Tem dias em que a vida resolve nos colocar peladas no meio da sala. Hoje é um deles. Lanço meu terceiro livro nesta quinta-feira, dia 14 de maio, na Livraria Travessa do Shopping Leblon e, ironicamente, o livro fala sobre homens que passaram a vida inteira tentando não se desnudar emocionalmente.
Passei quase dois anos ouvindo homens maduros. Homens 55+, 60+, 70+, alguns bem-sucedidos, outros quebrados por dentro, muitos sexualmente confusos, afetivamente analfabetos e emocionalmente cansados. Quase todos carregando aquela velha pasta masculina “não demonstrar fraqueza”. Resultado? Uma epidemia silenciosa de homens mudos. Mudos na cama. Mudos no luto. Mudos no medo. Mudos diante do espelho quando a barriga cresce, o tesão falha e o mundo muda mais rápido do que eles conseguem acompanhar.
E eu quis escutar.
Não para absolvê-los. Não para passar pano. Nem para transformar macho maduro em panda em extinção. Tenho horror dessa infantilização masculina contemporânea onde toda brutalidade vira “ferida emocional”.
Mas percebi uma coisa desconfortável: enquanto as mulheres passaram décadas fazendo terapia, lendo Simone de Beauvoir, chorando em grupo, criando vocabulário emocional, queimando sutiã simbólico e reconstruindo a própria identidade… muitos homens envelheceram sem ferramentas internas mínimas para existir fora do papel de provedor, comedor ou autoridade da mesa.
Aí chega a maturidade e a pororoca vem.
O corpo falha. O mercado de trabalho cospe para fora. Os filhos se afastam. A mulher se transforma. O sexo muda. O mundo discute gênero neutro, poliamor, masculinidade tóxica e saúde mental enquanto eles ainda estão tentando entender como dizer “estou triste” sem parecer fracos.
É brutal.
E foi ouvindo esses homens no PodPau — meu podcast que originou o livro — que comecei a perceber algo quase constrangedor: existe uma solidão masculina gigantesca acontecendo atrás das piadas de zapzap, dos comentários políticos raivosos e do Viagra escondido na gaveta.
Porque o homem maduro brasileiro foi treinado para performar potência. Nunca vulnerabilidade.
Quando a potência falha, muitos simplesmente desmontam.
Alguns viram velhos ressentidos. Outros desaparecem emocionalmente dentro de casa. Há os que se afogam em pornografia, os que colecionam contatinhos como adolescentes e os que entram numa espécie de aposentadoria afetiva precoce. Tem também os que criam cursos para treinar homens, Aff Cazarré!
Porém nada está totalmente perdido. Existem os que buscam ajuda e se tornam mais humanos. Mais honestos. Menos performáticos. Esses me interessam profundamente.
“O que eles dizem; Kikando com os homens maduros”, Editora Lacre, 2026, nasceu daí. Da vontade de abrir uma fresta num assunto que quase ninguém quer tocar sem virar guerra de sexos. Porque sinceramente? Já encheu o saco essa disputa infinita entre homens e mulheres. Estamos todos envelhecendo. Todos assustados. Todos tentando entender como atravessar o último ato da vida sem virar caricatura de nós mesmos.
O livro fala de sexo grisalho, pau mole, viuvez, dinheiro, machismo, saúde mental, pornografia, abandono emocional, espiritualidade, aposentadoria, solidão e medo da morte. Sim, medo da morte. Porque depois dos 55 ela deixa de ser conceito filosófico e começa a mandar recados concretos pelo corpo, pelos exames e pelas ausências na agenda telefônica. Já reparou a quantidade de missas de sétimo dia?
É um livro ácido porque eu sou ácida. Mas também profundamente humano. Porque não tenho mais idade para escrever textos higienizados para agradar algoritmo de rede social.
A maturidade real não é bege.
Ela sua. Goza. Falha. Chora. Grita. Deseja. Inveja. Recomeça. Brocha. Ama. Enterra amigos. Toma remédio para dormir e às vezes acorda sem entender muito bem quem virou.
E talvez seja exatamente aí que more alguma beleza.
Hoje lanço meu terceiro livro na Livraria da Travessa Shopping Leblon. Depois sigo para Niterói ( dia 21/5) e São Paulo (28/5). E confesso: há algo simbólico em lançar um livro sobre escuta masculina num tempo em que todo mundo lacra…, mas quase ninguém escuta de verdade.
Eu escutei.
E o que ouvi foi um país envelhecendo emocionalmente despreparado — homens e mulheres.
Talvez esse livro seja menos sobre eles.
E mais sobre todos nós. Boa leitura!

