Há textos que envelhecem. Há outros que atravessam séculos como se tivessem sido escritos ontem. É o caso de “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Rotterdam, que ganha uma montagem poderosa nas mãos de Eduardo Figueiredo e Leona Cavalli.
Desde sua primeira aparição, Leona toma conta do palco. Não apenas interpreta a Loucura: ela seduz, provoca e humaniza. Sua atuação transita com impressionante naturalidade entre o deboche e a solenidade, entre o sagrado e o profano. Há momentos em que parece uma sacerdotisa conduzindo um ritual; em outros, uma observadora irônica expondo as pequenas e grandes hipocrisias da humanidade.
O figurino de Kelly Siqueira e Mariana Baffa merece um capítulo à parte. Distante de qualquer preocupação realista, é um personagem em si mesmo. Suas formas, volumes e transformações dialogam diretamente com a encenação e ajudam a construir uma figura ao mesmo tempo ancestral, mítica e profundamente contemporânea.
Um dos maiores acertos da adaptação é não cair na tentação de atualizar o texto por meio de referências fáceis. Não há nomes, caricaturas políticas ou tentativas de arrancar aplausos pela identificação imediata. Quando a obra fala sobre poder, vaidade, corrupção, religião ou interesses pessoais, a crítica surge cristalina. Só não percebe quem não quer. A inteligência do espetáculo está justamente em confiar que o público fará as conexões.
A música executada ao vivo por Daniel Líbano, no violoncelo, e César Lira, na percussão, amplia a dimensão simbólica da montagem. Não funciona como simples acompanhamento, mas como uma espécie de voz invisível que conduz emoções e atmosferas.

Também merece destaque o desenho de luz de Gabriele Souza. A iluminação trabalha com contrastes marcantes, alternando sombras densas e momentos de resplandecência que reforçam o sentido dramático de cada passagem. A luz participa da narrativa com a mesma importância da palavra.
E há ainda o fogo. Elemento ancestral, sagrado e transformador, sua presença em cena reforça a sensação de que estamos diante de algo que ultrapassa o simples entretenimento. O espetáculo dialoga com questões espirituais, filosóficas e humanas sem jamais perder sua força teatral.
Aliás, é impossível assistir a Leona Cavalli sem recordar aquela que considero a melhor Blanche DuBois dos palcos brasileiros em Um Bonde Chamado Desejo. Aqui, mais uma vez, ela demonstra por que ocupa um lugar tão singular no teatro nacional.
Sob a direção segura de Eduardo Figueiredo, Elogio da Loucura encontra um raro equilíbrio entre pensamento e emoção, entre espetáculo visual e profundidade intelectual. Não é um discurso filosófico encenado. É uma reflexão viva sobre como os limites da razão, do pensamento, da sanidade e da loucura habitam todos nós.
Conversar com Leona depois da apresentação foi, de certa forma, prolongar o prazer de vê-la em cena:
1 – No espetáculo, a loucura aparece quase como uma forma de lucidez. Como isso conversa com o nosso tempo?
O que me apaixonou neste texto foi justamente o fato de a loucura se revelar como uma forma de lucidez, geradora de liberdade, e não como uma patologia, geradora de sofrimento. Vejo essa perspectiva como necessária, um caminho de valorização do que é único e autêntico dentro de cada um, num momento em que tudo está tão padronizado, dividido em grupos, nichos e classificações. A transgressão da autenticidade é fundamental.
2 – O que a personagem trouxe de novo para você?
A personagem da Loucura expandiu a minha visão do próprio ser humano, do delírio que é não nos aceitarmos como uma raça única, de nos autodestruirmos em função de divergências de pontos de vista, de vivermos num mundo constantemente em guerra. E, como expressão artística, trouxe o desafio exigente e delicioso de experimentar o drama, a comédia, a entrega e o distanciamento, tudo ao mesmo tempo.
3 – Como foi transformar um texto tão clássico e reflexivo em algo vivo e próximo do público contemporâneo?
Por incrível que pareça, o texto, mesmo sendo um clássico do século XVI, é tão atual e universal que, na maior parte do espetáculo, optamos por nos manter fiéis ao original. Adaptamos apenas algumas partes, brincando com a linguagem clássica e aproximando o público. O mais difícil foi escolher quais trechos usaríamos entre tantos que dialogam com este momento. E, para mim, como atriz, o desafio foi ‘comer’ o texto com a fala, ou seja, dizê-lo como se fosse meu, hoje.
4 – Em cena, há momentos em que o humor provoca quase um desconforto no espectador…
Sim. O teatro traz uma oportunidade de reflexão ao vivo, de nos vermos de novas formas, de nos surpreendermos, seja gostando ou repudiando uma representação viva diante de nós. No mínimo, há uma inquietação, e isso é ótimo. Pode provocar algum tipo de mudança.
5 – Qual reflexão mais ficou ecoando em você fora dos palcos?
A maior loucura é ser normal!
Serviço:
Teatro II do CCBB
Quintas, sextas e sábados, às 19h
Domingos, às 18h


