“Dá-lhe, pirueta, dá-lhe, bravo!” A lembrança de “Os Saltimbancos”, de Chico Buarque, me acompanha enquanto penso em “Piaf – Eu Não Me Arrependo”. O circo abre a cena. A vida de artista tem algo de circo e de teatro mambembe: itinerante, instável, feita de aplausos e fracassos, quedas e recomeços. A trajetória de Édith Piaf condensa tudo isso. Por trás do brilho do palco, há pobreza, perdas, amores desfeitos e a luta permanente para conquistar seu lugar no mundo.
Como nas histórias infantis, surgem figuras que poderiam habitar contos de fadas: a menina dos fósforos, as crianças que cantam por moedas, as madrastas perversas, o pai beberrão. Mas, aqui, o encantamento não esconde a dor. Talvez seja essa contradição que torne a história de Piaf tão fascinante: a capacidade de transformar sofrimento em arte e continuar, apesar de tudo, a fazer o mundo sonhar.
A dramaturgia de Newton Moreno, um dos grandes dramaturgos deste século, em parceria com Alessandro Toller, transforma o palco em campo de batalha. Piaf luta contra si mesma, contra empresários e compositores, contra os amores que a atravessam e contra um público que a consagra, mas exige sempre mais dela. Sua história é a de uma mulher que enfrentou o mundo para se tornar uma das vozes mais marcantes do século XX.

Laila Garin dá vida a Piaf com intensidade e delicadeza. Seu sotaque parisiense é sutil, e sua voz faz jus ao apelido de La Môme Piaf, a garota pardal: um canto capaz de despertar a alma numa manhã fria de inverno. Entre amores fracassados e sucessos retumbantes, a atriz revela a força monumental e as fragilidades da personagem.
A cenografia de André Cortez é extraordinária. Os figurinos de Karen Brusttolin vão muito além de vestir os atores: deslumbrantes e cuidadosamente construídos, traduzem momentos e personalidades e merecem aplausos. As canções, interpretadas em francês e acompanhadas de legendas, pontuam a trajetória de Piaf, de “La Vie en Rose” a “Non, Je Ne Regrette Rien”.

Momone, interpretada por Luciana Ramanzini, funciona como um duplo de Piaf e acrescenta novas perspectivas à protagonista. Malícia, submissão, inveja e cumplicidade revelam as contradições dessa relação. As cenas com Santa Teresa, interpretada por Erika Riba, expõem a necessidade de salvar Piaf da doença, dos amores, dos fracassos e, talvez, de si mesma.
Piaf também nos faz pensar em outras grandes artistas do século passado, como Marilyn Monroe, Judy Garland e Billie Holiday, cujas trajetórias foram marcadas por sofrimento e finais trágicos. Cada uma enfrentou, à sua maneira, uma indústria que transformava o talento feminino em mercadoria. A comparação com Madonna, que construiu uma carreira afirmando o controle sobre sua imagem e suas escolhas, mostra o quanto essa passagem histórica foi difícil. Entre Piaf e Madonna, há uma transformação no lugar que a mulher pode ocupar no espetáculo e na sociedade.

A direção de Sergio Módena é de uma coragem admirável. Transformar tristeza e angústia em tamanha beleza exige talento e ousadia. A movimentação dos atores, o foco em Piaf e as trocas de cenários e figurinos revelam a força hercúlea dessa mulher. E que elenco! Todos contribuem para um conjunto de equilíbrio perfeito. A direção musical de Cláudia Elizeu e a orquestra dão sustentação a um repertório inesquecível.
Ao final, saio com vontade de cantar Chico: “Dá-lhe, pirueta, dá-lhe, bravo!” Um dos melhores musicais brasileiros que vi nos últimos tempos. Bravo para Newton Moreno e Alessandro Toller, para Sergio Módena e, especialmente, para Aniela Jordan, diretora artística e produtora geral da Aventura, pela coragem de apostar em uma montagem dessa dimensão. Ficam a admiração pela personagem, a emoção diante de sua vida e a tristeza que, pelo encantamento do teatro, se transforma em júbilo.
Bravo, bravô!
Serviço:
Teatro Riachuelo Rio, Centro
Sextas, às 20h
Sábados, às 16h e às 20h
Domingos, às 15h

