Conhecida pelo clima ameno, produção rural, confecções e por destinos turísticos como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, a Região Serrana reúne realidades econômicas e sociais distintas. Enquanto as maiores cidades concentram atividades industriais, comércio e serviços, as menores mantêm forte relação com o campo. Em comum, porém, estão desafios que atravessam os limites territoriais e as eleições. Um deles é antigo: a prevenção de enchentes e deslizamentos, que ganharam mais importância depois das sucessivas tragédias provocadas pelas chuvas. Somente em 2022, foram 242 mortes em Petrópolis. Em 2011, a Serra registrou o maior desastre natural do país, com cerca de 1 mil mortos.
A distribuição dos serviços de saúde é outro ponto sensível numa região formada por municípios de tamanhos muito diferentes e marcada pelo deslocamento de moradores em busca de atendimento nas cidades maiores. A mobilidade também é uma questão estratégica. Diferente da Região Metropolitana, onde grande parte dos deslocamentos ocorre dentro de área urbana, na Serra as rodovias são fundamentais para a circulação dos moradores, escoamento da produção agrícola e industrial e o turismo. Já o transporte público é apontado pela população como crítico.
O plano de governo do candidato ao Palácio Guanabara Eduardo Paes (PSD) propõe um centro de operações para a Região Serrana. Com sede em Petrópolis, o órgão terá como foco a prevenção de enchentes, o monitoramento de catástrofes naturais e a contenção de encostas. Paes também promete hospitais regionais e a expansão do modelo de super centros de saúde do Rio para zerar as filas de atendimento e descentralizar a saúde fora da capital.
Douglas Ruas (PL) prevê a recuperação de estradas e investimentos em rotas alternativas para o escoamento da produção rural. O plano viário inclui melhorias em vias que dão acesso aos roteiros turísticos. Estão previstos incentivos a polos industriais; calendário de eventos no interior com requalificação de parques de exposição; investimentos em saúde com a entrega do Hospital do Câncer de Nova Friburgo e projetos de combate às enchentes.
Anthony Garotinho (Republicanos) propõe a recuperação de rodovias, com foco no turismo e na produção rural; a entrega do Hospital do Câncer de Friburgo; prevenção de enchentes; crédito para pequenos empresários e produtores rurais; incentivos a projetos turísticos e prevenção de enchentes.
Economia ganha força
Os pequenos negócios vêm ganhando espaço na Serra. Levantamento do Sebrae Rio divulgado em julho mostra que o número de empresas ativas em 14 municípios da Serra passou de 101,8 mil, em 2021, para 134,9 mil em 2026, um crescimento de 32,48%. Micro e Pequenas Empresas (MPE) e Microempreendedores Individuais (MEI) somam 123,1 mil CNPJs ativos. Nos maiores polos econômicos serranos, a participação dos pequenos negócios é elevada. Em Nova Friburgo, representam 92,2% das empresas; em Petrópolis, 91,9%; e, em Teresópolis, 89,8%.
Se a prevenção de desastres é uma preocupação estrutural, uma análise das publicações de veículos de notícias locais nas redes sociais revelam outras preocupações dos moradores. São problemas ligados às contas públicas, transporte, saúde e funcionamento dos serviços municipais.
A Serra tem o quarto maior Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) médio entre as regiões fluminenses: 0,6222 (praticamente igual à média estadual, veja quadro). O índice avalia educação, saúde, emprego e renda.
Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM)
Editoria de Arte
Entenda as alianças políticas: Paes e Ruas miram prefeitos
Os candidatos ao Palácio Guanabara Eduardo Paes e Douglas Ruas buscaram o apoio de prefeitos da Serra para fortalecerem suas bases na região. Com costuras iniciadas ainda na pré-campanha, Paes e aliados percorreram os 20 municípios serranos para fechar alianças. Pelo menos 13 prefeitos ofereceram apoio ao candidato do PSD. Já Ruas conquistou palanques em sete cidades, a maioria governada por prefeitos bolsonaristas. Garotinho, que teve a candidatura barrada na última sexta-feira pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) e pretende recorrer da decisão, encontrou dificuldades para fechar alianças com os chefes do Executivo municipal. O ex-governador do estado conta com o apoio de vereadores de sua legenda e de lideranças partidárias aliadas.
A disputa por apoios da Serra acontece num cenário em que Paes aparece na liderança. Ele soma 43% das intenções de voto no primeiro turno, conforme pesquisa Datafolha divulgada na última sexta-feira, seguido por Ruas, com 25%. Garotinho está em terceiro, com 10%.
Na Serra, conquistar votos significa falar para cidades bastante diferentes. Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo concentram população e atividades econômicas como indústria, comércio e serviços, enquanto cidades menores formam uma extensa área marcada pela produção agropecuária, pelos pequenos negócios e por maior dependência de ligações rodoviárias. Para os candidatos, a disputa pelo eleitorado da região passa justamente pela capacidade de transformar essas diferentes demandas numa agenda regional com soluções para problemas há anos sem respostas.
O que a população quer para a região
Júlia Lima, 26 anos, estudante de Contabilidade, moradora de Teresópolis.
Arquivo pessoal
Transporte público é considerado um problema crônico para os moradores da Região Serrana. Os ônibus são a principal opção de deslocamento e o sistema incluiu linhas intermunicipais e municipais. Em ambas, as reclamações são as mesmas: tarifas caras, horários reduzidos e frota mal conservada.
— Tenho muitos problemas com o transporte público. Para ir à faculdade são poucos ônibus, sempre estão lotados e, se perder um, o próximo só 40 minutos depois — diz a estudante de Contabilidade Júlia Lima, 26 anos, moradora de Teresópolis.
A reclamação é compartilhada pela vendedora Vanessa Silva, 34 anos, de Petrópolis.
— Apesar de a passagem ser cara, os ônibus são precários e a frota está diminuindo — reclama.
— Está tudo ruim no transporte de Petrópolis. Na saúde e na educação, também, um caos — afirma a dona de casa Sandra Fliess, 54 anos.
* Priscila Schmitz: Doutora em Ciência Política (IESP-UERJ), pesquisadora (UFRJ/INCT-ReDem/UFPR), sob a supervisão de Marcelo Remigio
PROJETO TAMO JUNTO: É uma parceria do EXTRA com o Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em que jornalistas e pesquisadores focalizam o processo eleitoral deste ano em sete regiões do Estado do Rio de Janeiro, abordando problemas, apontando soluções e apresentando propostas dos planos de governo dos principais candidatos.
Com informações da fonte
https://extra.globo.com/politica/tamo-junto/post/2026/09/regiao-serrana-fim-das-enchentes-ficou-na-promessa-e-tragedias-se-repetem.ghtml
Região Serrana: fim das enchentes ficou na promessa e tragédias se repetem
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