‘Ela não é santa’. O crime tolerado da misoginia

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Uma estuprada a cada seis minutos. Mais de quatro assassinadas por dia. Por dizer não. — Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil


Às vésperas do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, escutei ontem um papo entre amigos no térreo de uma galeria em Ipanema. “Também, ela não era nenhuma santa, né? Devia saber onde estava se metendo”. Eles se referiam à jovem de 17 anos que sofreu estupro coletivo e agressões físicas num apartamento em Copacabana, depois de ser atraída para a emboscada por um ex, menor de idade.

O comentário jocoso fez subir o sangue. Mas fiquei na minha. Queria só assinalar: assim reage uma multidão de homens, jovens e velhos. Leitores da coluna. Amigos seus e nossos. Parentes. E até mesmo algumas mulheres. Racismo e homofobia foram tolerados por muito tempo no Brasil, e hoje são crimes inafiançáveis. Misoginia deveria seguir o mesmo caminho.

Fez comentário misógino? Fez gozação com uma vítima de feminicídio ou de violência sexual? Disse que ela é feia e não merece ser estuprada? Vai prestar contas com a Justiça. Foi aprovado projeto de criminalização da misoginia no Senado, em outubro. Agora, precisa passar na Câmara, antes da sanção presidencial. Votem logo. Aproveitem o 8 de março.

Tinha prometido a mim mesma não me debruçar de novo sobre essa doença social do ódio às mulheres. Não queria dar voz a assassinos tão covardes e cruéis. Silenciei nas redes quando o ex invadiu uma joalheria e matou com facadas a jovem em seu trabalho. E quando vi o vídeo da moça escalando muros, apavorada, antes de ser esmagada na calçada por golpes e pontapés do ex.

Mas avem a celebração do 8 de março. E esse estupro coletivo e as reações misóginas culpando a vítima me produziram revolta, tristeza e desânimo. Em 2025, o Brasil registrou mais de 83 mil estupros. São 227 vítimas por dia, nove por hora, um estupro a cada seis minutos. Felizmente, alguns homens começaram a protestar nas redes. Ainda são poucos. Fiquei emocionada com o depoimento do pediatra e pensador Daniel Becker.

“Nossa sociedade está se transformando numa máquina de triturar mulheres. Não é possível. Mulheres são nossa metade, nossa alma, nossas mães, nossas irmãs, nossas iguais. A gente não pode assistir passivamente. Sempre fomos uma sociedade machista, patriarcal. Mas isso parece estar piorando muito e rápido. São mulheres estupradas. Assassinadas. Quase cinco assassinatos por dia. Queimadas. Desfiguradas. Atropeladas. Amputadas. O que está acontecendo conosco?”

Becker aponta alguns caminhos para conter essa onda repugnante de ódio às mulheres. E um deles é a criminalização da misoginia. Disseminar o ódio nas redes deveria ser punido com prisão. “Convencer meninos de 8, 10 anos, a odiar mulheres, como fazem os Red Pills e os Incels, é crime”. O segundo caminho é a educação em casa. O terceiro é a escola, que precisa discutir incessantemente com meninos e meninas o significado da masculinidade.

“Um menino que abre conta nas redes, com 12 ou 13 anos, recebe imediatamente conteúdo misógino que começa com memezinho, piadinha, mas logo evolui para todo esse discurso de ódio, submissão, humilhação sexual. Tire seu filho das redes! É preciso restringir até 16 anos. Depois, o ajude a desenvolver pensamento crítico. Nossos filhos estão sendo educados por gente perversa, nojenta, violenta, que está ganhando muito dinheiro e destruindo a alma deles”.

No caso do estupro coletivo em Copacabana, a menina ficou morrendo de vergonha. Nem queria denunciar. Por medo de apontarem o dedo contra ela. E os meninos saíram do prédio como se saíssem de uma festinha. Vocês viram o vídeo? Saíram olhando o celular, calmamente, para a praia talvez, ou para o barzinho, sem culpa na consciência. E com a certeza da impunidade.

Feliz 8 de março pra vocês. Mulheres e homens.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/cultura/ruth-de-aquino/coluna/2026/03/ela-nao-e-santa-o-crime-tolerado-da-misoginia.ghtml

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