Nos últimos meses, o impacto de escolas em tempo integral foi pauta a partir de pesquisas que focaram em indicadores de aprendizagem, algumas com conclusões mais preocupantes, outras mais otimistas. É um debate necessário. Mas, na análise do retorno desse investimento, é preciso olhar também para variáveis que extrapolam a sala de aula. Um recente estudo de pesquisadores da FGV, por exemplo, mostra que a expansão de escolas em horário integral em São Paulo reduziu crimes contra o patrimônio em cerca de 7%.
Para chegar a essas conclusões, Augusto Alves, Bruno Pantaleão e Alei Santos cruzaram dados geolocalizados de crimes na cidade de São Paulo com os registros de expansão do Programa de Educação Integral do governo paulista, entre 2010 e 2024. Em seguida, investigaram se a adesão de uma escola ao programa impactava crimes registrados num raio de 500 metros ao seu redor. Como as escolas aderiram ao programa em diferentes tempos, foi possível comparar áreas que já contavam com um estabelecimento de tempo integral com outras onde só mais tarde houve adesão.
A redução da criminalidade ao redor de escolas em tempo integral pode ter ocorrido por variados fatores. O estudo consegue identificar com mais precisão um deles: a “incapacitação”, ou seja, o fato de jovens com maior probabilidade de se envolverem em crimes estarem mais tempo na escola e menos tempo nas ruas. Esse achado é reforçado pelo fato de a redução verificada da criminalidade estar concentrada em dias letivos e durante o horário das aulas, sendo significativamente menor ou inexistente nos demais períodos. No caso de roubos, por exemplo, a queda foi de 12% durante o horário escolar, e de 9% fora dele. No de furtos, a redução chega a 26% no horário das aulas, e aumenta em 4% nos demais horários.
Além da incapacitação, a literatura acadêmica aponta também que a ampliação do capital humano e do custo de oportunidade podem ser relevantes. Se, por exemplo, perspectivas de acesso ao mercado de trabalho tornam-se melhores graças à escolarização, o custo de envolvimento num crime torna-se maior para um jovem que está numa situação limite. Outra dimensão citada em estudos da área é o efeito entre pares e do ambiente social: interações positivas com adultos e outros jovens tendem também a desestimular a participação no crime. Esses mecanismos não são excludentes entre si, sendo que alguns podem ser percebidos apenas no longo prazo, o que demandaria outros desenhos de pesquisa e tempo de acompanhamento dos beneficiados.
O papel da escola, obviamente, não pode ser resumido aos seus impactos na segurança pública. Mas outros estudos, no Brasil e no mundo, já haviam apontado para alguma relação entre escolarização e redução da criminalidade. Em 2022, Leonardo Rosa e coautores identificaram efeitos da expansão do horário integral na redução de homicídios em Pernambuco. Em 2016, Daniel Cerqueira e coautores mostraram que a expansão da escolarização na faixa etária de 15 a 17 anos no Brasil estava associada a uma redução nos homicídios.
