Grupos criminosos que operam no Brasil estendem rapidamente suas conexões e operações a outros países e em muitos casos atuam como se fossem multinacionais do crime. A definição é do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Segundo ele, a ideia de que o crime organizado se limita à figura de foras da lei protegidos por homens com fuzis em grandes complexos de favelas não reflete a realidade. Ele citou como exemplo as investigações sobre o Banco Master, liquidado pelo Banco Central, e que era comandando pelo empresário Daniel Vorcaro. Rodrigues afirma que nesse caso havia “uma organização criminosa identificada atuando”.
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— O crime organizado que nós temos enfrentado é muito diferente — disse em painel no Rumos 2026, evento realizado pelo Valor Econômico, em São Paulo, a Fernando Exman, chefe da sucursal do Valor em Brasília.
O delegado também colocou na categoria de organização criminosa os grupos que tentaram um golpe de Estado no país, após a eleição presidencial de 2022, e outros grupos — com ações em segmentos diversos — que também são hoje alvo de investigações.
Mas chamou atenção para os criminosos que transitam pelo mundo da legalidade, dos investimentos e dos centros de poder.
— Essas organizações criminosas do colarinho branco é que tentam interferir na economia e tentam alcançar determinados segmentos — contou Rodrigues.
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Nos últimos meses, operações realizadas por Ministério Público, PF e Receita Federal desmantelaram esquemas ilícitos dos quais, segundo as autoridades, participavam empresas do setor financeiro, do de combustíveis e integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), o maior grupo narcotraficante do Brasil.
A fórmula para frear as ambições criminosas de organizações com operações mais complexas passa por cooperação entre instituições e troca de informações, disse Rodrigues. Ele falou do papel importante no combate ao crime que têm tido instituições como Receita Federal, Banco Central, Controladoria Geral da União, setor de inteligência do INSS e secretárias estaduais de Fazenda.
— A gente tem conversado muito sobre essa pauta do enfrentamento ao crime organizado — disse o delegado, destacando os laços e conexões do crime no Brasil com outros países. — É uma grande multinacional, muitas vezes.
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O foco da PF, explicou, tem sido estrangular as finanças dos criminosos. Em 2025, a instituição apreendeu quase R$ 11 bilhões do crime organizado em veículos, imóveis, aviões, embarcações e dinheiro. Ele citou que entre os valores apreendidos “R$ 2 bilhões foram só de uma conta corrente da operação do caso Master”.
Também no evento, em conversa com Maria Cristina Fernandes, colunista do Valor, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, defendeu a autonomia da PF, em meio a investigações de casos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como o do Banco Master, e a fraudes em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), com suspeitas contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O ministro disse que o governo federal assegura a independência da PF, apesar de tentativas de interferência nos trabalhos da instituição:
— Há uma vinculação administrativa (da PF) ao Ministério da Justiça, mas a competência, a autonomia técnica é assegurada. A PF busca fazer seu trabalho com o padrão de excelência que tem norteado a sua atuação nos últimos tempos, reconhecida pela população brasileira como um todo.
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A tensão entre a PF e o STF se intensificou com as investigações do caso do Master, após o ministro Dias Toffoli, do Supremo, ser citado no registro de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso na semana passada. Toffoli era relator no STF do inquérito que trata das fraudes no banco e, sob pressão, pediu para deixar a relatoria.
Na reunião entre ministros do STF que selou a saída de Toffoli da posição de relator, magistrados criticaram a atuação da PF e avaliaram que a investigação de autoridade com foro no Supremo teria que ter autorização judicial prévia. A PF, porém, defendeu sua atuação.
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Rodrigues citou ainda o risco de infiltração do crime organizado nas eleições:
— Já há um projeto de segurança para as eleições apresentado ao ministro da Justiça, à presidenta Carmen Lúcia, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), onde vamos atuar também nessa vertente de coibir a entrada do crime organizado no sistema eleitoral, nas campanhas políticas.
O diretor-geral da PF afirmou que ações da polícia nas eleições municipais de 2024 deram pistas sobre o que se pode esperar para as eleições gerais deste ano.
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No painel mediado por Laura Ignacio, editora-assistente de Legislação & Tributos, e Marcos de Moura e Souza, repórter especial do Valor, o presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, disse que a Projeto de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, aprovada na semana passada na Câmara, é bem-vinda pois “rediscute as regras do jogo”, mas não deve melhorar o problema de segurança no Brasil.
— Enquanto a legislação endurece o tratamento de lideranças territoriais, não olha para a questão de lavagem de dinheiro com o devido afinco — disse, frisando que, sem enfrentar isso, a economia pode perder produtividade. — Não estamos olhando como o crime está afetando a economia — afirmou Lima, que é professor da FGV EAESP.
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Para ele, a economia “está sendo capturada pelo crime organizado” e o Brasil pode entrar em uma “espiral muito ruim”, similar ao que enfrenta o México e o que enfrentou a Itália com as máfias.
A Superintendente regional da Receita Federal na 8ª Região Fiscal (São Paulo), Márcia Cecília Meng, disse que o texto da PEC não incluiu ações mais preventivas, sobretudo de combate à lavagem de dinheiro. Já o coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade São Paulo, Leandro Piquet Carneiro disse que a “PEC decepcionou no aspecto fundamental”, citando as investigações sobre recursos financeiros.
Para o procurador-geral de Justiça do Estado de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, a PEC é um sinal positivo do Estado, de que pretende enfrentar os crimes, mas é preciso combater “de maneira organizada”, sem contaminação política.
O evento teve patrocínio de BTG Pactual, Febraban, FenaSaúde, Gerdau e Philip Morris Brasil; e apoio de Assaí e Embraer.

