Conheça Zé da Ilha Seca, o decapitado macabro da Baía de Guanabara

Tempo de leitura: 7 min


Os dois ativistas ambientais desembarcaram primeiro, assim que o barco aportou na Ilha Seca, uma das inúmeras na Baía de Guanabara, que fica perto da Ilha do Fundão e da Ilha do Governador. O barqueiro ficou um pouco atrás. A dupla estacou ao perceber pela primeira vez a visão macabra. Cercado por montes de lixo, um corpo decapitado jazia na areia. Eles foram se aproximando devagar.

“Meu maior medo era ser uma vítima de crime. Já escutamos várias histórias sobre corpos, e definitivamente não gostaríamos de encontrar um”, conta o ativista Bruno Campos, de 32 anos, fundador da ONG Limpeza de Praias.

Primeiro o alívio, depois o mistério

A cinco ou seis metros, os ativistas e o barqueiro, que havia se juntado a eles, puderam respirar um pouco mais aliviados. Tratava-se de um boneco. De retalhos, mas bem feito. Faltavam a cabeça e as extremidades dos membros, o que soou muito estranho. O fato de não ser uma pessoa não significa que não há um mistério envolvido.

“Contam muitas histórias pra gente sobre bonecos na Baía de Guanabara. Alguns podem pertencer a rituais religiosos. Outros, dizem, estão a serviço do tráfico”, conta Bruno.

Estratégia de traficantes para simular contingente

De fato, bonecos são usados por bandidos em posições estratégicas para, de longe, passar uma impressão de segurança mais reforçada em determinado ponto. A ideia não é nova. Fontes ligadas ao regime do Irã diz que bonecos estão usados como falsos alvos na guerra contra os Estados Unidos, o que faria os estadunidenses gastarem milhões para bombardear pano e espuma. A narrativa é desmentida por fontes independentes, que dizem se tratar de vídeos criados por Inteligência Artificial para uma guerra publicitária contra os militares do presidente Donald Trump.

Pegadinha com os outros integrantes do grupo

Quanto ao boneco da Ilha Seca, ganhou nome, Zé, e durante algum tempo serviu, estrategicamente postado atrás de uma árvore, como pegadinha com ativistas que chegaram depois ao acampamento base.

“A gente escondia e dizia pra eles que tinha bandido escondido ali”, conta Bruno.

O boneco não pôde virar mascote por causa da poluição

O destino de Zé foi inglório. O boneco de quase 14 quilos sequer foi cogitado como mascote para os ativistas da ONG.

“Não seria seguro. Não sabíamos há quanto tempo estava exposto a que tipo de poluição”, explica Bruno.

Ritual macabro ou uma comum malhação de Judas?

Quanto às hipóteses da origem de Zé, ideias diferentes não param de surgir. No caso de um ritual religioso pode ser apenas um Judas que pagou seus pecados antes de uma Páscoa qualquer e foi atirado ao mar depois das costumeiras pauladas. Mas o fato de não ter as extremidades do corpo nem a cabeça pode indicar um ritual mais daqueles que dão pesadelos nas crianças (e nos adultos!). Na dúvida, isola!

Um “náufrago” vindo diretamente de uma plataforma

Uma outra possibilidade foi levantada quando o TEMPO REAL entrou em contato com um engenheiro da Petrobras, com mais de duas décadas de experiência nas plataformas das Bacias de Campos e Santos.

“Pode ser um dos nossos”, especulou ele.

O engenheiro diz que bonecos, toscos mesmo, de espuma e pano, são usados constantemente em missões de treinamento de resgate nas plataformas e navios off-shore. É o famoso “homem ao mar!”.

“Acontece que alguns não são resgatados, mesmo com todo o aparato”, preocupa-se ele.

Ilhas viram barreiras naturais para o lixo

Bruno conta que o fato de o boneco ter ido parar numa das ilhotas da Baía de Guanabara não surpreende. As ilhas funcionam como barreiras naturais, onde o lixo que vem dos rios, e às vezes até dos navios fundeados na baía, fica retido. Peças pregadas pelas correntes marítimas em volta das ilhas são uma constante no mundo todo.

Pé humano encontrado dentro de calçado

A coluna Histórias do Mar, de Jorge de Souza, no portal UOL, relata que, em 2007, uma menina achou um tênis com um pé humano dentro na Ilha de Jedediah, na Colúmbia Britânica, Costa Oeste do Canadá. Outros sapatos com pés dentro foram aparecendo ao longo do tempo, em locais em volta da área conhecida como Mar de Salish. Especulou-se de tudo, até mesmo um serial killer agindo na região.

Tempos depois, a ciência explicou o fato. Que não deixou de ser macabro. Alguns pés foram identificados como os de vítimas de afogamentos e suicídios. Como a cartilagem que liga o pé à perna é alvo fácil e suculento para os peixes, as extremidades se desprendem. E boiam por causa dos calçados, sendo tragados por uma corrente marítima circular.

Até pneu de avião já foi encontrado pelos ativistas

Bruno Campos atua na retirada de resíduos de áreas costeiras com sua ONG desde 2023. Já viu de um tudo. Curiosidades que ele encontra podem ser conferidas em sua página no Instagram, @limpezadepraias. O ativista, seus companheiros e os pescadores locais contratados chegam a retirar de uma a duas toneladas de lixo a cada operação na Baía de Guanabara. Tarefa inglória e interminável.

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Bruno já viu muita coisa durante as ações na baía

“Uma das coisas mais esquisitas que já achamos foi um pneu de avião de 140 quilos”, relata. Como se vê, a limpeza não cai do céu. Já a sujeira…



Com informações da fonte
https://temporealrj.com/o-decapitado-macabro-baia-de-guanabara/

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