Avesso à masculinidade defendida por Cazarré, solo teatral propõe debate

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Em meio à discussão sobre masculinidade reacendida recentemente nas redes sociais, o espetáculo “Primeira Pessoa”, que estreia no próximo dia 3 de junho — já com ingressos esgotados para a primeira sessão —,  no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, traz para o centro da cena questões urgentes sobre afeto, fragilidade emocional e os padrões tóxicos impostos aos homens desde a infância.

A estreia acontece na esteira da polêmica envolvendo o ator Juliano Cazarré e a psicanalista Vera Iaconelli, que protagonizaram um embate público após o anúncio de um workshop voltado exclusivamente para homens, idealizado por Cazarré. A proposta do ator, apresentada como um espaço para discutir responsabilidade, espiritualidade, família e amadurecimento masculino, gerou forte repercussão nas redes e abriu uma ampla discussão sobre masculinidade contemporânea, conservadorismo e os impactos sociais dos modelos tradicionais de gênero.

Vera Iaconelli rebateu discursos ligados à ideia de um “homem enfraquecido”, afirmando que esse tipo de narrativa costuma surgir como reação ao fortalecimento da autonomia feminina e às transformações sociais das últimas décadas.

É justamente nesse território de tensão que “Primeira Pessoa” se insere — mas por um caminho oposto ao discurso de reafirmação da masculinidade tradicional. Com texto de Homero Ligere e Wagner D’Avilla, o solo percorre diferentes etapas da vida de um homem criado entre as décadas de 80 e 90, revisitando traumas, bullying, silenciamentos e violências emocionais naturalizadas na formação masculina.

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Sem fórmulas prontas ou discursos fechados sobre o que significa “ser homem”, o espetáculo aposta em um olhar livre e poético, revelando vulnerabilidades, medos e contradições frequentemente abafados ao longo da vida. “Essa peça fala sobre homens que foram ensinados a esconder sentimentos e endurecer emoções. Quisemos abrir espaço para falar de afeto, receios e fragilidade”, afirma Homero Ligere.

Coautor da peça, Wagner D’Avilla ressalta a questão do pertencimento. “O que mais me interessa nessa história é justamente a delicadeza com que revisitamos esse lugar escuro. Esse lugar assustador onde, muitas vezes, a gente acredita que não existe saída. E talvez exista algo profundamente libertador nisso: perceber que nem tudo precisa ser resolvido para, finalmente, ser acolhido”, diz.

Com linguagem intimista, “Primeira Pessoa” propõe um convite ao diálogo sobre temas ainda pouco debatidos entre os homens, como vulnerabilidade emocional, pressão social e liberdade individual, especialmente em uma geração que cresceu antes mesmo de o bullying receber esse nome.

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“Muitos meninos e meninas foram silenciados, atacados, humilhados e obrigados a se enquadrar para corresponder a padrões arcaicos e totalmente ultrapassados. ‘Primeira Pessoa’ chega aos palcos para dar voz, corpo e redenção a esses casos, de forma poética potente, a fim de combater qualquer forma de preconceito ou cerceamento da liberdade individual. E é bom demais fazer isso tudo ao lado da Renata Mizrahi, que me convidou para dividir com ela a direção”, conta Guilherme Scarpa.

Esse trabalho a quatro mãos criou um processo de ensaio de muita escuta e troca, segundo a diretora Renata Mizrahi: “É uma experiência muito rica dirigir o texto do outro. A dramaturgia do Homero e do Wagner é cheia de coragem e poesia de cura. Dirigir é escutar. Pensar a cena para trazer a ‘Primeira Pessoa’ à frente, ao lado do meu parceiro Guilherme Scarpa, em dupla, foi como escutar em dobro e aprender a negociar com delicadeza. Obrigada, Guilherme e Homero, pela confiança. Foi uma viagem bonita para dentro, para que agora esteja tudo do lado de fora! Que todos possam embarcar com a gente! Evoé!”, celebra.

Serviço
Teatro Glaucio Gill
Praça Cardeal Arcoverde s/n°, Copacabana
De 3 a 24 de junho
Quartas, às 20h
14 anos
60 minutos
Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia)
Bilheteria física e site da Funarj

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Renata Araújo é jornalista, editora do site You Must Go! e da página no Instagram @youmustgoblog.





Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/renata-araujo/avesso-a-masculinidade-defendida-por-cazarre-solo-teatral-propoe-debate/

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