozinho no palco. O espetáculo ganha corpo de musical com a presença constante de quatro instrumentistas que executam, ao vivo, seis canções inéditas compostas por Caetano e Felipe Storino. Flertando com o rock e a MPB das décadas de 1960 e 1970, as músicas funcionam como o verdadeiro fluxo de consciência do personagem, traduzindo o que ele já não consegue expressar em palavras.
A atmosfera tecnológica e claustrofóbica é recriada pelo cenário repleto de telas de André Sanches, potencializado pelo design de vídeos de Letícia Pantoja e pela iluminação do premiado Paulo César Medeiros. A robusta equipe conta ainda com a direção de produção de Fábio Dobbs e Guilherme Scarpa. Em tempos de notificações incessantes e interações virtuais, “Apocalip-se” surge como um convite necessário para o espectador carioca desacelerar e redescobrir o valor do olho no olho.
SERVIÇO
APOCALIP-SE
Local: Teatro Poeira
Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Temporada: 2 de julho a 30 de agosto de 2026
Horários: Quinta a sábado, às 20h | Domingo, às 19h
Classificação: 14 anos. Gênero: Comédia Musical. Duração: 60 min.
Ingressos na bilheteria ou pelo Sympla: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia)
Renata Araújo é jornalista, editora do site You Must Go! e da página no Instagram @youmustgoblog.

