Sob a cortina de fumaça de um completo “apagão de dados” que se estende de 2024 a 2026, o Instituto Rio Metrópole (IRM) tem mantido operações financeiras de centenas de milhões de reais em gastos extravagantes e licitações restritivas longe dos olhos do público.
Enquanto os canais oficiais de transparência do estado do Rio permanecem congelados e sem atualizações recentes, uma auditoria cruzada em diários oficiais revela que a autarquia vinculada à Secretaria de Estado de Governo (Segov) seguiu escoando recursos públicos em ritmo acelerado nos últimos anos.
Quem tenta fiscalizar as contas do Rio Metrópole, o gestor de orçamentos bilionários na Região Metropolitana, encontra grandes barreiras: o Portal da Transparência do governo do estado não funciona, a aba de contratos do site do IRM parou em 2024 e o sistema SIGA exibe lançamentos defasados.
Abaixo da superfície desse apagão digital, acontece a “farra” dos gastos públicos com direito a mobiliário de luxo, sedes milionárias por “questão de vista” e contratos de pavimentação com exigências misteriosas.
Prisão da cúpula do IRM
O então presidente do instituto Davi Perini Vermelho, conhecido como Didê, foi preso em 9 de julho durante a Operação Ouroboros, deflagrada pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) para investigar um suposto esquema de corrupção que teria desviado cerca de R$ 86 milhões da autarquia entre 2022 e 2026.
Além dele, também foram presos diretores e integrantes da cúpula do instituto, entre eles o diretor de Planejamento e Projetos, Maurício Silva Knoploch dos Santos, o delegado Franquis Dias Nepomuceno e outros investigados. Segundo o MPRJ, o grupo é acusado de integrar uma organização criminosa voltada à fraude em licitações, corrupção, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos.
Após as prisões, o governo do estado exonerou Didê, Knoploch, Franquis Dias Nepomuceno e outros ocupantes de cargos de direção do IRM, enquanto a Controladoria-Geral do Estado ampliou auditorias sobre contratos firmados pela autarquia.
As investigações apontam que o esquema utilizava contratos públicos para direcionar recursos a empresas ligadas aos investigados, motivando uma ampla revisão dos atos administrativos do instituto.
Em resposta direta à crise, o presidente interino, delegado Roberto Leão, determinou um “pente-fino” através de duas determinações: congelamento imediato de pagamentos e realização de auditoria em todos os contratos.
O ato instaura uma auditoria extraordinária para examinar rigorosamente todos os contratos, convênios, aditivos e ajustes vigentes firmados pela autarquia.
Apagão de dados em três anos
Ao final de 2024, período em que o site oficial do IRM deixou de divulgar novos contratos, a autarquia firmava aditivos de grande impacto financeiro. Um contrato de pavimentação teve seu valor ampliado para R$ 71,6 milhões, enquanto outro, também voltado para obras da mesma natureza, foi reajustado para R$ 83 milhões.
Sem os olhos da opinião pública através dos portais de transparência ativa, o IRM avançou entre 2025 e 2026 para contratações com critérios técnicos, no mínimo, incomuns. Recentemente, o órgão homologou uma licitação estimada em R$ 78,9 milhões para a manutenção de pavimentos. O edital, contudo, exigia o uso de um “ligante especialíssimo” no asfalto — uma cláusula restritiva que, na prática, afunila a concorrência e direciona o certame. Sob o mesmo pretexto, outra licitação de R$ 72,4 milhões foi aberta para calçadas, resultando na contratação final de uma empresa por R$ 61,6 milhões.

Essa prática de exigências singulares não é nova. Ainda em 2024, o instituto já havia empenhado R$ 71,5 milhões para asfaltar apenas 40 quilômetros de vias, sob a justificativa de que necessitava de um “asfalto antirruído”. No mesmo período, um processo de sinalização viária de R$ 10 milhões foi classificado sob sigilo, blindando o acesso de observadores externos.
Aluguel e móveis luxuosos
Em novembro de 2024, no fechamento dos balanços daquele exercício, o IRM optou por renovar seu contrato de aluguel na Avenida Presidente Wilson, no Centro do Rio. O custo para os cofres públicos foi de R$ 2,6 milhões, mantido sob a justificativa de preservação da localização e da “vista privilegiada”. Meses antes, em julho de 2024, um edital de R$ 1 milhão já havia sido emitido exclusivamente para a aquisição de móveis de luxo e cadeiras de grife corporativa para os gabinetes.


Ao mesmo tempo, a estrutura administrativa da autarquia também foi ampliada: a partir de maio de 2024, o IRM passou a manter mais de 60 cargos comissionados. Para isso, o órgão destinou R$ 7,2 milhões, em abril daquele ano, à contratação de mão de obra terceirizada para funções como garçons, copeiras e secretárias executivas. No mesmo período, os servidores foram beneficiados com um reajuste de 73% no auxílio-refeição, elevando o valor diário para R$ 83,90.


Centenas de milhões em ‘estudos’ e em sala de comando
A justificativa técnica para a existência do Instituto Rio Metrópole foca no planejamento urbano, área que consumiu cifras astronômicas antes do fechamento dos dados. Logo no início do ano, em março de 2024, foram destinados R$ 42 milhões para projetos de modelagem tecnológica (BIM).

Pouco depois, em junho, a autarquia lançou o edital de R$ 27,5 milhões para estudos de viabilidade técnica e, em setembro do mesmo ano, concluiu outra licitação de R$ 25,9 milhões para a elaboração de diagnósticos e estudos diversos. Já no final de 2025, até mesmo um contrato de R$ 1,8 milhão voltado exclusivamente para a realização de eventos foi firmado.



Também em dezembro de 2025, o então governador Cláudio Castro (PL) e o presidente do IRM, Davi Perini Vermelho, o Didê, inauguraram com festividades a nova Sala de Comando da autarquia, uma obra que custou R$ 70,9 milhões.

Total de gastos por ano
No exercício de 2024, o Rio Metrópole gastou R$ 570 milhões em contratos e editais, que foram inflados por projetos como a licitação de R$ 98,3 milhões para saneamento, obras com “asfalto antirruído” de R$ 71,5 milhões e aditivos de pavimentação.


Em 2025, o Instituto Rio Metrópole concentrou esforços na conclusão e entrega de projetos, enquanto permanecia sem divulgar informações em seus portais de transparência. O principal marco do ano foi a inauguração, em dezembro, da nova Sala de Comando de R$ 70,9 milhões da autarquia pelo governador Cláudio Castro.
Em 2026, o principal destaque ficou por conta da licitação de R$ 78,9 milhões para a manutenção de pavimentos com o uso de um “ligante especialíssimo”, acompanhado elo outro edital de R$ 61,6 milhões, destinado à recuperação de calçadas.
Embora o impacto bruto neste ano atinja a cifra de R$ 212,9 milhões, o cálculo real ajustado revela que o IRM operou e escoou pelo menos R$ 140,5 milhões em dinheiro público no escuro. Ao todo, entre 2025 e 2026, foram encontrados R$ 211,4 milhões em gastos públicos.
Irregularidades em 70% dos contratos
A auditoria promovida pelo delegado Roberto Leão, em resposta direta à crise que atinge o Rio Metrópole, aponta que 70% dos contratos analisados apresentam irregularidades.
De acordo com o presidente interino, que também é secretário do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo do estado, o IRM fugiu totalmente de sua missão de “promover o intercâmbio entre prefeituras e estado, realizando melhorias urbanas nas cidades da Região Metropolitana”.
Falta de transparência
A reportagem do TEMPO REAL tentou diversas vezes, em dias diferentes, consultar o Portal de Transparências do governo sobre os gastos anuais do Rio Metrópole, bem como o valor orçamentário anual previsto nos últimos três anos.
Ao entrar em contato com a autarquia e com o governo, explicando a dificuldade inclusive com uma reprodução em vídeo da tentativa de acesso à transparência, o IRM se limitou a dizer que os dados institucionais estão atualizados. Leia a resposta na íntegra:
“O Instituto Rio Metrópole (IRM) esclarece que todas as informações e dados institucionais estão devidamente atualizados e disponíveis em seu portal oficial”.
Diante da falta de transparência e de uma resposta adequada, a reportagem solicitou acesso aos dados com base na Lei de Acesso à Informação (nº 12.527/2011), com o prazo de vinte dias e possível prorrogação por mais dez dias, mediante justificativa expressa, conforme o artigo 11 da LAI. O primeiro prazo se encerra em 06 de julho.
Até a última atualização desta reportagem, o IRM não havia retornado sobre a solicitação do TEMPO REAL.

