Por Jefferson Lemos
O jogo político no Rio de Janeiro já não pode ser interpretado apenas pelas pesquisas, pela organização partidária ou pela qualidade das campanhas. Há movimentos que acontecem fora do campo mais evidente da disputa e que, embora nem sempre possam ser identificados com precisão, produzem efeitos concretos sobre o equilíbrio eleitoral.
É nesse ponto que o bom senso deve se sobrepor à coragem. Disposição para enfrentar uma eleição, firmeza de posições e capacidade de mobilização continuam sendo atributos importantes. Mas tornam-se insuficientes quando o tabuleiro parece submetido a forças que atuam para definir, antes mesmo do voto, quais alternativas terão condições reais de chegar competitivas à disputa.
A eleição fluminense apresenta um elemento especialmente inquietante: a atuação de uma espécie de mão invisível, que movimenta peças, fecha caminhos, fabrica obstáculos e estimula a fragmentação do campo de oposição. Não se trata necessariamente de uma ação centralizada ou de um comando facilmente identificável. Trata-se de uma engrenagem formada por interesses convergentes, relações institucionais, influência política e capacidade de interferência sobre o ambiente eleitoral.
Essa força raramente se apresenta de maneira explícita. Seus sinais aparecem na sucessão de dificuldades enfrentadas por determinadas candidaturas, na pressão pela divisão de grupos que poderiam caminhar juntos, na construção artificial de incompatibilidades e no enfraquecimento preventivo de qualquer nome capaz de ameaçar o projeto eleitoral dominante.
Enquanto isso, a candidatura de centro-esquerda avança apoiada não apenas em estrutura política e visibilidade, mas também na dispersão de seus adversários. Quanto maior a fragmentação do centro e da direita, menor será a necessidade de confronto direto. A oposição passa a consumir energia contra si mesma, enquanto o outro campo preserva suas forças e ocupa o espaço deixado pela desorganização alheia.
O risco, portanto, não está apenas na derrota de uma candidatura. Está no enfraquecimento duradouro de todo um campo político. Uma eleição conduzida sob essas condições pode retirar da oposição não apenas a possibilidade de vitória imediata, mas também lideranças, espaços institucionais e capacidade de reorganização para os anos seguintes.
Compreender esse cenário exige abandonar a leitura superficial de que tudo se resume à popularidade dos candidatos ou à eficiência das campanhas. Em disputas assimétricas, a pergunta decisiva não é apenas quem possui mais coragem para avançar, mas quem consegue identificar as forças que atuam nos bastidores e impedir que elas determinem antecipadamente o resultado.
A construção de uma alternativa competitiva depende, portanto, de unidade, maturidade e leitura estratégica. Exige um nome capaz de reunir diferentes setores, resistir às pressões do sistema e confrontar a narrativa de moderação e eficiência apresentada pela candidatura de centro-esquerda. Mais do que um projeto singular, essa alternativa precisa representar uma reação política à tentativa de tornar a eleição previsível antes mesmo de ela começar.
A mão invisível depende do silêncio, da distração e da fragmentação para continuar operando. Torná-la visível é o primeiro passo para reduzir sua força.
A coragem manda avançar. O bom senso, porém, recomenda primeiro compreender quem movimenta o tabuleiro, quais interesses estão em jogo e por que tantas peças parecem caminhar na mesma direção. No Rio de Janeiro, essa percepção poderá separar uma disputa verdadeiramente democrática de uma eleição cujo desfecho tenha sido preparado muito antes da abertura das urnas.
* Jefferson Lemos é jornalista e comentarista político

