A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, foi um divisor de águas no enfrentamento ao crime organizado no Brasil. Ao identificar adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro por meio de fintechs (empresas de tecnologia que oferecem serviços financeiros) em plena Avenida Faria Lima, coração financeiro do país, a Receita Federal de São Paulo, em parceria com o Ministério Público paulista, revelou um esquema complexo de apropriação de cadeias produtivas —da importação ao varejo — e ocultação de patrimônio em fundos de investimento. A novidade da ação foi a participação de uma verdadeira força-tarefa no combate à facção criminosa PCC: além da Receita Federal e do MP, juntaram-se à operação a Polícia Federal, o Ministério da Justiça, o Ministério da Fazenda, a Polícia Militar e até a Agência Nacional do Petróleo (ANP).
À frente da Superintendência da Receita Federal em São Paulo desde 2023, Márcia Meng, de 60 anos, foi a primeira mulher a assumir o cargo. A unidade paulista concentra cerca de 50% dos processos da Receita no país, refletindo o peso econômico do estado. Meng tem uma trajetória sólida de trinta anos como auditora fiscal e trabalha pela atuação conjunta entre os diversos órgãos no combate à “bancarização” dos recursos do crime organizado.
— A Carbono Oculto foi um exemplo de atuação integrada entre diferentes órgãos. O foco está no sufocamento financeiro e na desarticulação da estrutura empresarial de grupos criminosos. Através do cruzamento de dados e inteligência fiscal, a Receita busca identificar esquemas que usam empresas de fachada, atividades econômicas ilícitas e fraudes fiscais para movimentar recursos — diz.
O amplo acervo de dados da Receita, diz ela, é estratégico: dota o Estado de ferramentas mais inteligentes para reprimir a atividade ilícita, sem criar entraves desnecessários para as operações lícitas na economia formal. A auditora vê a integração de bases de dados, o uso de inteligência artificial para gestão de risco e o fortalecimento dessas parcerias institucionais como uma verdadeira transformação tecnológica, que traz mais eficiência ao trabalho.
Com isso, em vez de focar apenas na ponta final — como fechar postos de gasolina individuais —, a ideia é “fechar a torneira dos recursos” na fonte, o que significa agir sobre importadores e distribuidores, buscando as lacunas logísticas que o crime explora para simular operações e sonegar impostos.
— O foco está em garantir equilíbrio: proteger e dar segurança jurídica a quem produz, importa e exporta de forma lícita, ao mesmo tempo em que se combate com rigor quem se utiliza da economia para práticas ilegais — define.

