“Caminho de Casa” parte de um ponto que deixou de ser exceção para virar experiência comum: o deslocamento dos papéis familiares com o envelhecimento. A mudança demográfica — mais tempo de vida, famílias menores — reposiciona filhos como responsáveis pelos pais. Mas, se as funções mudam, os afetos continuam atravessados por lacunas, culpas e silêncios.
É nesse território delicado que a autora Renata Mizrahi constrói o drama de Laura (filha) e Marta (mãe).
A escolha por uma narrativa assíncrona e não linear está longe de ser só um recurso estético. Funciona como uma arquitetura dramatúrgica que impede a peça de escorregar para o melodrama fácil. Também evita julgamentos simplistas — não tem mocinho nem vilão. A fragmentação do tempo espelha a falha da memória e organiza o olhar do espectador.
Sob direção de Miwa Yanagizawa, o que poderia ser pesado ganha leveza e respiro. Um equilíbrio delicado entre dor e delicadeza. A inserção de músicas cantadas e dançadas cria pausas necessárias — momentos de alegria breve, quase suspensa, que aliviam personagens e plateia. Não dilui o drama, humaniza.


No centro, a atuação magistral de Kelzy Ecard (Marta) impressiona pela precisão. Ela encontra em Juliana França (Laura) uma parceira sólida e sensível. Juntas, constroem uma relação que pulsa entre afastamento e tentativa de reconexão.
O trabalho de Kelzy se desenha como um “mal me quer, bem me quer” contínuo. Cada gesto parece calculado, cada pausa carrega sentido. Na voz, nos movimentos, na inclinação da cabeça, nada é aleatório. Há um rigor técnico que sustenta a emoção sem nunca cair no excesso. Juliana responde com presença firme, ancorando a cena com escuta e entrega. O resultado é uma dupla que fica na memória.

A peça nos convida a oscilar entre extremos: entre o canto e a dor, o riso e a perda — e reafirma, com sensibilidade, que a arte ainda pode tornar a alma mais respirável.
Entrevista com Kelzy Ecard:
1 – Sua atuação percorre diferentes estágios da demência, quase como vários personagens. Como você construiu isso sem perder a unidade?
Eu pesquisei bastante para construir a personagem, mergulhei fundo nas minhas histórias pessoais. Tivemos muito cuidado para que cada momento fosse colocado em cena de forma muito honesta. A personagem vive uma montanha-russa de situações e emoções — e eu, como atriz, também. Me coloco totalmente a serviço dessa história e, talvez, esse compromisso ajude nessa sensação de unidade.
2- Como foi sua preparação? Você estudou a doença, falou com especialistas ou teve contato com casos reais?
Eu li bastante, assisti a vídeos de pessoas reais, filmes, conversei com um neurologista próximo e tivemos o auxílio de uma amiga cuja mãe está num processo avançado da doença. Isso ajudou muito. Era importante identificar as várias fases, perceber os primeiros sinais, dar coerência e tratar tudo com muito carinho e respeito.
3 – Você tem alguma conexão pessoal com o tema?
Convivi com muitas pessoas com questões neurológicas ao longo da vida. Desde idosos em processos de demência até pessoas jovens com quadros graves… Acho que esse texto não chegou a mim por acaso.
4 – Como você equilibra técnica e emoção e cuida da saúde emocional num tema tão sensível?
Que bonito você dizer isso! É um exercício constante. Chego cedo ao teatro, aqueço voz e corpo, medito… tudo para me sentir disponível. Quando saio mais vulnerável, procuro meus afetos, consumo arte e, às vezes, me recolho um pouco. E faço terapia, claro! (risos)
5 – A governanta de “Três Graças” ganhou força como uma ‘antagonista da antagonista’. Como você vê essa recepção?
O nosso núcleo é de vilões, mas tem um certo alívio cômico, o que dá leveza. Acho que isso aproximou o público. Estou maravilhada com a recepção — foi uma surpresa linda. Muito feliz com o reconhecimento e com a importância que a personagem ganhou.
Serviço:
Sesc Copacabana
Quinta a sábado, às 20h
Domingo, às 18h


