Casos de bullying, ameaças e ataques motivados por divergências políticas têm sido registrados em escolas e universidades brasileiras após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os episódios incluem ofensas, intimidações, comentários preconceituosos, ameaças de violência sexual e divulgação não autorizada de imagens de crianças e adolescentes nas redes sociais.
Diante da gravidade das denúncias, o Ministério da Educação (MEC) informou ao portal g1 que solicitou à Polícia Federal (PF) a investigação de ameaças direcionadas a universidades federais, estudantes e professores. Os relatos envolvem instituições públicas e privadas de diferentes regiões do país.
No Rio de Janeiro, crianças que participaram de uma manifestação em defesa da democracia tiveram fotografias retiradas das redes sociais de familiares e republicadas em páginas de extrema direita. Em um dos casos, uma imagem foi manipulada com o uso de inteligência artificial para ridicularizar os estudantes.
Imagens de crianças são manipuladas no Rio
Um dos episódios ocorreu após uma manifestação estudantil realizada em 7 de outubro, depois do primeiro turno das eleições presidenciais. O ato percorreu o trajeto entre a Candelária e a Cinelândia, no Centro do Rio, e reuniu estudantes, professores e responsáveis de escolas públicas e particulares.
Organizada por estudantes da rede pública, a mobilização defendia a democracia, a manutenção de direitos e a qualidade da educação pública.
Segundo relatos de familiares ouvidos pelo G1, fotografias de crianças que participaram do protesto foram retiradas de publicações pessoais e divulgadas em perfis de extrema direita.
Uma das imagens, publicada originalmente na rede social X, mostrava alunos menores de idade do Colégio Pedro II e recebeu comentários depreciativos. Posteriormente, a fotografia foi reproduzida e alterada com inteligência artificial, sendo divulgada em um perfil identificado como Pixuleco.
Na montagem, as roupas das crianças foram modificadas para fazê-las parecer pessoas em situação de rua. Uma bandeira de Cuba também foi acrescentada à imagem.
Abalada com a repercussão, a avó responsável pela publicação original decidiu apagar a fotografia. Outra imagem, compartilhada por uma mãe no Facebook, também teria sido reproduzida sem autorização, de acordo com os relatos apresentados ao portal.
Especialistas alertam para os limites da liberdade de expressão
Além dos casos registrados no Rio, denúncias de intimidação e ofensas envolvendo estudantes foram relatadas em São Paulo, no Paraná e no Distrito Federal. Os episódios atingem jovens com diferentes posicionamentos políticos e incluem manifestações de preconceito e ameaças.
Especialistas ouvidos pelo G1 ressaltam que a liberdade de expressão não pode ser utilizada como justificativa para ameaças, discriminação ou exposição vexatória de crianças e adolescentes.
Para Danila Di Pietro, doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do projeto Observatório de Direitos Humanos em Escolas, a reprodução de discursos agressivos por crianças e adolescentes evidencia a necessidade de ampliar a educação política no ambiente escolar.
“Existe sim um limite da forma como manifesto minha opinião”, afirma a pesquisadora.
Os episódios reforçam o debate sobre o papel das escolas na promoção do respeito às diferenças, na prevenção do bullying e na formação cidadã dos estudantes. Também levantam preocupações sobre a exposição de menores de idade nas redes sociais e o uso de ferramentas de inteligência artificial para produzir conteúdos ofensivos.
A solicitação de investigação à Polícia Federal busca apurar as ameaças relatadas contra integrantes da comunidade acadêmica. Os casos também evidenciam a importância de garantir que divergências políticas não se transformem em perseguição, intimidação ou violência no ambiente educacional.
