Quando Mariel Mariscot entrou na Rua Acre naquele outubro de 1981, não imaginava que era um cabra marcado para morrer. Um dos grandes nomes do Esquadrão da Morte e considerado por muita gente uma espécie de xerife da Prado Júnior, em Copacabana, Mariscot era temido até pela sombra. A fama de galã e conquistador de artistas, como Darlene Glória e Rogéria, trazia ingredientes a mais para a aura de invencível do policial casca-grossa. Envolvido há tempos com a contravenção, ele estava justamente naquele cantinho do centro do Rio para uma reunião com importantes membros do jogo do bicho. As versões sobre o que seria acordado são muitas. O motivo de ter sido executado com vários tiros também. O fato é que aquele corpo sem vida estampou as primeiras páginas dos jornais populares e foi mais uma prova de que crime e polícia, infelizmente, podem andar juntos.
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A capela do cemitério de Ricardo de Albuquerque, na Zona Norte do Rio, estava abarrotada. Quem observava de fora podia até jurar que o morto era um santo popular ou algo do tipo — por claustrofobia, teve gente que tentou sair pela janela. Querido pela comunidade do Jacarezinho, o traficante Meio-Quilo tinha perdido a vida em uma tentativa ousada de fuga da cadeia da Frei Caneca. Quando comparsas aterrissaram um helicóptero no pátio da lendária penitenciária, uma troca de tiros aconteceu. Meio-Quilo foi alvejado. O boca a boca foi geral. Faixas foram pintadas em protesto. Nessa situação, o Rio ficou sabendo de um romance proibido: entre o bandido e a filha do vice-governador Francisco Amaral. Ela não foi ao hoje famoso enterro.
Ao contrário do Meio-Quilo, o traficante Escadinha conseguiu pegar carona em um helicóptero em pleno Natal de 1985, no presídio de segurança máxima de Angra dos Reis. Embasbacados com a inédita audácia, guardas ficaram olhando como se fosse a nave mágica da Xuxa chegando para um show apoteótico. Sem dar beijinho, beijinho, tchau, tchau, um dos homens mais poderosos do tráfico carioca meteu o pé e só foi preso novamente em março de 1986.
Da década de 1990 para hoje, muita água passou debaixo da ponte. Se antes bandido ostentava revólver calibre 38, hoje as facções têm armamentos capazes de derrubar avião. Com o tempo, a população se acostumou com palavras como caveirão, milícia, grupo de extermínio e até CV, TCP e PCC. Há tantas lideranças e diferentes conflitos que acompanhar esse mapa do crime carioca é tão desafiador quanto andar pela Transolímpica sem medo de ser roubado. Por isso, indico ver de perto a série “Donos do Crime”, que acabou de sair pelo GLOBO. São textos e vídeos sobre o que é preciso para compreender o buraco em que estamos envolvidos.
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No pouco tempo em que esteve preso em Ilha Grande, na década de 1960, o contraventor Castor de Andrade fez do xilindró um resort de luxo. Formado em Direito na atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, Castor teve regalias como cela especial, comida à la carte, cadeira na praia, vista privilegiada e, entre outros luxos, momentos de cantoria com outro preso: o apresentador, produtor cultural e grande incentivador da Jovem Guarda, Carlos Imperial. Juntos, compuseram canções. Há foto do inusitado instante.
E por falar na Frei Caneca…
O presídio que existiu na Rua Frei Caneca, no Catumbi, atravessou diferentes fases da história do Rio de Janeiro. Construído ainda no período imperial, nasceu com o nome de Casa de Correção da Corte. Décadas depois, em 1941, passou a se chamar Penitenciária Central do Distrito Federal. Mas nenhum desses nomes pegou tanto quanto o apelido popular inspirado na própria rua: Frei Caneca, denominação que acabaria batizando todo o complexo penitenciário da região.
Nos primeiros anos de funcionamento, menores apreendidos também eram mantidos no local. Eles integravam o Instituto de Menores Artesãos, onde aprendiam diferentes ofícios. Posteriormente, esses jovens foram transferidos para a Marinha, e os produtos fabricados por eles ajudaram no abastecimento das tropas brasileiras durante a Guerra do Paraguai.
Quando a Casa de Correção foi erguida, o bairro do Catumbi ainda tinha características bucólicas. O projeto original previa uma ligação direta entre o presídio e o mar, facilitando o escoamento da produção realizada pelos detentos e ampliando os lucros obtidos com o trabalho prisional.
A Frei Caneca também entrou para o imaginário popular por episódios inusitados. Em outubro de 1983, o traficante Escadinha conseguiu fugir do presídio vestido com uniforme da Polícia Militar. Ao passar pelo portão principal, um dos soldados ainda teria prestado continência ao fugitivo.
Já a demolição do complexo, em 2010, precisou ser adiada por algumas horas por um motivo incomum: um casamento. As implosões estavam previstas para as 11h, mas, por causa de uma cerimônia realizada em uma igreja batista próxima ao local, os trabalhos só começaram depois do meio-dia.

