- Vendas livres, ruas sem controle: como o problema chegou até aqui
- Ciclofaixas ocupadas e calçadas bloqueadas
- O alerta que vem do Rio: 702% de alta em acidentes em um ano
- Câmara de Maricá já debateu o tema: vereador Frank Costa apresentou projeto de lei
- O que precisa mudar — e quem tem responsabilidade em Maricá
- Mobilidade que avança, regulação que ficou para trás
Veículos elétricos de duas rodas se multiplicam nas vias do município sem emplacamento, sem habilitação e sem nenhum controle do poder público. Quase acidente registrado por câmera de bordo na última terça-feira acende o alerta — e os dados do Rio de Janeiro mostram onde esse caminho pode chegar.
Um motorista que trafegava por uma das ruas de Maricá na última terça-feira quase foi vítima de uma colisão frontal. O responsável pelo susto: uma scooter elétrica vindo em alta velocidade pela contramão. As imagens foram capturadas pela câmera de bordo do veículo e mostram com clareza o risco que esse tipo de situação representa para motoristas, pedestres e para os próprios condutores desses equipamentos.
O episódio não é isolado. É o retrato de um problema que cresce silenciosamente nas ruas de Maricá: a proliferação desordenada de scooters e bicicletas elétricas sem qualquer fiscalização, sem emplacamento obrigatório e, em muitos casos, sendo conduzidas por pessoas sem o mínimo preparo — incluindo crianças.
Vendas livres, ruas sem controle: como o problema chegou até aqui
Scooters elétricas e bicicletas elétricas são vendidas livremente em lojas físicas e plataformas de comércio eletrônico em todo o Brasil. Não há exigência de habilitação para a compra, e a fiscalização sobre o uso nas vias públicas praticamente inexiste em Maricá. O resultado é visível no dia a dia: veículos trafegando em alta velocidade dentro de ciclofaixas, ultrapassagens perigosas, circulação na contramão e condutores que desconhecem as regras básicas do Código de Trânsito Brasileiro.
Mas o que mais preocupa é o perfil de quem está ao guidão. Não raro, é possível ver mães transportando crianças pequenas no colo, sem qualquer equipamento de proteção. Em outros casos, são os próprios menores que pilotam sozinhos esses veículos, sem capacete, sem habilitação e sem noção dos riscos que correm — e que impõem aos outros.
Com o passar dos meses, o número de veículos desse tipo aumentou exponencialmente em Maricá. A facilidade de compra, o baixo custo de manutenção e a ausência de fiscalização criaram um ambiente propício para o uso irresponsável.
Ciclofaixas ocupadas e calçadas bloqueadas
O problema não se restringe ao momento em que o veículo está em movimento. Quando param, scooters e bikes elétricas também causam transtorno. Por não exigirem emplacamento na maioria dos casos, esses veículos são estacionados de forma irregular nas calçadas — muitas vezes bloqueando a passagem de pedestres, cadeirantes e carrinhos de bebê. Vagas destinadas a motocicletas em estacionamentos também são frequentemente ocupadas por esses equipamentos, gerando conflito com os motociclistas habilitados.
A questão do estacionamento revela uma lacuna de infraestrutura que vai além da fiscalização. Cidades como Xangai, Pequim e Shenzhen, na China — onde a micromobilidade elétrica faz parte estrutural do sistema de transporte urbano —, investiram em paraciclos e estações de recarga exclusivas distribuídas pela malha urbana. Sem esse planejamento em Maricá, a tendência é que calçadas e vagas de moto continuem sendo improvisadas como solução.
O alerta que vem do Rio: 702% de alta em acidentes em um ano
Para entender para onde Maricá pode caminhar sem ação imediata, basta olhar o que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro. Os dados são alarmantes.
A Secretaria Municipal de Saúde do Rio registrou 274 atendimentos por acidentes envolvendo veículos de micromobilidade em 2023. No ano seguinte, esse número saltou para 2.199 — uma alta de 702% em apenas doze meses. O Corpo de Bombeiros do Estado (CBMERJ) registrou 162 ocorrências com veículos elétricos de duas rodas em 2024, número que quase triplicou em 2025, chegando a 431 casos.
Os acidentes deixaram vítimas com nomes e histórias. Em julho de 2024, uma criança de 3 anos e outros dois adultos ficaram feridos após a colisão entre duas bicicletas elétricas na mesma orla. No mesmo período, a aposentada Laura Dutra, 67 anos, foi atropelada na calçada por um jovem em bike elétrica que trafegava na contramão.
Em maio de 2025, uma idosa de 63 anos foi atropelada em Ipanema por uma bike elétrica conduzida por um menor — em local onde o uso já era expressamente proibido por lei.
“O trânsito virou caso de saúde pública. As pessoas estão se matando ou ficando com sequelas gravíssimas por causa da imprudência delas mesmas”, resumiu Raphael Pazos, da Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio de Janeiro.
Se Maricá não agir com urgência, especialistas e moradores advertem: é questão de semanas até que um acidente grave seja registrado no município.
Câmara de Maricá já debateu o tema: vereador Frank Costa apresentou projeto de lei
O problema não é novidade para o legislativo local. Em setembro de 2025, a Câmara Municipal de Maricá discutiu e aprovou o Projeto de Lei nº 0083/2025, apresentado pelo vereador Frank Costa (Avante), vice-presidente da Casa. A proposta proíbe motocicletas, motonetas, ciclomotores e triciclos nas ciclovias e ciclofaixas do município, permitindo apenas bicicletas convencionais e modelos elétricos com pedal assistido — limitados a 25 km/h e 350 watts de potência, seguindo os parâmetros técnicos do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) e da legislação já adotada pelo município do Rio de Janeiro.
O gatilho para a proposta foi uma visita de Frank Costa à ciclofaixa da Avenida Benvindo Taques Horta, na Orla de Itaipuaçu. O que o vereador encontrou lá confirma o que moradores já relatavam há meses.
“Vi de perto um problema preocupante: motos invadindo a ciclovia, um espaço que deveria ser seguro para quem caminha, corre ou pedala. Isso coloca em risco a vida das pessoas e não pode continuar acontecendo”, declarou o vereador.
Moradores da região descrevem a situação como rotineira e ignorada. “Isso é recorrente, virou normal. A gente corre com medo de ser atropelado. As câmeras estão aí, mas parece que ninguém fiscaliza”, relatou uma moradora ao ser ouvida pelo vereador durante a visita.
O que precisa mudar — e quem tem responsabilidade em Maricá
O enfrentamento desse problema exige uma resposta coordenada de diferentes setores do poder público municipal. Não se trata apenas de multar quem está na contramão. É necessário construir uma política pública que reconheça a micromobilidade elétrica como uma realidade crescente — e que concilie esses veículos com carros, ônibus, caminhões, ciclistas e pedestres de forma segura e ordenada.
À Secretaria de Trânsito cabe o papel mais imediato: fiscalização ativa nas vias, com foco especial nas ciclofaixas e nos pontos de maior concentração desses veículos. Paralelamente, ações educativas são necessárias para orientar condutores — em especial para coibir o uso por menores de idade.
À Câmara de Vereadores, cabe fiscalizar a aplicação da lei 3.594, de 15 de setembro de 2025 aprovada pelos parlamentares e sancionada pelo prefeito Washington Quaquá. Sem base legal local, a fiscalização perde sustentação jurídica.
À Secretaria de Transportes, cabe ir além da repressão: criar políticas de ordenamento urbano que incluam espaços próprios para estacionamento e recarga desses veículos, integrando a micromobilidade elétrica ao planejamento da cidade — e não tratando-a como um problema a ser eliminado, mas como uma realidade a ser gerenciada.
Vale lembrar que, em cidades que enfrentaram esse desafio antes de Maricá, a lição foi aprendida da forma mais dura. O Rio de Janeiro aprovou sua legislação em 2024, mas só endureceu a fiscalização em 2026, depois de novas mortes. Maricá ainda tem a chance de agir de forma preventiva. Essa janela não estará aberta para sempre.
Mobilidade que avança, regulação que ficou para trás
Scooters e bikes elétricas não são o problema em si. Elas representam uma alternativa real de mobilidade urbana — mais barata, menos poluente e, quando usada corretamente, mais eficiente para trajetos curtos. O problema está na ausência de regras claras, de fiscalização efetiva e de infraestrutura adequada para absorver essa nova realidade.
Maricá cresce. Sua malha urbana se expande. O número de veículos nas ruas aumenta a cada ano. Nesse contexto, deixar que scooters e bikes elétricas circulem sem qualquer controle é uma escolha — e uma escolha com consequências que já estão à vista nos dados do Rio de Janeiro.
A pergunta que fica não é se um acidente grave vai acontecer em Maricá. A pergunta é se o poder público vai agir antes ou depois dele.

