Disputar um jogo, principalmente na adolescência, deveria ser não só motivo de competição, mas também de diversão. A experiência melhora quando amigos e parentes estão na torcida, vibrando por você. Por outro lado, o que deveria ser motivo de apoio e alegria pode se tornar um pesadelo quando a torcida passa dos limites e o ambiente se transforma em fonte de pressão, ansiedade e até violência verbal.
No ano passado, a Federação Paulista de Futebol lançou a campanha educativa “Pais de Castigo” que proibiu a entrada de torcedores nos estádios em alguns jogos das categorias de base. A medida foi adotada após o aumento de hostilidades e ofensas nas arquibancadas do Campeonato Paulista Sub-11 e Sub-12. Boa parte desses atos parte dos próprios pais, que estão nos estádios acompanhando os filhos nos jogos.
“Fechar os portões não foi para punir, mas, sim, para educar. Esperamos que a medida tenha feito alguns pais refletirem sobre o comportamento que têm nos jogos. As atitudes deles são, acima de tudo, observadas pelos filhos, que não querem e não merecem passar por situações de agressividade e descontrole como as que temos observado”, diz o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos, em comunicado.
Infelizmente, o que aconteceu no Campeonato Paulista está se tornando cada vez mais comum, de acordo com especialistas ouvidos pelo GLOBO, e, muitas vezes, as ofensas dos pais são direcionadas ao próprio filho, quando não há o desempenho esperado.
— Uma criança de 10, 11, 12 anos, pressionada publicamente, humilhada, que é o que temos visto acontecer até mesmo em jogos amadores e de escola, fica estressadíssima e com uma sobrecarga que vai dificultar o seu jogo. A criança joga bem quando ela está brincando. O jogo é uma forma de direcionar essa brincadeira para uma competição saudável, para uma dinâmica organizada — diz o pediatra e colunista do GLOBO Daniel Becker.
Especialistas em saúde mental e desenvolvimento infantil alertam que o comportamento dos adultos durante competições juvenis tem impacto direto no bem-estar emocional dos jovens atletas. Em vez de motivar, gritos excessivos, cobranças agressivas e discussões com árbitros ou outros pais podem prejudicar o desempenho e a relação dos adolescentes com o esporte.
— Se uma criança ou adolescente é xingado por um adulto, ele não tem discernimento para entender de onde vem esse xingamento e ele recebe isso em cheio na sua alma, na sua psique. Isso vai afetar não só a performance, mas vai afetá-lo possivelmente pelo resto da vida porque isso é bullying vindo de um adulto. E para os filhos dessas pessoas, é o exemplo de algo covarde. Ou a criança vai reproduzir essa mesma atitude lamentável e repulsiva quando crescer ou terá vergonha e vai ficar revoltado com o seu próprio pai — diz Becker.
Na adolescência, o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente as áreas relacionadas ao controle emocional e à autoestima. Por isso, críticas públicas e pressão intensa podem ser sentidas de forma mais profunda.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a prática esportiva e a atividade física trazem benefícios importantes para crianças e adolescentes, incluindo melhora da saúde mental, autoestima, desenvolvimento cognitivo e integração social. Mas a organização também alerta que o ambiente esportivo precisa ser saudável para que esses benefícios sejam mantidos, especialmente durante a adolescência, fase de maior vulnerabilidade emocional.
Quando pais e responsáveis transformam partidas em espaços de cobrança, o adolescente pode associar o esporte ao medo de errar. Em alguns casos, isso leva à perda de confiança, queda no rendimento e abandono precoce da atividade física.
A Academia Americana de Pediatria frequentemente publica orientações sobre esportes juvenis ressaltando que pais devem priorizar diversão, segurança e desenvolvimento emocional — e não apenas desempenho competitivo.
Além disso, comportamentos hostis entre torcedores servem como modelo para os jovens. Adolescentes tendem a reproduzir atitudes observadas em adultos, inclusive agressividade, desrespeito às regras e intolerância à frustração.
— Os pais precisam ter em mente que eles são o exemplo. Mais do que o discurso de respeito, de valores e ética, o adolescente é um ser em formação, construindo sua identidade, sua crença, seu valor. E os pais vão ser o modelo disso — diz a psicóloga Cristina Borsari, coordenadora do departamento de psicologia do Sabará Hospital Infantil. — Quando tem uma falta de respeito, xingamentos ofensivos de pais em uma torcida, você está ensinando por um exemplo errado e trazendo muitas vezes algo muito prejudicial para o desenvolvimento da saúde mental desses adolescentes.
Como torcer de forma legal
Especialistas recomendam que a torcida em competições juvenis tenha como foco o apoio — e não a cobrança e o desrespeito.
— O esporte está associado à convivência, a fazer o exercício físico ser agradável, de desenvolver o senso de grupo e de competências diversas se unindo em prol de um mesmo objetivo. Quando admitimos a violência como forma de resposta, estamos indo por um caminho muito errado e que desqualifica o objetivo do encontro — ressalta o psiquiatra da infância e da adolescência Ricardo Krause.
Os especialistas são categóricos em dizer que a torcida ideal começa pelo respeito. Ela apoia, incentiva, celebra aquele esporte e entende a importância daquele momento na formação, na identidade do adolescente. Ela entende que isso está associado à autoestima e formação de vínculos.
O esporte também ensina resiliência e a lidar com frustrações. perder também faz parte do jogo e isso não significa que o adolescente deve se sentir culpado ou desprezado por isso, em especial pelos próprios pais. Elogiar dedicação, comprometimento e evolução é mais importante do que focar apenas na vitória. O esporte nessa fase da vida também é espaço de aprendizado emocional e social.
— Como psicólogo, indicamos o esporte para todas as crianças e adolescentes tamanha a importância que essa prática tem na vida, na formação como um todo — diz Sabará.
Sinais como ansiedade antes das partidas, medo excessivo de decepcionar os pais, irritabilidade após jogos ou perda de interesse pelo esporte podem indicar que a experiência competitiva deixou de ser saudável. Especialistas destacam que adolescentes precisam sentir que seu valor não depende do placar. O apoio emocional após derrotas costuma ser tão importante quanto o reconhecimento em vitórias.
Para evitar que esse tipo de mal comportamento da torcida, a orientação é estabelecer regras para a torcida. Em caso de desrespeito, se possível, chamar os responsáveis para uma conversa individual “em que se ressalte o lado positivo da torcida, de apoio e sinalize os riscos das críticas e do comportamento negativo da torcida”, orienta Krause. Em casos de reincidência, o ideal é que esse adulto seja afastado. Em casos mais graves, podem ser adotadas medidas mais drásticas, como a proibição total da torcida.
A maneira como pais, familiares e torcedores se comportam influencia diretamente a cultura esportiva entre jovens. Incentivar respeito, empatia e equilíbrio emocional ajuda adolescentes a desenvolver habilidades importantes também fora das quadras — como trabalho em equipe, tolerância à frustração e convivência social.
Mais do que formar atletas, o esporte juvenil deve contribuir para formar adultos emocionalmente saudáveis.

