Fotos feitas nesta segunda-feira (1º) no loteamento Estância seriam o primeiro registro do felino fora de área de mata preservada na cidade; Maricá Info procurou a Prefeitura, que ainda não respondeu.
Moradores do loteamento Estância, no bairro Caxito, registraram em fotografias nesta segunda-feira, 1º de junho de 2026, o que aparenta ser uma onça-parda (Puma concolor), também conhecida como suçuarana ou puma. As imagens mostram o animal em uma via da região, próximo a um muro, e em um quintal residencial. Se confirmada por análise técnica, a aparição será a primeira documentada fora das áreas de mata preservada de Maricá — todos os cinco registros anteriores do felino na cidade, desde 2021, ocorreram dentro do Refúgio de Vida Silvestre Municipal (Revimar) ou em propriedade rural de Ponta Negra.
O Maricá Info enviou uma demanda à Prefeitura de Maricá questionando se há registros oficiais da aparição desta segunda-feira e se equipes foram acionadas para o Caxito. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O texto será atualizado assim que a administração municipal se manifestar.
A onça-parda está classificada como Vulnerável à extinção pelo ICMBio na Mata Atlântica, não tem histórico de ataques a humanos no Brasil e é protegida por lei federal. Feri-la ou matá-la é crime ambiental.
Caxito fica no eixo onde o animal é monitorado
A geografia favorece o trânsito de fauna silvestre: Maricá tem mais da metade do território em unidades de conservação, e o Revimar sozinho soma 9 mil hectares, o dobro do Parque Nacional da Tijuca.
O biólogo Izar Aximoff, coordenador do Projeto Onças Urbanas (UFRJ/BioParque), vem alertando há anos que o mesmo macho adulto monitorado em Maricá se desloca pelo corredor que liga o Revimar à Serra do Mato Grosso, na divisa com Saquarema. Em flagrantes anteriores, Prefeitura, INEA e o projeto compararam pegadas, padrão de pelagem e marcas para confirmar a identidade do animal.
Cinco registros em quatro anos — e um resgate na divisa
A presença da espécie em Maricá foi confirmada pela primeira vez entre setembro e dezembro de 2021, quando câmeras flagraram um indivíduo no Revimar, no Espraiado. Foi um marco: o último relato de onça-parda na faixa litorânea fluminense remontava ao livro Sertão Carioca, de Armando Magalhães Corrêa, em 1936 — mais de oito décadas sem registro confirmado.
O segundo flagrante veio em outubro de 2023, também no Revimar. Em fevereiro de 2024, pela primeira vez fora de uma unidade de conservação, um macho adulto foi registrado em propriedade rural de Ponta Negra. Em abril de 2024, houve novo flagrante a cerca de 4 km da sede do Revimar. O último registro oficial é de janeiro de 2025, quando câmeras documentaram um animal de aproximadamente 2 anos no Revimar.
O episódio de maior repercussão regional ocorreu no município vizinho. Em julho de 2023, uma onça-parda macho de cerca de 45 kg entrou em uma garagem no bairro Jaconé, em Saquarema, na divisa com Maricá. O resgate envolveu Guarda Ambiental de Saquarema, INEA, IBAMA e BioParque do Rio, durou cerca de dez horas e terminou com o animal sedado, microchipado e devolvido à natureza em área de mata da divisa. Aximoff avalia que provavelmente se trata do mesmo indivíduo que circula pela região.
Onça-parda não é onça-pintada — e não vê o ser humano como presa
A onça-parda (Puma concolor) não é a mesma espécie da onça-pintada (Panthera onca). A pelagem é uniforme, em tons de bege a marrom-avermelhado, com a ponta da cauda preta, sem rosetas ou manchas. Machos adultos pesam de 53 a 72 kg, e fêmeas, de 34 a 48 kg. Outra diferença: o puma não ruge — emite miados e assobios.
O animal é solitário, territorial e de hábitos noturnos e crepusculares. Alimenta-se de capivara, tatu, paca, cateto, veado, gambás, aves e pequenos mamíferos. Quando o habitat está degradado, pode predar galinhas, ovinos e bezerros — por isso, em áreas como o Caxito, o risco maior é para animais domésticos e de criação, não para pessoas.
A espécie é classificada como Vulnerável nas listas nacional (ICMBio) e estadual (RJ). Estima-se que existam menos de mil indivíduos efetivos em toda a Mata Atlântica brasileira. Especialistas consideram a reaparição do felino no litoral fluminense um bioindicador positivo: mostra que o reflorestamento das últimas décadas começa a sustentar predadores de topo.
O que fazer (e o que não fazer) ao avistar o animal
Orientações consolidadas a partir de materiais oficiais do ICMBio, do IBAMA e do INEA e da experiência de equipes do BioParque do Rio:
O que fazer:
• Mantenha a calma e nunca corra — correr ativa o instinto de perseguição do felino.
• Mantenha contato visual e recue lentamente, sem dar as costas e sem movimentos bruscos.
• Tente parecer maior: levante os braços devagar, abra um casaco, fale firme e em voz alta.
• Recolha crianças no colo e proteja cães e gatos próximos.
• Se estiver em um veículo, mantenha as janelas fechadas e aguarde o animal se afastar.
• Acione o 153 (GEDAM/Guarda Municipal) ou o 190 (PM) e anote local, horário e a direção tomada pelo animal.
O que não fazer:
• Não se aproxime para fotografar de perto nem tente filmar a poucos metros.
• Não alimente, não encurrale e não tente capturar.
• Não use fogos, pedras ou tiros para afugentar, nem solte cães no encalço do animal.
• Não divulgue a localização exata nas redes sociais antes de avisar as autoridades — a viralização atrai curiosos e caçadores.
Ferir ou matar uma onça-parda é crime ambiental (artigo 29 da Lei 9.605/1998), com pena agravada por se tratar de espécie ameaçada de extinção.
Como proteger criações e animais domésticos no Caxito
A faixa do Caxito e do loteamento Estância exige atenção redobrada com animais ao ar livre. As recomendações oficiais pedem que cães, gatos, galinhas, patos e demais criações sejam recolhidos antes do anoitecer e mantidos abrigados até o amanhecer, períodos de maior atividade do puma. Galinheiros e currais devem ter telas resistentes e, quando possível, cerca elétrica de baixa amperagem. Mantenha a iluminação externa acesa e não deixe restos de ração ou alimentos no quintal, pois atraem roedores e gambás, que por sua vez atraem o predador.
Em caso de ataque a animais de criação, registre fotos das marcas, preserve o local e acione o INEA e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. A retaliação contra o felino também é crime.
Serviço: telefones e canais oficiais
Caso aviste a onça-parda em quintal, rua ou área urbana, acione a GEDAM/Guarda Municipal de Maricá pelo 153 ou (21) 96809-1516. Em emergência geral, animal preso ou ferido, ligue para Defesa Civil pelo 199, PM pelo 190 ou Bombeiros pelo 193. Para denúncia de caça, captura ou maus-tratos, acione a Linha Verde IBAMA pelo 0800 061 8080 ou o Disque Denúncia RJ pelo (21) 2253-1177. Para registro técnico e monitoramento de fauna, contate a Secretaria de Meio Ambiente de Maricá pelo (21) 2637-2052 ou o INEA pelo (21) 2324-7910. Animal ferido para reabilitação deve ser acionado ao CETAS-RJ (Seropédica) pelo (21) 99770-8076.
Esta matéria será atualizada caso a Prefeitura de Maricá, o INEA ou outro órgão oficial confirme tecnicamente o registro desta segunda-feira (1º) no Caxito.

