Em uma região estratégica para o combate ao narcotráfico e ao crime organizado, a Delegacia da Polícia Federal em Tabatinga (AM) enfrenta um colapso operacional devido à escassez de pessoal e à desestruturação interna. É o que aponta e cobra uma ação do Ministério Público Federal (MPF) impetrada contra a União na Justiça Federal. O órgão busca medidas urgentes para recompor o efetivo e garantir o andamento das investigações criminais na área da Tríplice Fronteira Amazônica, região onde o Brasil (Amazonas), a Colômbia e o Peru se encontram no rio Solimões, abrigando as cidades de Tabatinga (Brasil), Letícia (Colômbia) e Santa Rosa do Javari (Peru).
Atuação das Farc: rios amazônicos viram porta de entrada de ‘supermaconha’ no país
Tríplice Fronteira: narcotráfico invade aldeias na e indígenas já estão em toda a cadeia da droga
Balanço feito pelo MPF na ação obtida pelo GLOBO mostra que a delegacia da PF em Tabatinga foi reduzida “a um quadro de pessoal incompatível com a extensão, a complexidade e a relevância de suas atribuições, e essa insuficiência já se converteu em paralisação, desorganização e perda de efetividade de investigações criminais”.
A situação na unidade atingiu níveis críticos, segundo o MPF. Enquanto em 2023 a delegacia contava com cinco delegados de Polícia Federal, atualmente o quadro foi reduzido a apenas dois profissionais. Como uma das autoridades acumula as funções de chefia, a quantidade das investigações sobrecarrega quase integralmente o outro delegado, que hoje responde por cerca de 90% dos inquéritos.
Dados do MPF indicam um agravamento expressivo na concentração de trabalho: em março de 2026, a unidade contabilizava 141 inquéritos policiais em tramitação, frente a 95 registros em outubro de 2024. Essa disparidade elevou a média de inquéritos por delegado de 19 para mais de 70, evidenciando uma sobrecarga que, segundo o MPF, resulta na paralisação de investigações, descumprimento de diligências e sucessivos pedidos de adiamento de prazo.
Na ação, o MPF argumenta que a relação encaminhada em março de 2026, contendo os procedimentos instaurados a partir de setembro de 2025, revela acentuada desigualdade na distribuição da carga de trabalho entre as duas autoridades policiais. Dos 18 inquéritos policiais relacionados, apenas 3 estavam sob a responsabilidade de uma das delegadas, enquanto os outros 15, correspondentes a 83,3% do total, encontravam-se atribuídos ao outro delegado, em proporção de cinco para um.
A assimetria, segundo o MPF, era ainda mais expressiva em relação às 28 notícias-crime: 4 estavam distribuídas a uma delegada e 24 ao outro delegado, que concentrava, portanto, 85,7% dos procedimentos, em proporção de seis para um. Os dados demonstram que a insuficiência de pessoal é agravada por uma distribuição manifestamente desproporcional do acervo, com concentração superior a 80% dos procedimentos em uma única autoridade policial.
Barco no Rio Japurá: Exército apreendeu 93 quilos de maconha do tipo “skunk” perto da Colômbia em 2024
Reprodução
O MPF ressalta ainda a contradição do governo federal ao anunciar a instalação de novas delegacias da PF em Tefé, Humaitá e Itaituba (PA) em junho de 2026, com destinação de novos servidores e equipamentos, enquanto a unidade de Tabatinga — situada em um dos pontos mais sensíveis da entrada de drogas no país — permanece com quadro drasticamente reduzido.
Para o procurador da República que assina a ação, Guilherme Diego Rodrigues Leal, a expansão da presença da Polícia Federal no interior da Amazônia é legítima, mas não pode ocorrer “sem que, simultaneamente, sejam asseguradas condições mínimas de funcionamento às unidades já existentes”.
Além da polícia judiciária da União e da repressão aos crimes federais, a delegacia da PF em Tabatinga desempenha funções de polícia de fronteira, marítima e aeroportuária e presta serviços de migração, passaportes, controle de armas, produtos químicos e segurança privada. “É ponto operacional do Estado brasileiro em uma das regiões mais sensíveis do território nacional, não se tratando, portanto, de uma unidade com demanda residual”, diz o documento.
Pedido de multa e cobrança de novos agentes
Operação do Comando Militar da Amazônia durante as buscas por Bruno e Dom
Divulgação/Exército
A Ação Civil Pública requer que a União adote providências concretas e imediatas para sanar as deficiências de pessoal e recursos materiais, assegurando a capacidade da delegacia de cumprir suas funções constitucionais de polícia de fronteira e judiciária.
O MPF estruturou uma série de prazos graduais para a recomposição da Delegacia de Polícia Federal em Tabatinga. Inicialmente, a União deve, em 15 dias, apresentar um quadro atualizado detalhando a situação de pessoal e carga de trabalho. No prazo de 30 dias, deve ser restabelecido o contingente mínimo de cinco delegados em exercício presencial, além da implementação de um plano emergencial para escrivães e agentes. Em 45 dias, a Polícia Federal deve concluir a revisão integral do acervo, identificando procedimentos pendentes e riscos prescricionais.
Quanto à estrutura definitiva, a União tem 60 dias para elaborar um plano técnico de dimensionamento permanente, cujo cronograma de implementação total não pode exceder 180 dias. Por fim, a partir do início da execução desse plano, a União deverá apresentar relatórios trimestrais de acompanhamento durante um período de 24 meses.
Como garantia para o cumprimento dessas obrigações, o MPF solicitou a fixação de uma multa diária de R$ 5 mil por obrigação descumprida, ressaltando a possibilidade de adoção de outras medidas executivas previstas no Código de Processo Civil.
Procurada, a Polícia Federal não retornou aos contatos da reportagem até o momento. O espaço segue aberto para manifestações.
Bruno e Dom
Registro de Bruno Pereira e Dom Phillips em Tabatinga, no estado do Amazonas, a caminho do Vale do Javari, em 2018
Divulgação/Gary Calton/2018
A judicialização do caso é o desfecho de anos de monitoramento pelo MPF, que desde 2023 identifica falhas sistemáticas na condução de inquéritos. Após diversas tentativas de solução extrajudicial, incluindo a tentativa frustrada de realizar uma reunião interinstitucional — à qual a Polícia Federal não compareceu —, o Ministério Público concluiu que o quadro não é resultado de falhas individuais, mas de uma insuficiência estrutural sistêmica que exige intervenção imediata.
É neste cenário de extrema hostilidade, que em 2022 foi palco do brutal duplo homicídio do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. O cenário de insegurança em Tabatinga é agravado por uma mudança nas dinâmicas criminosas. Relatos recentes apontam que a atuação de grupos como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) transformou os rios amazônicos em uma das principais “portas de entrada” para drogas sintéticas, como a supermaconha, no território brasileiro. Enquanto o crime organizado se sofistica, a estrutura de resposta estatal enfrenta um retrocesso: estudos indicam que, na última década, os recursos destinados especificamente ao combate de crimes em zonas de fronteira sofreram uma queda de 71%.
Essa realidade gera prejuízos acumulados a toda a região, com entidades municipalistas alertando que o descaso com a segurança nas áreas limítrofes desprotege populações locais e facilita a expansão de facções transnacionais.
Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/07/15/mpf-vai-a-justica-contra-sucateamento-da-policia-federal-na-triplice-fronteira-amazonica.ghtml

