Uma coisa ficou muito clara ao longo dos encontros, entrevistas e conversas da IPW, este ano em Fort Laudardale. O turismo americano está tentando combater a avalanche de desinformação que passou a cercar as viagens para os EUA nos últimos meses.
Essa foi minha terceira viagem ao país só este ano e o contraste entre o que vejo na prática e o que circula nas redes sociais nunca pareceu tão grande. Frequento a IPW, principal feira de turismo do país desde 2015, e acompanho diferentes momentos do turismo americano — inclusive períodos politicamente muito mais tensos do que o atual. Ainda assim, o discurso que mais ouvi nesta edição foi direto: o turista internacional continua sendo desejado, especialmente o brasileiro.
A IPW deste ano reuniu mais de 5 mil participantes de cerca de 60 países, entre compradores, jornalistas, companhias aéreas, hotéis, destinos e representantes do setor turístico do mundo inteiro. Durante reuniões com representantes de destinos, companhias aéreas e órgãos de turismo, além de diversas entrevistas coletivas ao longo da feira, a preocupação era praticamente unânime: o medo criado pela internet.

A sensação que muita gente tem hoje é a de que viajar para os EUA virou quase uma loteria. Como se todo brasileiro estivesse sujeito a interrogatórios intermináveis, “salinhas” ou deportações. Mas a realidade está longe disso. Sim, casos existem. Sempre existiram. Mas continuam sendo exceções — não regra.
É quase como o estereótipo que muitos estrangeiros ainda têm do Rio e de São Paulo: a ideia de que qualquer pessoa que desembarque nessas cidades inevitavelmente será assaltada. O problema é que as redes sociais amplificam experiências isoladas até elas parecerem universais.
A campanha para combater fake news
E o próprio setor de turismo percebeu isso. Durante o evento, a U.S. Travel Association reforçou iniciativas para combater fake news ligadas ao processo de entrada no país. A campanha “Get Facts. Get Going.” busca justamente reunir informações oficiais e atualizadas sobre vistos, imigração e documentação para evitar que viajantes tomem decisões baseadas em boatos de internet.

Os números ajudam a explicar essa preocupação. O Brasil segue entre os mercados prioritários para o turismo americano e continua entre os quatro países que mais enviam visitantes ao destino, atrás apenas de México, Canadá e Reino Unido. Foram quase 2 milhões de brasileiros em 2024.

Orlando além dos parques
Orlando, por exemplo, continua sendo um dos destinos favoritos dos brasileiros e aparece entre os principais mercados internacionais da cidade, com quase 700 mil visitantes brasileiros em 2024. E a cidade parece determinada a expandir ainda mais sua imagem além dos parques temáticos.

Na feira, o Orlando Magic apresentou dados que mostram o tamanho da presença brasileira por lá: o Brasil já é o segundo maior mercado internacional da NBA para a franquia, atrás apenas do Canadá. O movimento faz parte de uma estratégia maior de Orlando para unir turismo, entretenimento e experiências esportivas — algo que aparece cada vez mais forte no destino. Aliás, a preparação para a Copa do Mundo de 2026 aparece em praticamente todos os painéis da feira. Hotéis, aeroportos, infraestrutura e experiências já começam a se adaptar ao aumento esperado no fluxo internacional.

O país quer ser redescoberto
Mas talvez o mais interessante tenha sido perceber como o país tenta se reposicionar para um novo perfil de viajante. Vejo menos foco naquele turismo óbvio de compras e mais investimento em experiências culturais, gastronomia regional, wellness, parques nacionais, hotéis integrados à natureza e viagens mais personalizadas.

Nova York fala mais de bairros e experiências locais do que de consumo. Utah aposta em natureza sofisticada e hotéis imersos nas paisagens desérticas. Las Vegas amplia o discurso em torno de gastronomia, esportes e entretenimento premium. E Porto Rico aproveita o fenômeno global de Bad Bunny para reforçar sua identidade cultural, musical e latina como ferramenta de atração turística.


Também fica evidente que o viajante mudou muito depois da pandemia. Hoje, as pessoas querem conforto, mas também autenticidade. Querem viajar com mais significado, mais conexão cultural e menos sensação de roteiro engessado. E talvez essa seja minha principal impressão desta edição da IPW: o turismo americano parece entender que o país precisa ser redescoberto.
Muito além dos estereótipos
Porque, no fim, continua oferecendo algo raro no turismo global: a sensação de vários destinos completamente diferentes dentro de uma mesma viagem. Tem lagos, neve, montanha, deserto, parques nacionais, grandes cidades, road trips cinematográficas, música ao vivo, gastronomia multicultural e experiências para praticamente qualquer perfil de viajante.

Claro que o momento político gera debates e percepções distintas. Mas isso não deve ser confundido com a experiência turística.
Depois de mais uma cobertura da IPW — e de circular novamente pelo país este ano — a impressão que fica é simples: viajar para os EUA continua muito mais simples do que a internet faz parecer.
Renata Araújo é jornalista, editora do site You Must Go! e da página no Instagram @youmustgoblog.

