Chiquinho da Educação pode até ter deixado oficialmente a prefeitura, mas nunca saiu, de fato, do poder em Araruama. Mesmo com histórico de condenações o ex-prefeito seguiu operando nos bastidores — até esbarrar em um limite: o CPF de quem estava no cargo.
E foi aí que tudo mudou.
Eleita em 2024 como herdeira política do grupo, Daniela Soares rompeu logo no início do mandato ao perceber que poderia pagar a conta de decisões que não seriam, de fato, dela. “Tinha uma carreira antes de entrar na política e estou aqui para representar Araruama e não interesses pessoais de ninguém’, disse na ocasião do racha. Segundo aliados, o recado foi direto: ou assumia o controle, ou assumia o risco.
A escolha foi pela sobrevivência política. O que era continuidade virou rebelião. E o que era bastidor virou guerra.
Desde o rompimento, no ano passado, a atual gestão relata uma sequência de movimentos para desgastar e desestabilizar o governo. A disputa escalou rápido — e explodiu publicamente no feriado de Corpus Christi.
Durante a confecção do tradicional tapete de sal, a ex-prefeita Lívia de Chiquinho perdeu o controle ao ver a prima e atual prefeita no evento. Em meio a fiéis e moradores, disparou: “traidora”.
A cena escancarou o que já era comentado nos bastidores: o grupo que dominou Araruama por anos implodiu.
Mas o rompimento não veio do nada.
Daniela foi secretária de governo, candidata escolhida e eleita com o nome “Daniela de Lívia”, numa tentativa clara de manter o poder dentro da mesma estrutura. Só que, ao assumir, percebeu que governar sob influência poderia significar se expor.
Do outro lado, o histórico pesa.
Chiquinho foi enquadrado na Lei da Ficha Limpa após condenações por abuso de poder, ficou inelegível a partir de 2014 e, em 2017, chegou a ser proibido pela Justiça de entrar na prefeitura após investigações indicarem que despachava, nomeava e exonerava como se fosse prefeito, mesmo sem cargo, durante o governo de sua esposa.
Em 2025, o Tribunal de Contas do Estado ainda determinou a devolução de mais de R$ 1 milhão por irregularidades, como contratos sem licitação e uso indevido de recursos públicos.
Lívia de Chiquinho, prefeita entre 2017 e 2024, também acumula problemas: foi declarada inelegível por 8 anos após ter as contas de 2023 reprovadas, além de responder a ações por suspeitas de irregularidades, como no caso do Minha Casa, Minha Vida.
Hoje, Araruama vive um cenário de tensão permanente.
E depois do barraco no tapete de sal, ficou claro: essa não é só uma briga política.
É uma guerra por sobrevivência.

