É preciso superar a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas pelo governo americano para tratar dos efeitos práticos. O Brasil pode aproveitar a legítima preocupação americana com o tráfico de drogas para obter apoio no enfrentamento às facções criminosas. Passam pelo território brasileiro rotas relevantes de escoamento de cocaína. Para enfrentar essa realidade, a cooperação externa é bem-vinda.
Brasil e Estados Unidos já mantêm acordos de cooperação que podem ser ampliados ou complementados. A pressão americana, ainda que contaminada pelo calendário eleitoral, pode ser usada para aproximar os dois países e tornar mais eficaz o combate ao crime organizado. Ambos podem trabalhar juntos em prol de interesses comuns.
A Receita Federal já mantém cooperação com sua congênere americana, o IRS, como relatou ao GLOBO o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas. Uma missão do Fisco brasileiro está prestes a embarcar para os Estados Unidos para ampliar a troca de informações. Na aproximação recente, Luiz Inácio Lula da Silva repassou a Donald Trump informações sobre um esquema de lavagem de dinheiro que se aproveita da legislação benevolente do estado americano de Delaware para abrir empresas que mantêm o nome dos sócios sob sigilo para, se falirem, não pôr o patrimônio deles em risco.
O dinheiro passa por diversos fundos de investimento no Brasil até seguir para Delaware na forma de empréstimos de fachada. Depois de passar por outras empresas nos Estados Unidos, o capital volta ao Brasil limpo, na forma de investimento externo. As facções criminosas brasileiras, de acordo com Barreirinhas, lançam mão desse esquema, esmiuçado recentemente na operação que teve como alvo a Refit. Um dos primeiros desdobramentos da nova fase de cooperação deveria ser a desmontagem do circuito conectado a empresas laranjas abertas em Delaware.
Uma inspiração para o Brasil está no México. Ao assumir seu segundo mandato, Trump classificou seis cartéis mexicanos do narcotráfico como organizações terroristas e declarou emergência na fronteira mexicana, ameaçando intervenção. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, ao mesmo tempo que declarava não admitir intervenção estrangeira, reforçou a vigilância, manteve-se em contato com Trump e soube aproveitar o canal de diálogo.
A troca de informações permitiu avanços na repressão ao tráfico, desbaratando laboratórios clandestinos de fentanil, opiáceo responsável por uma epidemia de mortes por overdose nos Estados Unidos. Em janeiro do ano passado, nota oficial do Departamento de Estado anunciou a formação de um grupo bilateral de segurança. O exemplo mexicano mostra que, em vez de perder tempo num embate estéril que não interessa a ninguém, o melhor é trabalhar lado a lado.

