Tudo começou com 24 ovos escondidos sob a roupa de uma passageira suíça, a maioria no sutiã, no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio. Era outubro de 2025, quando a mulher, que carregava um passaporte diplomático, foi interceptada pela Polícia Federal (PF) ao tentar embarcar para seu país de origem. Na ocasião, ela alegou que transportava ovos de galinha garnizé. Um ano depois, aquele flagrante deu origem a uma operação internacional que levou à prisão de suspeitos de tráfico de aves brasileiras nas Ilhas Canárias, na Espanha, e à apreensão de animais empalhados, ossadas e crânios no Paraná.
Os ovos, presos ao corpo da passageira com meias de nylon, começaram a eclodir no dia seguinte à apreensão. Dos 24 exemplares, apenas nove filhotes sobreviveram. Entre eles, foram identificados papagaios-charão, ameaçados de extinção, e papagaios-de-cara-roxa, classificados como quase ameaçados.
Apesar do flagrante, a mulher foi liberada. A PF, no entanto, aprofundou as investigações e descobriu que ela havia viajado ao Brasil 17 vezes entre 2019 e 2025, sempre em estadias curtas. Em algumas ocasiões, retornou à Europa no mesmo dia em que desembarcou no país, o que reforçou a suspeita de uma atividade criminosa reiterada.
As apurações também revelaram viagens recorrentes de integrantes do grupo entre Brasil e Suíça ao longo de aproximadamente duas décadas. Segundo a PF, havia uma divisão de tarefas entre os responsáveis pela obtenção dos ovos, organização das viagens, transporte clandestino e recepção dos animais no exterior.
A investigação culminou, nesta segunda-feira, na Operação Ninho Vazio, realizada em cooperação com autoridades espanholas e suíças. Dois homens apontados como líderes da organização foram presos na ilha de Gran Canaria, no arquipélago espanhol das Ilhas Canárias, após viajarem juntos da Suíça.
Na cidade suíça de Weinfelden, autoridades cumpriram três mandados de busca e apreensão. Em Curitiba, policiais federais prenderam temporariamente dois investigados e realizaram outras três buscas, nas quais encontraram animais empalhados, ossadas e crânios.
A passageira flagrada no Galeão em 2025 agora também é alvo de mandado de prisão preventiva e foi incluída na Difusão Vermelha da Interpol.
Os investigados poderão responder por tráfico de animais silvestres, maus-tratos, contrabando e organização criminosa.
Tráfico de animais movimenta bilhões de dólares
O tráfico de animais silvestres retira milhões de exemplares da natureza brasileira todos os anos. Segundo estimativas divulgadas pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), cerca de 38 milhões de animais são retirados anualmente de seus habitats naturais no país. Desse total, a entidade estima que nove em cada dez animais traficados morram antes de chegar às mãos do consumidor final, seja durante a captura, seja em razão das condições de transporte.
Ainda de acordo com a Renctas, o comércio ilegal de animais silvestres movimenta aproximadamente US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10 milhões) por ano no Brasil. A organização classifica o tráfico de fauna como a terceira maior atividade ilegal do mundo, atrás apenas do tráfico de armas e de drogas. As cifras são estimativas divulgadas pela entidade, e não uma contagem atualizada de ocorrências.
