Um levantamento apresentado durante audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) revelou que 9% dos entrevistados já deixaram de pagar contas de consumo para apostar em plataformas de apostas on-line. O dado faz parte de uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon), da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, e foi debatido nesta quarta-feira (24), durante reunião da Comissão de Legislação Participativa.
De acordo com a coordenadora do Nudecon, Luciana Telles da Cunha, o crescimento das apostas digitais tem contribuído para o aumento do endividamento da população. Segundo ela, muitos usuários enxergam as plataformas como uma forma de investimento e acreditam que poderão multiplicar seus recursos financeiros por meio das apostas.
“O apostador acredita que o jogo é um investimento capaz de multiplicar seu dinheiro. Na verdade, essa falsa noção leva ao aumento do endividamento da população”, afirmou.
A defensora pública lembrou que a autorização para exploração das apostas esportivas no Brasil foi criada em 2018, mas a regulamentação do setor só ocorreu cinco anos depois. Para ela, esse período permitiu a expansão acelerada das plataformas e de suas estratégias de divulgação.
Durante a audiência, o presidente da Comissão de Legislação Participativa, deputado Yuri Moura (PSol), afirmou que os impactos das apostas vão além das perdas financeiras e atingem áreas como saúde pública, relações familiares e segurança. O parlamentar defendeu medidas mais rigorosas para conter o avanço das bets no estado.
Entre as iniciativas em discussão na Alerj estão projetos de lei voltados à conscientização sobre os riscos do vício em jogos de azar, ao combate à lavagem de dinheiro em plataformas de apostas e ao fortalecimento da fiscalização do setor. Yuri também anunciou a criação de um grupo de trabalho para acompanhar o tema e desenvolver um observatório estadual sobre apostas on-line.
A audiência também abordou os impactos das bets na saúde mental. Representando o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, o psicólogo Thiago Rodrigues destacou que a ludopatia — transtorno caracterizado pela compulsão por jogos de azar — é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pode levar pessoas a continuar apostando mesmo após sucessivas perdas financeiras.
O debate contou ainda com o relato da advogada e auditora fiscal Juliana Prates, que perdeu o irmão para o suicídio após ele desenvolver dependência em apostas. Segundo ela, o familiar acumulou perdas financeiras, passou a apresentar sinais de sofrimento psicológico e deixou uma carta relatando ter perdido todos os seus recursos antes de tirar a própria vida.
Além de representantes da Defensoria Pública, participaram da audiência integrantes do Ministério da Saúde, especialistas em saúde mental e representantes de entidades que atuam no apoio a pessoas com dependência em jogos e suas famílias.


