O tempo foi o dono de tudo no segundo dia de Rio Fashion Week; confira os destaques

Tempo de leitura: 7 min
Foto: Aluf / Divulgação RioFw


Se o primeiro dia foi sobre retorno, o segundo foi sobre o que fazemos com o tempo que passa. Não por acaso: as quatro marcas que desfilaram nesta quarta no Pier Mauá (Aluf, Normando, Salinas e Piet) chegaram à passarela com o mesmo tema na cabeça, cada uma por um caminho diferente.

O Rio de Janeiro tem uma relação torta com o tempo. A cidade ficou dez anos sem uma semana de moda. Levou décadas para entender o que o Porto Maravilha poderia ser. Ainda leva anos para concluir obras que deveriam ter durado meses. E ao mesmo tempo, produz coisas que duram décadas na memória do mundo: a Bossa Nova, o biquíni de lacinho, o carnaval que ninguém consegue copiar. A segunda noite do Rio Fashion Week capturou essa multiplicidade de camadas sem precisar nomeá-las.

Ana Luísa Fernandes levou Aluf à passarela com “Diálogos sobre o Tempo”. A atriz Camila Pitanga abriu o desfile ao som de um tic-tac ao vivo, e a ideia se materializou nas roupas com precisão. Os tecidos naturais não tinham o acabamento liso de algo que quer parecer novo: pareciam já ter vivido algo. Cetim, veludo, rendas e pérolas naturais numa alfaiataria que questiona por que a roupa precisa parecer que saiu de uma fábrica ontem. 

A pérola como metáfora central funciona porque é precisa: o grão de areia que o tempo transforma em matéria preciosa. As listras aparecem dando ritmo, os plissados expandem o movimento, e as sobreposições quebram a previsibilidade sem abandonar a construção. A mulher da Aluf não está tentando parar o tempo. Está decidindo como gastar bem o dela.

Foto: Aluf / Divulgação RioFw

Depois, a Normando entrou num estrondo. “Natureza Morta” chegou à passarela como um manifesto sobre o que o tempo faz com a floresta, e o que a floresta faz com o tempo. O látex amazônico saiu dos seringais transformado: casaco e jaqueta cuia em lã e látex sobrepostos, escultóricos como armadura. 

Um vestido inteiramente em látex fumê coberto por renda chantilly preta, criando tensão entre o orgânico e o ornamental. Em outro look, o látex virou folhagem verde aplicada sobre blazer de viscose preta, com plantas de tambatajá em tecido emergindo do ombro como se a floresta estivesse literalmente retomando a roupa. Num biquíni top, ele virou vitória-régia. Em outro, apareceu cru, como gravata feita de raízes.

O bronze oxidado entrou como conclusão: jaqueta na cor verdigris, o verde da pátina do metal consumido pelo ar. Uma camisa com estampa de torso masculino em bronze oxidado. Um vestido longo Redentor na mesma cor. E um body com estampa matelassada batizada de “Amazônia Oxidada”, que era basicamente a floresta digerindo a escultura. A banana podre de Ferreira Gullar virou estampa, suspendendo o apodrecimento para eternizar um breve instante no tecido. Os 35 looks não venderam exotismo amazônico. Venderam a convicção de que o design brasileiro pode ser, fundamentalmente, nortista.

foto2rfw
Foto: Normando / Divulgação RioFw

A Salinas chegou depois e fez o que só ela sabe fazer: provou que sexy pode ser despretensioso. As modelos abriram o desfile com toalhas enroladas na cabeça e ainda assim havia uma aura de quem não precisa se esforçar para parecer elegante. De lá até os micro biquínis com apliques de miçangas e franjas, o caminho foi percorrido com a trilha ao vivo de Agnes Nunes interpretando clássicos de Luiz Gonzaga e Timbalada. Bem-te-vi, arara e guará saíram das matas e chegaram ao corpo: em estampas aquareladas em maiôs, em brincos-pássaro que pousavam em ninhos de acessório sobre o colo de quem usava, em asas de borboleta em tecido vermelho de brilho nos ombros. 

Corta-ventos e leggings em cores saturadas dividiam espaço com vestidos midi de jacquard solar e saias balonê rodadas. A alfaiataria apareceu estruturada mas leve, como uma brisa, ou como o bater das asas de um bem-te-vi. A diretora criativa Adriana Bozon resumiu com a coleção o que dificulta explicar em palavras: que a natureza é sexy, é potência, e que o biquíni brasileiro é icônico porque a mulher brasileira é icônica.

foto3rfw
Foto: Salinas / Divulgação RioFw

A Piet fechou a noite em parceria com a Pool, da Riachuelo, em um exercício de reposicionamento da fast fashion em design e curadoria de design. Para uma colaboração de alcance nacional, Pedro Andrade trouxe o futebol como o código cultural que une o todo o Brasil e que atravessa classe, geração, gênero e CEP ao mesmo tempo. 

Camisetas em algodão agroecológico com corte vintage, conjuntos em nylon reinterpretados por recortes e proporções que saem do uniforme sem abandonar a referência, aplicações em transfer com relevo e textura dando dimensão a peças que custam a partir de R$79,99. A cartela em branco, azul, amarelo e preto não recorreu ao óbvio verde-amarelo, mas não fingiu que a referência não estava lá.

A proposta foi genderless e contou ainda com uma linha infantil inédita para Pedro Andrade, que em 13 anos de Piet nunca havia ido até lá. Num evento montado para receber compradores de Galeries Lafayette e Selfridges, foi o único desfile do dia que colocou na passarela algo que a família inteira pode usar, comprar e ter. Não como concessão, não como estratégia de massa, mas como extensão natural de uma marca que sempre tratou a rua como laboratório.

foto4rfw
Foto: Piet + Pool / Divulgação RioFw



Com informações da fonte
https://temporealrj.com/tempo-dominou-segundo-dia-rio-fashion-week-destaques/

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *