Quando Gustavo Gasparani escolhe chamar seu novo musical de “Espelho Mágico”, o título já funciona como síntese perfeita do que se vê em cena: um espetáculo que devolve ao público a imagem de um Brasil inteiro — contraditório, emocionante, popular, afetivo e profundamente reconhecível. Em cartaz no Teatro Riachuelo, a montagem é muito mais do que uma celebração da TV Globo. É um retrato sentimental da cultura brasileira através das imagens, músicas, personagens e histórias que atravessaram gerações.
Gasparani encontra uma solução dramatúrgica extremamente inteligente ao transformar Alfredo — alter ego do próprio autor, vivido com enorme segurança e carisma por Marcos Veras — no eixo condutor da narrativa. O personagem, encarregado de criar um musical sobre os 60 anos da Globo, entra em colapso diante da grandiosidade da missão. É então que surge Nossa Senhora das Oito, espécie de entidade-memória inspirada em Janete Clair, interpretada com delicadeza, humor e emoção por Eliane Giardini. Ao lado da criança que representa Alfredo, o espetáculo cria uma ponte afetiva imediata com a plateia: todos nós estamos ali representados, diante da televisão, revivendo pedaços da própria vida.

E é justamente nesse trânsito entre memória individual e memória coletiva que “Espelho Mágico” encontra sua maior força. O espetáculo tem uma cara absolutamente brasileira. A linguagem escolhida por Gasparani bebe diretamente no Teatro de Revista, no humor popular, na música, na televisão e no imaginário nacional para mostrar o Brasil, sua gente, sua arte, sua cultura, suas vitórias e até mesmo suas tristezas. É emoção atrás de emoção. Risos que surgem espontaneamente diante de personagens inesquecíveis, lágrimas discretas provocadas pela lembrança de um tema musical, de uma novela, de um momento histórico compartilhado diante da tela.

Os quadros se alternam com fluidez impressionante. Há uma carpintaria cênica sofisticada que mistura esquetes, grandes números musicais, vídeos e cenas emblemáticas da dramaturgia televisiva brasileira. O destaque fica para a deliciosa releitura de A Grande Família, um dos momentos mais engraçados e afetuosos da montagem. Enquanto os números musicais embalam a narrativa, o telão projeta imagens que atravessam décadas de televisão e memória afetiva. Forma-se uma verdadeira galeria de sucessos. Aos poucos, a experiência de estar no teatro se mistura à sensação íntima de estar em casa, sentado diante da televisão em um lugar privilegiado da sala.
A direção musical de Wladimir Pinheiro é outro trunfo gigantesco da produção. Canções que estão na memória de todos não aparecem apenas como ilustração nostálgica: elas ajudam a construir emocionalmente a narrativa do país. A música aqui é memória viva. É impossível não cantar junto, rir ou se emocionar.

Visualmente, a montagem também impressiona. Os figurinos assinados por Marília Carneiro e Patricia Muniz são exuberantes e recriam personagens icônicos da televisão brasileira sem cair na caricatura fácil. Há um refinamento estético que respeita a memória desses personagens e, ao mesmo tempo, dialoga com a teatralidade do musical. O cenário, concebido pelo Studio Curva e Marieta Spada, merece aplausos especiais pela capacidade de se transformar constantemente: ora estamos dentro de programas históricos da televisão brasileira, ora mergulhamos na casa de Alfredo — nome que, aliás, presta homenagem a Dias Gomes, marido de Janete Clair. Tudo acontece com fluidez, criando espaços amplos que permitem ao numeroso elenco executar com vigor e precisão a ótima coreografia de Alonso Barros.
E que elenco. São 32 artistas em cena entregando energia, versatilidade e um impressionante domínio de múltiplas linguagens — canto, dança, humor e interpretação. O espetáculo ganha dimensão épica justamente porque consegue manter unidade estética mesmo diante de uma profusão de referências, personagens e épocas.
Espelho Mágico vai muito além de ser um musical. É um momento raro em que nos encontramos com o melhor de nós: a nossa brasilidade em estado de glória. É impossível falar da vida brasileira nos últimos 60 anos sem mencionar a TV Globo e todos os seus programas, personagens e transmissões que fizeram história e entraram nas casas e na memória afetiva da imensa maioria da população do país. Gustavo Gasparani compreende isso perfeitamente e transforma essa herança em um espetáculo vibrante, emocionante e profundamente popular — no melhor sentido da palavra.

Gustavo Gasparani é daqueles que podemos chamar de monstro do teatro. É ator, direito, autor, dança e canta, interpreta comédia e drama com igual talento. Aqui a nossa conversa.
1 – Como você equilibrou concepção, direção e dramaturgia?
Eu acho assim: quando me chamam para fazer uma peça, começo estudando muito o tema para entender de que forma vou contar aquela história. No caso de “Espelho Mágico”, a ideia veio da produtora, mas a maneira de desenvolver o tema parte de mim. Enquanto pesquiso e escrevo, o diretor também começa a viajar junto com o autor, embora quem conduza esse momento seja o autor. Depois, com números musicais criados, vou para a sala de ensaio e me permito mudar coisas do texto. Quando chegam coreógrafo, iluminador, figurinista e atores, novas ideias aparecem e eu gosto dessa troca. Aí adapto o que for preciso, porque o teatro é vivo e feito em parceria. O autor acaba sendo a força motriz, quem dá o ponto de partida para inspirar todo mundo.
2 – De onde vem essa brasilidade profunda no que você faz?
Eu me identifico profundamente com a pluralidade da nossa cultura e com essa brasilidade. A música brasileira é tão rica que, embora eu adore os musicais americanos, sinto um compromisso de criar uma identidade nacional para o teatro musical. Faço isso desde os primeiros roteiros de shows, no fim dos anos 1990. Se a gente não fizer o nosso teatro musical brasileiro, quem vai fazer? Um musical com a nossa dança, nossa música e nossa cultura. Fafá de Belém, por exemplo, reuniu carimbó, MPB e a história do país em um musical totalmente brasileiro e nortista. Já trabalhos como Sambrá, Ben Sertanejo e Zeca Pagodinho exploram outros Brasis, com estilos musicais muito diferentes. Mesmo quando fui para universos mais distantes, como Montgomery Clift ou Shakespeare, busquei questões universais sem perder o olhar brasileiro. Eu gosto dessa busca constante pela nossa identidade cultura.
3 – Você acumula dramaturgia, direção artística e concepção geral. Como você organiza esse processo criativo para que tudo dialogue e mantenha unidade em cena?
Eu vou passo a passo: começo pela pesquisa, depois escrevo e, já na escrita, muitas vezes imagino a cena para desenvolver na direção. Na peça da Fafá de Belém, por exemplo, números como o Boto e o Círio de Nazaré já estavam escritos daquele jeito, mas ganharam novas camadas no encontro com o elenco. Em “Espelho Mágico”, como o humor é essencial, precisei muito da contribuição e da verve cômica de cada ator. Acho que a peça deu certo justamente por esse encontro, porque eles também se tornaram donos da cena. Vou respeitando cada etapa, e isso me ajuda a dar conta de tantas funções.
4 – Em algum momento você percebeu que precisava dirigir também para não “perder” o espetáculo no caminho?
Com certeza, a primeira peça que quis dirigir foi Mimosas, porque eu sabia exatamente o estilo que queria e também porque dirigir ampliava meu mercado de trabalho. Eu já dirigia shows e resolvi experimentar um musical — e deu muito certo. Dividi a direção com Sergio Modena, mas a concepção já vinha do texto. Isso abriu caminhos para eu viver de teatro escrevendo, dirigindo e atuando. Os diretores das minhas peças, como João Fonseca e Daniel Herz, eram amigos que respeitavam minha visão, assim como eu respeitava as sugestões deles. Era sempre uma troca criativa muito rica.
5 – Apesar de ter uma assinatura autoral muito forte, você também consegue entrar no universo de uma ideia proposta por um produtor…
Olha, quando o tema não parte de mim, ele vem como provocação. “Bem Sertanejo”, “Sambrá”, “Fafá de Belém” e até o projeto da Globo foram temas sugeridos por produtoras, mas a forma de contar sempre parte de mim. Eu vou para casa e fico pensando como narrar aquela história, porque o que me interessa é a criação. Nunca gostei de apenas executar uma ideia já concebida por outra pessoa. Em Fafá de Belém, por exemplo, pensei em três planos: a infância em Belém, a carreira e a mulher atual, ligada às questões da Amazônia. Já em “Espelho Mágico”, sobre os 60 anos da Globo, quis usar o teatro de revista e criar um alter ego meu em cena para dar liberdade dramatúrgica. Eu aceito temas que tenham relação comigo e me instiguem criativamente. Depois de escrever, gosto de dirigir minhas próprias ideias, porque sinto que elas chegam mais inteiras ao palco.
Serviço:
Teatro Riachuelo Rio, Centro
Quintas e sextas, às 20h.
Sábados, às 16h e 20h.
Domingos, às 15h.


