Teatro: “O egoísmo causa o desaparecimento do outro”, diz Chalita

Tempo de leitura: 6 min


Transformar poesia em teatro costuma ser um desafio delicado. Em “Poemas”, novo texto teatral de Gabriel Chalita, essa travessia acontece com beleza, sensibilidade e uma surpreendente naturalidade.

Chalita, que prefere se definir como um “escrevedor de poesia”, reúne lembranças, afetos, saudades e reflexões sobre a existência em uma obra que passeia entre o íntimo e o universal. O resultado é um espetáculo que fala sobre aquilo que todos carregamos: os encontros, as perdas, os medos, as esperanças e o tempo.

À primeira vista, a montagem pode lembrar um sarau contemporâneo. Há duas vozes, dois corpos e muitas palavras. Mas a encenação rapidamente encontra uma identidade própria. Os intérpretes-criadores André Torquato e Marcos Pitombo conduzem o público por uma jornada de memórias e sentimentos, transformando versos em ação dramática.

Marcos Pitombo e André Torquato (Caio Galucci/Divulgação)
Dois homens de barba e cabelos escuros, com camisas claras e calças escuras, estão descalços em plataformas elevadas, um de frente para o outro, sorrindo em um palco escuro com pontos de luz coloridos
Marcos Pitombo e André Torquato (Caio Galucci/Divulgação)

A direção de Duda Maia é fundamental para essa transposição da poesia para a cena. Reconhecida pelo trabalho com a linguagem corporal, ela constrói uma dança permanente de aproximações e afastamentos, revelando as complexidades das relações humanas. Os movimentos não ilustram os textos; dialogam com eles, ampliando seus sentidos.

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Outro destaque é o desenho de luz de Gabriele Souza. As luzes parecem respirar junto com os atores, desenhando espaços, atravessando corpos e criando atmosferas que potencializam a narrativa. A trilha sonora original de Dessa Ferreira segue o mesmo caminho. Música e iluminação deixam de ser elementos de apoio para assumir papel de protagonistas na construção das emoções.

A cenografia e os figurinos de Stephanie Fretin e André Cortez ajudam a criar uma atmosfera delicada e poética, enquanto o desenho de som de Vitor Osório reforça a experiência sensorial.

Ao final, permanece uma pergunta: como transformar um conjunto de poemas em uma peça de teatro? A resposta está no palco. Gabriel Chalita, Duda Maia, André Torquato, Marcos Pitombo e toda a equipe criativa encontram um caminho singular. O resultado é um espetáculo contemporâneo e profundamente humano, capaz de transformar poesia em presença, palavra em corpo e reflexão em emoção compartilhada.

Conversar com Chalita é quase uma extensão da peça. Professor, escritor, palestrante e poeta, ele fala sobre educação, afeto e convivência com a mesma delicadeza que imprime em seus textos. Nesta entrevista, reflete sobre o papel da poesia, a importância do diálogo e os caminhos da criação.

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1. Quando nasceu o poeta Gabriel Chalita?

A poesia é uma delicadeza do universo para a alma. É um respiro que nos faz ver além. Ela sempre esteve presente na minha obra literária. Desde muito cedo, desde os meus 12 anos, a poesia me acompanha.

2. Como a poesia surge no seu cotidiano?

Anoto tudo. Uma conversa, uma ideia, um extraordinário escondido no ordinário. Gosto de observar as pessoas, suas crenças, suas manias, seus medos e seus enfrentamentos. Gosto de ouvir vidas e de beber o que ouço. Triste é o mundo em que o egoísmo provoca o desaparecimento do outro. Quando o outro desaparece, nós também desaparecemos.

3. O que a poesia ensina que a educação formal nem sempre alcança?

Arte e educação precisam caminhar juntas. A arte é redentora da educação. É inspiradora daquilo que nos eleva e nos une. O êxtase e o êxodo. A arte nos ajuda a compreender o sagrado do existir e o sagrado do existir junto, de caminhar de mãos dadas.

4. Você ajudou a aproximar nomes tão distintos quanto Lula e Alckmin. Qual a importância do diálogo hoje?

Eu acredito na força do diálogo. No consenso. Na superação daquilo que nos divide. Na maturidade para compreender as diferenças. Acabei de lançar um livro chamado “Educar para a Convivência”. Meu desafio, como educador e escritor, é usar a voz que tenho para ajudar as pessoas a conviverem melhor consigo mesmas e com os outros.

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5. O que move a sua criação?

O amor pela palavra e pelo poder que ela tem de transformar. E também uma crença inegociável na educação. Sou daqueles que acreditam que o ser humano nasceu para o bem. Quando se perde desse caminho, muitas vezes é porque faltou alguém para ensinar, orientar e semear valores.

Serviço:

Teatro Fashion Mall (Estrada da Gávea, 899 – São Conrado)

20/06 (sábado), às 18h e 20h30
21/06 (domingo), às 17h

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03, 04, 10, 11, 17, 18 e 25/07 (sextas e sábados), às 20h30
Dia 26/07 (domingo), às 17h

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)

 



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-o-egoismo-causa-o-desaparecimento-do-outro-diz-chalita/

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