Anand Giridharadas encontrou recentemente no metrô de Nova York duas pessoas que conhecia e outros dois estranhos que se aproximaram para dizer que admiravam seu trabalho. A maioria dos escritores não é facilmente reconhecida nas ruas, mas Giridharadas leva vantagem graças a uma farta cabeleira grisalha. Ele atua como comentarista na TV e no Substack, é jornalista e autor de cinco livros. Sua obra mais recente, “Man in the Mirror”, foi lançada este mês nos EUA. Trata-se de uma apuração minuciosa sobre o encontro fatal entre Jordan Neely — homem em situação de rua que sofria de transtornos mentais — e Daniel Penny, ex-fuzileiro naval.
Para os nova-iorquinos, os contornos gerais dessa história são bem conhecidos: em 2023, Penny embarcou no metrô do Brooklyn. Quatro estações depois, Neely — que conviveu com depressão e esquizofrenia durante boa parte da vida — entrou no vagão e começou a proferir um discurso desconexo e agressivo. Ao notar o medo dos outros passageiros, Penny imobilizou Neely com um golpe de estrangulamento. A ação continuou mesmo depois que o corpo de Neely ficou inerte. Dezoito meses mais tarde, Penny foi julgado e absolvido da acusação de homicídio culposo, em um caso que polarizou a opinião pública.
Ao escrever o livro, Giridharadas buscou “resgatar as pessoas no centro dessa história das garras do clickbait”, como ele afirmou a Tina Brown em uma das aparições promocionais que realizou nas últimas semanas. Para isso, a obra mergulha profundamente nos personagens principais — não apenas Penny e Neely (cuja própria mãe, num paralelo devastador, foi morta por um namorado abusivo que a estrangulou), mas também advogados, ativistas e profissionais de assistência social envolvidos no caso.
Neely era negro e Penny, branco; a história rapidamente ganhou contornos raciais, expondo visões conflitantes sobre a prevalência da criminalidade. O desfecho do julgamento teve repercussões distintas: foi celebrado por aqueles que viam a Nova York pós-pandemia como um lugar assolado pela anarquia, e denunciado por quem considerava Neely uma vítima indefesa de um sujeito brutal e impensado.
Ao apurar o material para o livro, Giridharadas refez diversas vezes o trajeto que uniu os dois homens. Recentemente, acompanhei-o em mais uma dessas viagens. Penny havia embarcado na estação Jay Street, perto do New York City College of Technology. Entramos no trem naquela estação; quando a composição chegou à Segunda Avenida, Giridharadas acionou um cronômetro para demonstrar a rapidez com que a tragédia se desenrolou. Segundo testemunhas e registros do sistema de transporte, Neely embarcou ali e, no intervalo até a estação seguinte — cerca de 30 segundos depois —, já havia proferido suas ameaças, levando Penny a reagir de forma agressiva, imobilizando-o pelo pescoço durante cinco minutos.
— Desde o início, senti que esta história condensava e reunia muitas das crises dos EUA dentro de um único vagão de metrô — disse-me Giridharadas. — O nível de alarmismo na mídia, nossa incapacidade de cuidar dos mais vulneráveis… estava tudo ali, naquele mesmo lugar.
Um dos trechos mais esclarecedores do novo livro analisa a trajetória de Penny como um filho de Long Island — mais especificamente de West Islip, local que, diz Giridharadas, constitui um “universo social onde as famílias, embora pertencentes à classe média em termos econômicos, eram, culturalmente, de classe trabalhadora”. A cidade, conta ele, via Nova York com desconfiança. Contudo, na visão de Giridharadas, seria simplista demais definir Penny apenas por um conjunto de medos suburbanos e valores provincianos. Ele almejava uma vida mais ampla, mais cosmopolita. No ano passado, inclusive, Penny foi contratado pela empresa de capital de risco Andreessen Horowitz.
Giridharadas, de 45 anos, tornou-se conhecido com seu livro de 2018, “Winners take all”. Na obra, ele argumenta que a filantropia dos bilionários não passa de hipocrisia e engodo, visto que os super-ricos frequentemente gastam seus rendimentos — isentos de impostos — para tentar resolver problemas sociais que, na verdade, foram criados pela própria acumulação de suas fortunas. A questão de classe é, há muito tempo, uma obsessão para ele — um interesse que surgiu no início dos anos 2000, quando vivia em Mumbai, na Índia, como consultor para a McKinsey e, posteriormente, como colaborador para o New York Times e o International Herald Tribune.
Foi um período decisivo em sua trajetória. O país passava por um processo de modernização econômica e cultural rápido e histórico. Ao mesmo tempo, as oportunidades para canalizar uma ambição nova e abrangente eram limitadas.
— Na Índia, não há como escapar da complexidade das hierarquias — disse Giridharadas. — Embora não se possa transpor a realidade de um lugar para outro, uma vez que você adquire uma forma de observar, uma lente, é possível aplicá-la em qualquer lugar.
Ele utilizou essa abordagem, por exemplo, em sua análise minuciosa dos documentos sobre Jeffrey Epstein para sua newsletter, “The Ink”:
— Notei o quanto Epstein era detalhista quanto a saber se as pessoas haviam comido ou não ao chegarem à sua casa. Esse não é um comportamento típico de um homem rico americano. Mas é um comportamento característico das elites em países mais tradicionais e em desenvolvimento, onde o poder — e até mesmo o abuso — pode vir acompanhado de uma atenção minuciosa a detalhes como o fato de você ter comido ou não.
