Vik Muniz inaugura retrospectiva no CCBB com pterossauro gigante na rotunda

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Em setembro de 2018, o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, foi lambido por um incêndio devastador. Vik Muniz estava na Holanda e quase teve uma crise de choro ao receber a notícia, por telefone. “Não sou muito emocional, me considero uma pessoa bastante fria e me surpreendi com o tanto que senti”, lembra o artista de 64 anos, que na infância frequentava o local para admirar a múmia e outros itens do acervo de paleontologia. Movido pela tragédia, fez das cinzas a principal obra de A Olho Nuretrospectiva com 220 trabalhos e 43 séries, a maior de sua trajetória, a ser inaugurada na próxima quarta (20), no Centro Cultural Banco do Brasil. Um pterossauro de mais de 8 metros de envergadura e 3 metros de comprimento, composto por um polímero infundido com o que sobrou das chamas, ficará suspenso na rotunda sobre um tapete estampado com Medusa Marinara (1997), hit de Muniz feito com macarrão e molho de tomate. “Conseguimos reproduzir uma versão fiel ao original com a ajuda de arqueólogos e cientistas da PUC-Rio e do museu que trabalharam nos escombros”, explica o paulistano radicado na cidade. Ainda este mês, uma série de doze fotografias criadas para angariar fundos para a instituição será exibida pela primeira vez, ao lado de seis esculturas na Sala das Vigas do Museu Nacional, na mostra Rescaldo de Memórias. O artista está de volta ao mainstream carioca. 

Todas as Fases: a rotunda do CCBB vai receber uma réplica de esqueleto de um pterossauro (Rafael Pereira/Divulgação)

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Visitada por mais de 150 000 pessoas no Instituto Ricardo Brennand, em Recife, no ano passado, e no Museu de Arte Contemporânea da Bahia, em Salvador, neste ano, A Olho Nu carimba um marco na carreira de Vik Muniz: a estreia de um curador para assinar a seleção das obras. “Como estou vivo, controlo a narrativa do meu trabalho, mas comecei a me cansar disso”, admite o medalhão, que convidou o baiano Daniel Rangel para imprimir o olhar externo. “Em termos curatoriais, é a primeira vez que ele expõe obras tridimensionais junto a fotografias. Foi uma provocação minha mostrar que existe uma relação profunda entre os desenhos de nuvens e a gaiola de passarinhos; a caveira de palhaço e os monstros de caviar”, exemplifica Rangel, amigo do artista desde 1999. “Nós não gostamos de circular só pelo jet set da Bahia. Preferimos lugares que oferecem cultura popular de rua”, observa o curador, que gosta de comparar Muniz a um agricultor. Afinal, entre as matérias-primas estão açúcar, feijão, café, chocolate e até sucata

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Medusa Marinara: hit do artista, obra de 1997 terá uma versão em forma de tapete (instagram @nararoesler/Reprodução)

 

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Olhar Externo: o baiano Daniel Rangel assina a seleção de esculturas e fotografias (Ytallo Barreto/Divulgação)

Foram justamente esses ingredientes simples que fizeram o artista cair nas graças do circuito mundial. Em 2001, ele se tornou o primeiro brasileiro a exibir uma individual no Whitney Museum, em Nova York, onde morou por trinta anos. Sete anos mais tarde, assinou o Artist’s Choice, do MoMA, programa em que um criador assume papel curatorial. Também participou de duas edições da Bienal de Veneza, onde esteve na última semana para prestigiar a amiga Adriana Varejão. Suas obras recheiam ainda os acervos do Pompidou, em Paris, Reina Sofía, em Madri, Tate Modern, em Londres, e dos americanos MoMa e Guggenheim. No Brasil, o artista é representado por Nara Roesler, com galerias no Rio e em São Paulo. “Em 2015, num leilão da Christie’s, em Nova York, seis obras da série The Sugar Children (1996) foram arrematadas em lote único por 293 000 dólares. É o recorde do artista”, pontua Daniel Roesler, sócio da galeria. Outro vetor que projetou a popularidade e gerou controvérsias é a vertente comercial. Muniz assinou a abertura da novela Passione (2010), da TV Globo, e a capa do disco dos Tribalistas (2002) — formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown — com calda de chocolate e açúcar. “Parece que, ao se comunicar com o povo, o trabalho do artista perde a validade. Eu levanto a bandeira da acessibilidade, do que é capaz de funcionar tanto para um diretor quanto para a pessoa que limpa”, rebate Muniz.   

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Grande Família: Vik Muniz é pai de Gaspar (acima), Mina e Dora (no colo) e padrasto de Francesco (instagram @vikmuniz/Reprodução)

Filho de um garçom e de uma telefonista, Vicente José de Oliveira Muniz nasceu em São Paulo e se mudou para Nova York em 1983, aos 22 anos. Lá, trabalhou num estúdio de fotografia e conheceu a empresária e produtora Malu Barreto, com quem é casado há 17 anos, e tem uma filha, Dora — ele tem outros dois rebentos de relacionamentos anteriores e um enteado. A família se divide “aos trancos e barrancos”, como gosta de dizer, entre imóveis e ateliês no Rio, Nova York e Salvador — em 2021, abriu na tradicional Feira de São Joaquim, na capital baiana, a galeria de arte Lugar Comum, e brinca que, na verdade, foi escolhido pelo pitoresco espaço. “Se fosse abrir algo parecido nestas bandas, seria na Central do Brasil. Um espaço cultural numa estação de trem é necessário”, opina, engajado em projetos sociais como a Escola Vidigal. “Não consigo me ver em outro lugar. O Rio é a cidade mais linda do mundo, tem uma vigorosa economia criativa e é onde cultivo meu ciclo de amigos. Lugar de gente fina, elegante e sincera”, enlaça o artista, que transita pela comunidade da Zona Sul e no métier artístico com a mesma naturalidade. A missão que o entusiasma, agora, é arrastar cariocas de todas as regiões da cidade para o CCBB. E vai conseguir. 

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Sempre Juntos: “Completamos 17 anos neste mês em Veneza. Ao longo desse tempo, fui me apaixonando por várias versões dela”, disse Muniz sobre o relacionamento com a empresária Malu Barreto (instagram @vikmuniz/Reprodução)

 

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Amor de Mãe: “A melhor pessoa que conheci em toda a minha vida”, afirma Muniz (instagram @vikmuniz/Reprodução)

 

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Luto Recente: o pai, também Vicente, morreu no ano passado (instagram @vikmuniz/Reprodução)

Multipropósito 

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Cinco obras inéditas para conferir em A Olho Nu, no CCBB 

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1 Família (2026) compõe a série Álbum com um retrato do artista na infância, junto a seus pais. 

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2 A fachada da instituição da Quinta da Boa Vista também é uma das obras da série de fotografias Museu das Cinzas

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3 Desenvolvida em uma residência no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, entre 2014 e 2016, Placa de Circuito foi construída a partir de células-tronco, articulando arte e biotecnologia. 

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4 Datado de 11 000 anos atrás, o fóssil da caveira paleolítica encontrado na década de 1970 em Minas Gerais é uma das peças do Museu Nacional recriada a partir das cinzas. 

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5 Museu dos pássaros recria obra de 1990 e não foi exibida nas versões apresentadas em Recife e Salvador. 

 



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/programe-se/vik-muniz-ccbb-pterossauro/

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