Há dez anos, visitei o Newseum, em Washington, um museu dedicado à história do jornalismo e da liberdade em exercer a profissão. Neste Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, foi a lembrança daquele lugar que voltou com força. Por mais paradoxal que pareça ser, recorrer a uma memória estrangeira para falar de uma data brasileira, a liberdade de imprensa não conhece fronteiras: quando ela é ameaçada em qualquer lugar, enfraquece em toda parte.
Museu da Notícia. Curiosa tradução livre — inevitável trocadilho. Um lugar onde passado e presente se endcontram. Afinal, toda notícia envelhece rapidamente, mas a memória do jornalismo continua a lembrar o futuro.
O espaço funcionava justamente nos Estados Unidos, onde a relação entre imprensa e poder voltou a se deteriorar nos últimos anos, marcada por ataques públicos a jornalistas e tentativas recorrentes de descredibilizar o trabalho da imprensa.
Entre capas históricas de jornais, fotografias da Reuters e registros dos grandes acontecimentos do século XX, havia um espaço silencioso que chamava mais atenção do que qualquer manchete: não um memorial dedicado a jornalistas mortos no exercício da profissão.
Lembro do silêncio daquele andar. Talvez porque a liberdade de imprensa quase sempre seja lembrada assim.
O Newseum fechou as portas em 2019. O prédio foi vendido, o acervo desmontado. Mas talvez o mais simbólico seja perceber que o fechamento do museu coincidiu com um período em que o próprio valor da imprensa passou a ser questionado em várias partes do mundo.
O último ranking da Repórteres Sem Fronteiras, divulgado em abril, mostrou que a liberdade de imprensa atingiu o pior nível global dos últimos 25 anos. Segundo a organização, mais da metade dos países analisados vive hoje situações consideradas “difíceis” ou “muito graves” para o exercício do jornalismo.
O levantamento aponta o avanço de governos autoritários, guerras, violência contra jornalistas, perseguições judiciais, pressão econômica sobre veículos e tentativas crescentes de controle da informação. O dado é alarmante. Mas talvez a discussão precise ir além das estatísticas.
No caso do Brasil, que ocupa atualmente a 52ª posição do ranking da entidade, essa transformação também aparece nos números — e no papel. Dados recentes mostram que a circulação impressa dos principais jornais do país voltou a cair de forma expressiva em 2025. A média diária somada das publicações mais tradicionais recuou mais de 30% em apenas um ano. As bancas diminuíram, os hábitos mudaram, o papel perdeu espaço.
Mas seria um erro confundir a crise do impresso com o fim do jornalismo. Porque o suporte muda. A necessidade de informar, não.
O que significa, afinal, liberdade de imprensa?
Na teoria, significa o direito de informar sem censura do Estado. Na prática, a definição é mais complexa.
Liberdade de imprensa não pode ser apenas a garantia mínima de conseguir trabalhar na rua sem virar alvo. De entrar numa comunidade conflagrada para apurar uma denúncia sem saber se será possível sair dali em segurança. De cobrir enchentes, incêndios, guerras, operações policiais e tragédias convivendo diariamente com o risco como parte natural da profissão.
Porque existe outra forma de cerceamento mais sutil, mais sofisticada e muitas vezes invisível. Aquela em que determinados assuntos simplesmente deixam de ser tocados. Nem toda censura chega oficialmente carimbada.
Em muitos lugares, o jornalista não é proibido de publicar. Ele apenas aprende, aos poucos, sobre aquilo em que “não vale a pena mexer”. Ou então convive com a velha turma do “melhor não”.
Nos últimos anos, cresceram também no Brasil os casos de assédio judicial contra jornalistas e veículos de imprensa. Processos pulverizados, tentativas de remoção de reportagens, intimidações e ações que muitas vezes parecem menos interessadas em reparação do que em desgaste financeiro e psicológico.
Um repórter não precisa mais ser preso ou assassinado para ser silenciado. Às vezes basta ser perseguido.

O jornalista e escritor americano Ernest Hemingway conheceu a guerra de perto: primeiro como motorista de ambulância na Itália, depois como correspondente. Sabia que a primeira coisa a desaparecer num conflito nem sempre é a verdade. Às vezes, é a coragem de testemunhá-la.
Edifícios envelhecem. Acervos mudam de endereço. Placas são retiradas das paredes. Mas a necessidade humana de contar, registrar e lembrar permanece.
Afinal, a liberdade de imprensa não vive em museus. Vive na memória que preservamos e nas histórias que insistimos em narrar. Porque memórias são notícias sem data.

Com informações da fonte
https://temporealrj.com/memorias-noticias-sem-data/

