O governo Lula voltou a ser colocado contra a parede por um caso que desafia seu discurso de defesa dos trabalhadores. Poucos meses após a polêmica exoneração do secretário de Inspeção do Trabalho responsável pela área que incluiu a BYD na Lista Suja do Trabalho Escravo, uma nova gigante chinesa passa a ocupar o centro de graves denúncias.
Na fábrica da Midea, em Pouso Alegre (MG), cerca de 1.200 trabalhadores cruzaram os braços depois que um funcionário denunciou ter sido agredido a chicotadas por um gerente chinês. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos, o operário levou socos e foi golpeado com uma gaxeta de borracha, em uma agressão que a entidade comparou aos castigos impostos a trabalhadores escravizados.
“Um trabalhador saiu de casa para ganhar o pão de cada dia e foi covardemente chicoteado. Infelizmente, num período muito vergonhoso da história do Brasil, trabalhadores escravizados eram chicoteados para produzir”, afirmou a tesoureira do sindicato, Cristiane Aparecida dos Santos.
O episódio reforça uma sequência de escândalos envolvendo grandes empresas chinesas instaladas no Brasil.
Em dezembro de 2024, auditores fiscais resgataram 163 trabalhadores chineses submetidos a condições análogas à escravidão nas obras da fábrica da BYD, em Camaçari (BA). A fiscalização encontrou jornadas exaustivas, alojamentos degradantes, retenção de passaportes e outras violações da legislação trabalhista. Após o fim do processo administrativo, a montadora foi incluída na Lista Suja do Trabalho Escravo, em abril deste ano, mas conseguiu retirar seu nome do cadastro por meio de uma liminar judicial.

Dias depois, o governo exonerou Luiz Felipe Brandão de Mello, secretário de Inspeção do Trabalho e responsável pela área que elabora a Lista Suja. Oficialmente, o Ministério do Trabalho afirmou que a mudança foi um ato administrativo. Já a Associação Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Anafitra) sustenta que a exoneração representou uma retaliação ligada ao caso da BYD.
O caso da Midea reacende um debate que o governo ainda não conseguiu encerrar.
Enquanto Lula intensifica a aproximação com a China e celebra a chegada de investimentos bilionários do país asiático, crescem as denúncias envolvendo empresas chinesas instaladas no Brasil. Midea, BYD e a terceirizada Jinjiang já protagonizaram episódios que vão de denúncias de agressão física e conflitos entre brasileiros e chineses a acusações de trabalho análogo à escravidão e violações de direitos trabalhistas.
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