Teatro, por Claudia Chaves: “Ensaio sobre a cegueira”

Tempo de leitura: 5 min


“Ensaio sobre a cegueira”, na versão teatral, é de uma simplicidade aparente. Um palco sem objetos de cena marcantes, figurinos neutros, uma música daquelas que sabemos que conhecemos, mas jamais ouvimos. Aliás, a parceria de Rodrigo Portella com Federico Puppi é daquelas em que imaginamos que os dois se entendem por um olhar.

(./Divulgação)
Um homem de meia-idade com cabelo grisalho e casaco xadrez cinza senta à esquerda, olhando para frente. À direita, uma mulher de cabelo escuro, blusa branca e lenço vermelho toca um acordeão, sorrindo levemente. Ambos estão sob luzes de palco, com fundo escuro
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O livro é a obra-prima de um comunista daqueles que resistiram às circunstâncias da própria história: José Saramago. Não se sabe a origem da cegueira, nem como ou por que ela acontece. E muito menos por que a mulher do médico é a escolhida.

Assim, o Grupo Galpão, que constrói espetáculos grandiosos, escolhe um diretor externo que não lhe dá uma nova roupagem, mas mantém o conceito de um grupo coeso e coerente, com todos interpretando, com o mesmo destaque, os personagens escolhidos na adaptação.

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Agora, a forma que Rodrigo Portella escolheu para nos fazer crer que o palco está repleto de pessoas é genial. A montagem oferece três modalidades de participação: um grupo fica com vendas nos olhos, portanto cego durante a maior parte da peça; outro participa com cegueira parcial; e um terceiro acompanha tudo da plateia.

Três mulheres no palco, sorrindo e fazendo caretas com as mãos ao redor dos olhos. A da esquerda veste camisa branca e calça preta, a do centro usa camisa mostarda e calça cinza, e a da direita, um vestido azul. O fundo é escuro com um retângulo claro ao centro
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Pessoas com vendas nos olhos, vestindo roupas simples, caminham em fila com as mãos nos ombros umas das outras. Dois homens sentados no chão observam a cena, que se passa em um palco escuro com iluminação focada. Peças de roupa e tecidos espalhados pelo chão completam o cenário.
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Fui às três. E tive uma das maiores experiências da minha vida.

Na cena em que os cegos, prisioneiros, ficam amarrados a uma corda, esperando o resgate da comida, enquanto os carcereiros riem, me vi como uma pessoa escravizada ou em algum campo de concentração. Um arrepio de pavor, dor, enjoo.

E, quando vi a cena da plateia, percebi que a risada vinha de outro tipo de texto. Uma das maiores cenas da história do teatro para quem participa dela.

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E há a mulher do médico, a única que não fica cega. Por que ela? Saramago não nos oferece uma explicação. Ela vê o que os outros não veem, testemunha a degradação humana e carrega o peso de enxergar sem conseguir impedir tudo o que acontece.

E o espectador? Também vê. Ou não, dependendo da experiência que escolheu viver no espetáculo do Grupo Galpão. Quem está de olhos vendados precisa confiar nos outros sentidos; quem tem a visão parcialmente comprometida percebe de outra maneira; quem está na plateia vê o que acontece diante de si. Três posições diferentes diante do mesmo horror.

A mulher do médico vê, posto que não ficou cega. O espectador vê, pois o teatro lhe dá essa possibilidade. Mas nenhum dos dois está a salvo do que vê. É aí que Rodrigo Portella faz uma escolha extraordinária: não se limita a nos contar a história de Saramago. Faz da própria condição de quem assiste parte da experiência teatral.

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Pessoas em um palco escuro, algumas com vendas nos olhos, observam uma pessoa deitada sobre uma mesa. A cena sugere uma performance teatral ou ritualística
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É essa capacidade de incorporar a plateia que faz do Grupo Galpão e de Rodrigo Portella dois dos maiores nomes do nosso panteão teatral.

O Grupo Galpão reúne Antonio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones. Um elenco de artistas que constrói, junto com Rodrigo Portella, essa experiência teatral em que a participação do espectador é parte essencial do espetáculo.

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A montagem já foi reconhecida com o prêmio de Melhor Espetáculo da APCA. Rodrigo Portella recebeu o Shell de Melhor Direção, e o trabalho também foi premiado pela APTR em Produção e com o Prêmio Marília Pêra. Fernanda Vianna concorreu ao Shell de Melhor Atriz, e Federico Puppi, ao de Melhor Música.

A experiência de ver o Grupo Galpão com Rodrigo Portella vai além de ir ao teatro. É, de cara, sacar como o espetáculo não caiu na armadilha de ser literal e está muito longe de se limitar ao dilema de traduzir ou trair. É a capacidade de artistas excepcionais entregarem o que esperamos: a mística da arte, capaz de nos fazer sentir com o coração e a mente.

Serviço:
Teatro Carlos Gomes
Sexta-feira, às 19h
Sábado e domingo, às 17h

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-ensaio-sobre-a-cegueira/

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