Teatro (Claudia Chaves): “Respeitar a regra do jogo”, diz Gawronski

Tempo de leitura: 9 min


Dora é uma dessas personagens que encontramos por aí, meio perdidas, nas festas dos amigos, nos mercados, no metrô, no clube. Em qualquer lugar onde pessoas solitárias procuram outras pessoas para fingir que estão sendo escutadas. Ela é assim: contida e, ao mesmo tempo, desabrida; ligada aos antepassados como se sua vida tivesse parado há dez anos. Conversa com a melhor amiga — e a bloqueia. Conversa com as cinzas — e discute. Dora é cheia de contradições e, talvez por isso, seja tão reconhecível.

(Dalton Valério/Divulgação)

Thereza Falcão parte de uma situação que poderia parecer conhecida para construir um texto impecável, repleto de surpresas, pontos de virada, risadas e lágrimas, absurdo e coerência. A história de Dora vai se revelando aos poucos, e aquilo que parecia ser apenas uma mulher falando sozinha transforma-se numa trama sobre solidão, memória, luto, culpa, envelhecimento e, principalmente, sobre a possibilidade de mudar o rumo da própria vida.

Mulher sorridente, de meia-idade, com roupa de estampa de onça e chapéu, aponta para um quadro suspenso com silhuetas e nomes Vovô Dario e Vovó Ana
(Dalton Valério/Divulgação)

O cenário de Nello Marrese é especialmente interessante: lembra aqueles cemitérios de filmes de fantasmas, um espaço entre a vida e a morte, povoado por memórias e presenças. É ali que Grace Gianoukas faz uma verdadeira demonstração de domínio da cena. Ela passa da tragédia à caricatura, da paródia à comicidade, do drama à delicadeza com a mesma eficiência. Cria personagens apenas mudando a voz, o corpo, o olhar e o ritmo — e faz de Dora uma mulher, ao mesmo tempo, absurda, engraçada, triste e profundamente humana. Grace não precisa escolher entre o riso e a dor: trabalha os dois com a mesma precisão.

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Mulher de meia-idade, com cabelo escuro preso e maquiagem marcante, sentada em um palco escuro. Ela veste um vestido longo rosa com mangas largas e um colar grande. Ao fundo, estruturas suspensas com objetos e retratos emoldurados, incluindo um com o nome TIA OLIVIA *1955 - +2023. À direita, dois cachorros de pelúcia marrons. A cena sugere uma peça teatral ou performance.
(Dalton Valério/Divulgação)

Os figurinos de Rosina Lobosco são um espetáculo à parte: maravilhosos, daqueles que a superdinda colocaria para o batizado do afilhado-neto, num domingo, às 11h. Puro brilho, excesso e personalidade. Vestem Dora como se cada aparição fosse uma pequena cerimônia — e ajudam a contar, sem dizer uma palavra, quem é aquela mulher.

A direção de Gilberto Gawronski extrai todas as possibilidades do monólogo. Entonação, gestual, voz e movimento transformam Dora em várias Doras e fazem surgir, diante de nós, os personagens com quem ela se relaciona. A iluminação de Vilmar Olos ajuda a criar esse território entre realidade, memória e fantasmagoria, enquanto a direção musical e a trilha sonora de Rodrigo Marçal — marcas importantes do trabalho de Gawronski — participam ativamente da dramaturgia.

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Atriz com cabelo preso e maquiagem forte, vestindo um casaco azul-turquesa coberto de broches e colares, gesticula com a mão direita. Ela está em um palco com prateleiras suspensas por correntes, exibindo objetos como uma bandeira do Fluminense, urnas e fotos emolduradas de pessoas com datas de nascimento e falecimento
(Dalton Valério/Divulgação)

E então, quando Dora finalmente parece encontrar uma fresta para escapar das amarras que construiu para si mesma, dá vontade de cantar: “Liberdade, abre as asas sobre mim”. É quase uma brincadeira com a nossa própria história de independência. Só que, para Dora, ela não chega por meio de um grito às margens de um rio. Vem da coragem de olhar para a própria vida e descobrir que ainda é possível escolher.

A plateia sai revigorada. Talvez porque rir seja mesmo um dos melhores remédios, mas também porque viver continua sendo a mais grandiosa das aventuras. Do pó viemos, ao pó voltaremos — e, entre uma coisa e outra, ainda há tempo para mudar a história.

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Entrevista com Gilberto Gawronski

1 – Você começou como ator e logo passou também para a direção. Como aconteceu essa transformação?

Minha formação começou como ator, mas, quando eu ainda estava cursando a CAL, fui chamado por Luiz Antônio Martinez Corrêa para ser seu assistente na montagem de Teatro Musical Brasileiro. A partir dali, houve um envolvimento total com esse olhar sobre a cena e também a confiança do Luiz, que me colocava como responsável pela visão final do espetáculo. Outro trabalho muito importante foi Aurora da Minha Vida. Além de ator, fui colocado como diretor de palco. Acho que um trabalho sempre ajuda o outro. A assistência de direção me deu uma formação que tornou meu olhar mais apurado e me fez mais parceiro do ator. Acredito que sou, antes de tudo, um diretor de ator. Gosto da construção, do detalhamento e do refinamento.

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2 – Você dirige ópera, cabaré, drama, comédia e monólogo. O que permanece quando muda o gênero?

Acho que é o estabelecimento de um jogo. Quando você entende quais são as regras estabelecidas para aquele espetáculo existir, pode jogar e alterar, mas precisa respeitar a regra do jogo. Mesmo num monólogo, o ator tem a possibilidade de fazer diferente, de alterar a interpretação de acordo com sua disponibilidade naquele dia, mas conhece os objetivos daquela cena. É esse olhar que dá unidade ao espetáculo. O trabalho do diretor, no meu caso, é encontrar um conceito de montagem que regerá todos os caminhos: cenografia, direção musical, atuação, figurino e luz.

3 – Como é trabalhar com Grace Gianoukas, uma amiga que você conhece desde os anos 1980?

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Tem sido uma alegria muito grande. Conheço a Grace desde os anos 1980, em Porto Alegre, quando ela veio de Rio Grande estudar na mesma faculdade que eu. Durante todo esse tempo, fomos assistindo um ao outro e admirando nossos trabalhos. Percebíamos as diferenças, mas também as semelhanças nas referências e na maneira de fazer. Ela é uma atriz que busca novas formas todos os dias. Está sempre inquieta, sempre perseguindo a perfeição. Durante os ensaios, muitas vezes eu estava ali como diretor, mas me encantava tanto com a atuação dela que acabava virando espectador. Esse prazer de continuar sendo espectador do trabalho da Grace tem sido muito, muito gratificante.

4 – Você fala muito da parceria com o ator. De onde vem essa característica do seu trabalho como diretor?

Acho que vem justamente das minhas primeiras experiências como assistente. Em Cenas de Outono, de Mishima, acompanhei a construção da personagem de Marieta Severo, trabalhando como assistente de Luiz Antônio. Pude observar uma atriz extremamente dedicada, precisa e preciosa nas questões de marcação e intenção. Sinto que construí aquela personagem junto com ela. É esse lugar de ser parceiro da descoberta, de estar ao lado e a favor do ator, que considero uma particularidade do meu trabalho. Gosto dessa construção compartilhada, desse refinamento.

5 – Depois de tantos trabalhos, o que ainda falta montar? Quais projetos continuam instigando você?

Ainda há muitas coisas que eu gostaria de montar. Não montei Jean Genet, ainda me falta uma tragédia grega e um verdadeiro Bertolt Brecht. Também tenho muito interesse pela nova dramaturgia, pelo que está sendo feito e pelo que essa palavra escrita está provocando. Acho que ainda existe muita coisa para ser vista, trabalhada e elaborada. Fico no meu ateliê rebuscando ideias, projetos que venho desenvolvendo há uns dez anos e que agora considero prontos para chegar ao palco. Acho que ainda restam algumas coisinhas a serem feitas.

Serviço:
Dora, em cartaz  no Teatro dos Quatro — Shopping da Gávea
Sextas e sábados, às 18h; domingos, às 17h
Até 30 de agosto

Claudia Chaves
  (Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-claudia-chaves-respeitar-a-regra-do-jogo-diz-gawronski/

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