Referência em arte popular, Museu do Pontal completa 50 anos com festa

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Em setembro de 1976, num movimento de vanguarda, o designer francês Jacques Van de Beuque (1922-2000) ocupou o Museu de Arte Moderna com a coleção garimpada em viagens pelos rincões do país.

Cerca de 4 000 obras espraiaram-se por todas as salas do MAM Rio. A Arte do Viver e do Fazer foi sucesso de público — a cada fim de semana, 3 000 pessoas passavam por lá — e de crítica.

Diante da magnitude do acervo, a Associação Brasileira de Críticos de Arte insistiu que as peças fossem exibidas de forma permanente.

Van de Beuque levou tudo para um sítio que tinha no Recreio e nasceu, então, o Museu do Pontal, que chega aos cinquenta anos como referência em arte popular.

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Como tudo começou: o francês Jacques Van de Beuque viajava por todo o país garimpando peças e instalou o museu num sítio próprio, no Recreio, que sofreu com constantes enchentes até 2021 (./Divulgação)

A atual sede, inaugurada há cinco anos, na Barra, vai receber uma série de festejos, começando com uma mostra individual do artista sergipano Véio, com abertura no sábado (29). Ele estará presente.

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“A exposição no MAM transformou o que antes era artesanato e folclore em arte. Os artistas tiveram seus nomes destacados, com suas fotos ao lado das obras. A identificação e exaltação dos criadores foi fundamental para essa virada”, conta Lucas Van de Beuque, diretor do Museu do Pontal e neto do fundador.

O acervo conta hoje com 10 000 trabalhos de trezentos artistas.

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De forma sistemática, Lucas e sua mãe, a curadora Angela Mascelani, continuam a missão do designer francês, interessando-se pela trajetória de cada artista, produzindo documentários e montando exposições em outras cidades e países.

Durante quinze anos, Lucas visitou com frequência o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, de onde despontou Dona Isabel (1924-2014). “Ela é conhecida pelas esculturas de noivas, mas pouca gente sabe que, no início, fazia presépios. Como deixou de ser católica, nem gostava de mencionar esse fato”, relembra Angela.

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Mas engana-se quem pensa que o Museu do Pontal guarda apenas trabalhos antigos e oriundos do interior de Minas e do Nordeste.

Criações de artistas de 23 estados, incluindo São Paulo, Santa Catarina e Rio, e a produção contemporânea dos grandes centros urbanos também estão lá.

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“O Juan Pablo, de 21 anos, cresceu na Vila Aliança, em Bangu, e utiliza material reciclado. Já o Adalton Fernandes Lopes, nascido no Buraco do Boi, na periferia de Niterói, criava obras de 2 metros com compostos orgânicos”, cita o diretor da instituição.

O termo “arte popular” também vem sendo repensado. “É arte e ponto. Consideramos que o que define se é popular ou não é a vivência num contexto social de pobreza”, analisa Angela, doutora em antropologia cultural pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

“Isso não significa que aquele criador não possa ascender socialmente. Arte popular é categoria sociológica, não estética.”

A mostra de Cícero Alves dos Santos, o Véio, será um retrato dessa diversidade de pensamento, e da trajetória do próprio museu, que desde os anos 1970 possui obras do sergipano. Uma peça de madeira pintada de amarelo e azul, inclusive, aparece nos telões da turnê atual de Djavan.

Mulher negra sorrindo, com turbante amarelo, brincos verdes e colar dourado, em frente a uma janela branca. Ao lado, homem pardo sério, de camisa verde, em um jardim com árvores e esculturas vermelhas
Comemoração à altura: no último fim de semana de agosto, o museu recebe o show de Lia de Itamaracá (à esq.) e uma grande exposição do sergipano Véio (à dir.) (Ytallo Barreto/Divulgação)

Outra estampa o disco Obra Viva de Hermeto Pascoal Volume 1: Flautas, lançado em 2025.

“Minhas criações são iguais aos dedos das mãos, todas são importantes”, resume Véio, de malas prontas para a festa.

“Ele tem personalidade radical e é destemido, não fica preso a um estilo”, explica a curadora. Instalado num terreno de 14 000 metros quadrados — dos quais 10 000 são de área verde, perfeita para piqueniques e atividades lúdicas para as crianças —, o edifício que abriga o museu foi projetado pelo escritório Arquitetos Associados, responsáveis também por algumas galerias do Inhotim, em Minas.

O projeto segue conceitos de sustentabilidade, com amplas portas e janelas, muita iluminação natural e sistema de reúso de água da chuva.

O imóvel original, no Recreio, sofreu constantemente com enchentes que colocavam em risco o precioso acervo.

Esse medo ficou para trás e o espaço na Barra dispõe de um animado calendário para toda a família, com destaque para as festas juninas.

Nos dias 29 e 30 de agosto, shows como o da pernambucana Lia de Itamaracá e mais vinte atrações gratuitas prometem lotar o gramado.

Mais de 400 000 visitantes já estiveram por lá e muitos mais virão. Esse museu tipicamente brasileiro reúne os brasis compreendidos do Oiapoque ao Chuí.  

Publico area externa do Museu do Pontal 2 _rataodiniz (1).jpg
Sucesso de público: 400 000 pessoas já passaram pelo espaço, com intensa programação aos fins de semana, nos últimos cinco anos (Ratão Diniz/Divulgação)

Arraia do Museu do Pontal _rataodiniz (1).jpg

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Coisa nossa 

Sete obras que resumem as cinco décadas da instituição 

Mulher Moringa com Pássaro, de Dona Isabel 

Escultura de mulher com pele escura, cabelo preso, brincos de pérola e colar tribal. Veste um vestido bege com babados na saia e segura um pássaro marrom na mão direita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Monstro do Sertão, de J. Borges 

Xilogravura colorida com um sol de rosto assustador e raios laranja, sobre um boi preto com chifres e cauda, ao lado de uma árvore verde. O texto superior diz SOU UMA PEÇA BONITA FEITA PELO CRIADOR SOU QUENTE E CLAREIO O MUNDO NO SERTÃO SOU O TERROR PORQUE ACABO A LAVOURA DO POBRE AGRICULTOR. Na parte inferior, O MONSTRO DO SERTÃO J. BORGES

Lampião-Sereia, de Mestre Galdino 

Escultura de barro em tom terroso, representando um homem com chapéu de couro e óculos redondos, montado em um peixe com dentes pontiagudos na parte inferior

Noivos a Cavalo, de Mestre Vitalino 

Escultura de barro em tons terrosos, representando um homem de chapéu montado a cavalo, com uma mulher sentada atrás dele. O homem veste terno claro e segura as rédeas do cavalo, que tem a palavra VITALINO gravada na lateral. A mulher, com um véu, segura um jarro. Ambos têm expressões sérias e olhos arregalados, olhando para a direita. O fundo é branco

Escola de Samba, de Adalton 

Estatuetas de barro representando homens negros com rostos expressivos, vestindo ternos cor-de-rosa, camisas verdes e gravatas borboleta brancas, em um ambiente escuro com brilhos

Toré, de Nhô Caboclo 

Escultura de madeira escura com figuras humanas estilizadas. Na parte superior, cinco figuras com corpos envoltos em tecido laranja e branco, adornadas com penas brancas e marrons, seguram objetos pontiagudos. Abaixo, duas figuras semelhantes, com penas e tecidos, operam uma estrutura de madeira que se conecta a um disco metálico. A base é de madeira escura e plana

Sinaleiro do Vento, de Laurentino

Boneco de madeira colorido, representando um homem com chapéu vermelho decorado com estrelas de seis pontas, bigode e cachimbo. Ele veste um uniforme azul com detalhes vermelhos e brancos, segurando uma faca vermelha com listras azuis em cada mão. A figura está sobre uma base de madeira vermelha e marrom, com um símbolo branco na parte inferior
(./Divulgação)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/programe-se/museu-pontal-50-anos/

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