Nova geração de biomarcadores permite identificar alterações ligadas à doença com alta precisão e sem exames invasivos, mas uso ainda deve ser restrito a pacientes com sintomas cognitivos
Durante décadas, o diagnóstico da doença de Alzheimer esteve associado a uma combinação de avaliação clínica, testes cognitivos, exames de imagem e, em alguns casos, procedimentos invasivos como a coleta de líquor por punção lombar. Agora, uma nova geração de exames de sangue começa a mudar esse cenário e pode representar um dos maiores avanços da neurologia nos últimos anos.
A novidade, no entanto, vem acompanhada de uma importante ressalva: embora a tecnologia tenha avançado significativamente, ela não deve ser utilizada como ferramenta de rastreamento em pessoas saudáveis ou sem sintomas.
Segundo o neurologista Aurélio Pimenta Dutra, do Grupo Fleury, o exame atualmente disponível no Brasil identifica biomarcadores diretamente relacionados à fisiopatologia da doença de Alzheimer, por meio da análise de proteínas presentes no sangue.
“O exame analisa a proteína beta-amiloide e a proteína tau fosforilada 217, que são marcadores patológicos da doença de Alzheimer”, explica. A beta-amiloide forma placas que se acumulam no cérebro ao longo da evolução da doença. Já a proteína tau está relacionada à degeneração dos neurônios e à progressão do quadro neurodegenerativo.
Uma alternativa menos invasiva
O principal diferencial da nova tecnologia é a possibilidade de obter informações semelhantes às fornecidas por exames mais complexos, como o PET-amiloide cerebral e a análise do líquor, mas utilizando apenas uma amostra de sangue.
De acordo com o Dr. Aurélio, os avanços recentes na metodologia laboratorial, especialmente o uso da espectrometria de massa de alta precisão, elevaram significativamente a confiabilidade dos resultados. “Hoje, a acurácia desse exame em relação ao PET-amiloide chega a 0,98. Isso o coloca muito próximo da capacidade diagnóstica dos métodos considerados padrão”, afirma.
Além da precisão, o exame apresenta vantagens práticas. Enquanto o PET-amiloide exige equipamentos sofisticados e tem custo elevado, e a coleta de líquor depende de profissionais especializados, o exame de sangue pode ser realizado em qualquer região do país e posteriormente encaminhado para análise.
Não é um exame de triagem
Apesar do entusiasmo gerado pelos avanços tecnológicos, o médico faz questão de enfatizar um ponto considerado fundamental pelos especialistas: o exame não deve ser utilizado indiscriminadamente. Segundo ele, a indicação adequada ocorre quando o paciente já apresenta algum grau de comprometimento cognitivo e existe suspeita clínica de Alzheimer. “Esse não é um exame de triagem. Não é um exame para ser feito em todo mundo a partir de determinada idade. Tem que existir uma suspeita clínica”, afirma.
A recomendação busca evitar uma situação que começa a surgir com mais frequência nos consultórios: pessoas sem qualquer sintoma realizando o exame por conta própria e recebendo resultados positivos para biomarcadores da doença.
Nesses casos, a interpretação pode ser mais complexa. “Pacientes sem sintomas não devem fazer esse exame porque ainda não sabemos o que fazer com um resultado positivo em pessoas assintomáticas”, explica o neurologista. De acordo com pesquisas internacionais, alterações biológicas relacionadas ao Alzheimer podem estar presentes entre 15 e 20 anos antes do aparecimento dos sintomas clínicos. Isso não significa que a pessoa desenvolverá demência naquele momento – e nem que chegará a apresentar manifestações clínicas da doença.
Diagnóstico precoce ganha importância com novos tratamentos
O debate sobre diagnóstico precoce ganhou força nos últimos anos com a chegada de medicamentos capazes de atuar diretamente sobre os depósitos de beta-amiloide no cérebro. Aprovados pela Anvisa em 2025 – o donanemabe em abril e o lecanemabe em dezembro –, esses tratamentos ainda estão restritos à rede privada e sem preço definido no mercado nacional. “Pacientes em fases moderadas ou avançadas não costumam se beneficiar dessas novas terapias. Por isso, identificar a doença mais cedo se tornou tão importante”, afirma Dutra.
Além do tratamento medicamentoso, o diagnóstico precoce permite planejamento familiar, organização financeira e adoção de estratégias que podem contribuir para preservar a qualidade de vida por mais tempo.
Mudança de paradigma na neurologia
A discussão sobre biomarcadores ganhou ainda mais destaque após a publicação de pesquisas internacionais indicando que alterações associadas ao Alzheimer podem ser detectadas décadas antes do surgimento dos sintomas clínicos. Embora os especialistas considerem esse um campo promissor, a aplicação prática dessas descobertas ainda está em construção.
Para o Dr. Aurélio, o cenário atual já representa uma mudança importante na neurologia. “Antes existia uma desconfiança em relação aos exames de sangue para Alzheimer porque as tecnologias anteriores tinham baixa precisão. Hoje, isso mudou completamente”, afirma.
O especialista acredita que a tendência é que esses exames se tornem cada vez mais presentes na rotina clínica, especialmente à medida que novos estudos ampliem as evidências científicas e que os custos diminuam.
Atualmente, o exame custa cerca de R$ 3.500 e ainda não possui cobertura obrigatória pelos planos de saúde.
Enquanto isso, a principal mensagem dos especialistas permanece a mesma: o exame é uma ferramenta poderosa, mas deve ser utilizado dentro de um contexto clínico bem definido, sempre associado à avaliação médica e aos sintomas apresentados pelo paciente.
Alexandre Hercules é editor-chefe da Brazil Health (https://www.brazilhealth.com)

