Novo Anuário da Segurança Pública mostra que a capital fluminense está fora da lista das dez cidades mais violentas do país; ranking é inteiramente ocupado por municípios do Nordeste
Durante décadas, o Rio de Janeiro foi transformado em sinônimo nacional de violência. Basta uma operação policial, um tiroteio ou uma ocorrência grave para que imagens da cidade sejam repetidas em rede nacional, alimentando a impressão de que o território fluminense seria o epicentro absoluto da criminalidade brasileira.
Os dados mais recentes, no entanto, contam uma história diferente.
O ranking das cidades e dos estados mais violentos do Brasil, publicado nesta quinta-feira, 23 de julho, com base no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostra que nenhum dos dez municípios com as maiores taxas de mortes violentas intencionais do país está no Estado do Rio de Janeiro.
Para surpresa daqueles que insistem em apresentar a capital fluminense como a cidade mais violenta do Brasil, o Rio sequer aparece entre as dez, vinte ou cinquenta primeiras posições.
Na relação de 338 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, a cidade do Rio de Janeiro aparece apenas na *100ª posição, com uma taxa de **22,7 mortes violentas intencionais para cada 100 mil habitantes*. Isso significa que 99 cidades apresentaram índices superiores aos da capital fluminense em 2025.
As dez cidades mais violentas estão no Nordeste
Segundo o levantamento, as dez cidades com as maiores taxas de mortes violentas do Brasil estão concentradas no Nordeste. Cinco ficam na Bahia, três no Ceará, uma em Pernambuco e uma na Paraíba.
O ranking é liderado por Maranguape, no Ceará, com 100,3 mortes violentas para cada 100 mil habitantes. Em seguida aparecem:
1. Maranguape, no Ceará — 100,3;
2. Eunápolis, na Bahia — 85,1;
3. Maracanaú, no Ceará — 80,7;
4. Porto Seguro, na Bahia — 71,2;
5. Simões Filho, na Bahia — 68,1;
6. Jequié, na Bahia — 67,4;
7. Caucaia, no Ceará — 66,6;
8. Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco — 65,1;
9. Santa Rita, na Paraíba — 60,9;
10. Juazeiro, na Bahia — 55,8.
Maranguape, primeira colocada, registrou uma taxa mais de quatro vezes superior à da capital fluminense. Ainda assim, dificilmente essas cidades ocupam no imaginário nacional o mesmo espaço reservado ao Rio quando o assunto é violência.
Entre os estados, o Amapá permaneceu com a maior taxa de mortes violentas, com 42,5 casos para cada 100 mil habitantes. A Bahia aparece em segundo lugar, com 36,8, seguida pelo Ceará, com 34,7. Santa Catarina apresentou a menor taxa do país, com 7,6, seguida por São Paulo, com 7,8.
O peso da imagem e a seletividade da cobertura
Isso significa que o Rio não tem problemas de segurança? Evidentemente, não.
A cidade ainda enfrenta o domínio territorial de organizações criminosas, confrontos armados, roubos, furtos e uma estrutura histórica de violência que exige respostas permanentes do poder público. O próprio indicador de 22,7 mortes violentas por 100 mil habitantes permanece acima da média nacional de 19,1.
Mas reconhecer esses problemas é diferente de aceitar a falsa ideia de que o Rio é a cidade mais violenta do Brasil.
Os números mostram que essa afirmação não encontra respaldo no principal levantamento nacional sobre segurança pública. O problema é que a violência no Rio possui uma exposição que não se repete com a mesma intensidade em outras regiões.
A cidade concentra emissoras de televisão, redações, correspondentes, produtoras e câmeras. Um crime ocorrido diante de um cartão-postal carioca tem enorme repercussão. Uma operação nas comunidades é transmitida ao vivo. Um arrastão na Zona Sul ganha dimensão nacional em poucos minutos.
Enquanto isso, municípios com taxas de homicídios duas, três ou quatro vezes superiores aparecem pouco no noticiário nacional. A consequência é uma percepção distorcida, na qual a visibilidade da violência é confundida com a sua incidência estatística.
A violência brasileira não começa nem termina no Rio
O Anuário também informa que o Brasil registrou 40.775 vítimas de mortes violentas em 2025, uma redução de 8% na comparação com o ano anterior. A taxa nacional ficou abaixo de 20 mortes por 100 mil habitantes pela primeira vez na série histórica iniciada em 2012.
O indicador considera homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes provocadas por policiais. Portanto, trata-se de uma medida abrangente da violência letal, e não de uma seleção conveniente de ocorrências.
Os dados deveriam servir para uma correção de perspectiva.
A segurança pública do Rio precisa melhorar, mas a cidade não pode continuar carregando sozinha a imagem de uma crise que é nacional e que, em muitos lugares, apresenta índices significativamente mais graves.
O Rio não está entre as dez cidades mais violentas. Não está entre as cinquenta. Está na 100ª posição entre os municípios analisados.
Até quando, então, continuarão vendendo ao Brasil e ao mundo que o Rio de Janeiro é o centro da violência nacional?
Os números do Anuário mostram que a realidade é muito mais ampla — e muito diferente da narrativa repetida diariamente.

