Saiba quem é a arqueóloga que liderou descoberta do Cais do Valongo e foi baleada em assalto no Leblon

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A pesquisadora numa das exposições do departamento de arqueologia do Museu Nacional, na Quinta da Boavista, onde ela trabalha — Foto: Adriana Lorete / O Globo


A arqueóloga Tania Andrade Lima, de 81 anos, baleada durante uma tentativa de assalto no Leblon, na Zona Sul do Rio, na quinta-feira, é uma das principais referências da arqueologia brasileira. Professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela liderou as escavações que revelaram o Cais do Valongo, na Região Portuária, local por onde passaram centenas de milhares de africanos escravizados trazidos ao Brasil no século XIX.

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Pelo trabalho, Tania venceu a 14ª edição do Prêmio Faz Diferença, concedido pelo GLOBO, na categoria Rio, em 2016. Em 2023, também recebeu o prêmio internacional Hypatia Award, durante a 6ª Bienal de Restauro Arquitetônico e Urbano, em Florença, na Itália, em reconhecimento aos serviços prestados à arqueologia, à História e ao patrimônio cultural.

O ataque aconteceu na Rua Venâncio Flores, depois que a pesquisadora deixou uma agência bancária. Segundo a Polícia Civil, um homem a derrubou e tentou roubar sua bolsa. Ao resistir, Tania foi agredida novamente e acabou baleada três vezes, na mão, no ombro e no pescoço. Ela foi socorrida por policiais militares do programa Segurança Presente e levada para o Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea.

Descoberta do Cais do Valongo

Tania Andrade Lima na cerimônia de entrega do Prêmio Faz Diferênça 2016, no Copacabana Palace — Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo

Entre janeiro de 2011 e junho de 2012, a equipe liderada por Tania vasculhou cinco quarteirões da Região Portuária, em um trabalho realizado antes das obras de revitalização da área. As escavações revelaram um conjunto de objetos associados aos africanos escravizados que chegaram ao Brasil pelo Cais do Valongo entre 1811 e 1843, incluindo miçangas, pedras, amuletos e peças utilizadas em rituais religiosos.

Em entrevista ao GLOBO publicada em 2014, a arqueóloga relatou o impacto pessoal da descoberta. Ao receber a reprodução de uma fotografia de um navio negreiro repleto de crianças, ela se lembrou dos objetos encontrados durante as escavações, entre eles pequenos anéis feitos de piaçava que adornavam os dedos de crianças africanas.

— O Valongo mexeu muito comigo porque uma coisa é você pegar um livro e ler que, pelo Valongo, passaram 500 mil escravos para ter a vida que nós sabemos que tiveram, sendo vendidos brutalmente. Outra coisa é pegar e encarar essas peças. Trabalho com a materialidade dos fatos, mas nunca havia lidado com a materialidade da história dos escravos — afirmou.

A pesquisa também levou a professora a aprofundar a investigação sobre a presença da população negra nas áreas urbanas do Rio do século XIX. Segundo ela, os vestígios encontrados em escavações costumavam revelar sobretudo objetos das classes dominantes, enquanto os pertences das pessoas escravizadas apareciam com menos frequência.

Cais do Valongo — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Cais do Valongo — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Com mais de 30 anos de trabalho de campo à época da reportagem de 2014, Tania já era reconhecida entre arqueólogos, antropólogos e historiadores antes da repercussão internacional das descobertas do Cais do Valongo.

A pesquisadora também desenvolveu estudos sobre a arqueologia do capitalismo e os hábitos de consumo no Rio de Janeiro do século XIX. Em escavações realizadas em áreas urbanas, investigou objetos domésticos, louças, vidros e restos de construções que ajudam a compreender os costumes e as relações sociais da época.

Segundo a Polícia Civil, um dos suspeitos de participar do assalto já foi identificado. A investigação também realizou perícia papiloscópica na motocicleta recuperada após a fuga dos criminosos, em busca de impressões digitais que possam ajudar a identificar o segundo envolvido.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/10/16/saiba-quem-e-a-arqueologa-que-liderou-descoberta-do-cais-do-valongo-e-foi-baleada-em-assalto-no-leblon.ghtml

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