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O encontro acontece no âmbito do que o republicano chama de “Doutrina Donroe”, sua versão da histórica Doutrina Monroe, com a qual prometeu intervir para promover os interesses de Washington no hemisfério ocidental, aumentar a segurança do país e interromper a influência de potências como a China.
Um exemplo da aplicação da doutrina foi a operação das forças americanas que terminou com a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro em Caracas, ou o bloqueio imposto ao fornecimento de petróleo a Cuba.
Em Doral, perto de Miami, o presidente receberá líderes de direita, incluindo aliados próximos como o argentino Javier Milei, o equatoriano Daniel Noboa e o salvadorenho Nayib Bukele, elogiado por Trump por sua bem-sucedida e polêmica campanha para reduzir drasticamente a violência das gangues.
Os convidados compartilham a preocupação de Washington com o avanço do crime organizado no continente, um fenômeno que afeta inclusive países que até recentemente eram considerados bastante seguros, como Chile e Equador, explica Irene Mia, especialista em América Latina no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês).
A situação, que ajudou a direita latino-americana a vencer eleições recentes, faz com que a política intervencionista dos Estados Unidos no restante das Américas não receba a rejeição que seria de se esperar, dada a longa história de intervenções de Washington no continente, acrescenta a analista.
“Um equilíbrio frágil”
Além de Bukele, Milei e Noboa, Trump convidou os presidentes da Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Panamá, Paraguai, Guiana e Trinidad e Tobago, assim como o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast.
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Alguns governantes souberam aproveitar taticamente a boa relação com o republicano, além da afinidade ideológica. O hondurenho Nasry Asfura recebeu, por exemplo, um apoio importante do presidente americano nas eleições do ano passado.
No caso de Milei, sua boa relação com Trump ajudou na concessão, por parte de Washington, de uma linha de financiamento e ‘swap’ cambial de 20 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 104 bilhões) no ano passado.
Mas a coalizão de governos gera dúvidas sobre seu alcance e duração, segundo Irene Mia.
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A analista ressalta que as propostas de Washington para a América Latina são baseadas em uma agenda puramente negativa.
— Tudo se reduz às ameaças que a região representa para a segurança dos Estados Unidos: migração e crime organizado — diz.
Mia também aponta outra fragilidade da reunião de cúpula dedicada ao combate ao narcotráfico: a ausência de México e Brasil, governados pelos presidentes de esquerda Claudia Sheinbaum e Luiz Inácio Lula da Silva.
Os cartéis mexicanos comandam a cadeia global do narcotráfico e as organizações criminosas brasileiras controlam portos cruciais utilizados para o envio ilegal de drogas à Europa, explica Mia. Uma iniciativa sem eles “não conseguirá resolver os problemas”, acrescenta.
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A analista também alerta para o risco de basear as alianças na proximidade ideológica, já que os governos podem mudar nas próximas eleições e estabelecer prioridades diferentes.
Para ela, o apoio dos Estados “é bastante frágil devido à relação problemática” entre a América Latina e os Estados Unidos.
— É um equilíbrio muito delicado saber se a população aprovará a política de Trump e até quando — conclui.

