As festas de dança para o público 50+ surgiram como quem não quer nada, meio tímidas, quase pedindo licença — e de repente viraram um pequeno levante civilizatório contra o tédio, o mofo social e a ideia cafona de que envelhecer é se retirar. Não é. Envelhecer, ao que tudo indica, é voltar.
Voltar para a pista.
A Festa Kikando, idealizada por DJ Marcos Mamede e por mim, já está na sua sétima edição — e não, não foi um acidente. Três vezes por ano, no Rio de Janeiro, acontece esse fenômeno curioso: mulheres e homens que já viveram muito mais do que a sociedade costuma considerar “dançável” simplesmente ocupam a noite com uma elegância debochada. E dançam na Kikando como se soubessem de um segredo que os mais jovens ainda não descobriram: o tempo não volta, mas a sensação volta — e sempre com muitas lembranças.
Porque quando toca disco music, anos 70, 80… não é só música. É um túnel do tempo neurológico. O cérebro, esse danado, acende inteiro. Vem o cheiro de um perfume antigo, o gosto de um beijo roubado, o calor de um amasso num canto escuro, o vestido que você achava o máximo, a calça boca de sino, o salto impossível, o cabelo que desafiava a gravidade e o bom senso. Vêm também os nomes — alguns esquecidos, lamentavelmente uns já falecidos e outros insistentemente vivos.
E, de repente, você não tem mais 55, 60, 70, 80. Você tem todas as suas idades ao mesmo tempo. E isso, convenhamos, é um luxo.
Mas não é só nostalgia, não. Essas festas são também um campo fértil para o novo. Gente que nunca se viu se reconhece no ritmo. Há uma cumplicidade imediata entre desconhecidos que dividem a mesma paixão pela pista. Não precisa de muita explicação: dançou bem, sorriu, já é quase íntimo. E olha… anda cada vez mais interessante essa história.
Sim, porque se antes diziam que faltava homem, agora a maré está virando. A presença masculina cresce, e com ela uma certa eletricidade no ar — aquela coisa meio esquecida, meio perigosa, meio deliciosa. A pista ganha uma ousadia sutil, elegante, sem pressa e sem desespero. Nada de performance ansiosa. Aqui, o flerte tem tempo, tem olho no olho, tem pausa. Um escândalo.
E há um cuidado que não é detalhe: são ambientes seguros, de bom nível, onde a maturidade não é tolerada — é celebrada. Onde ninguém precisa fingir juventude, porque a potência está justamente em não precisar mais provar nada. Envelhecemos, muitos grisalhos, rugas marcam nossa pele, acima do peso apesar das canetinhas mas who cares? Estamos na pista, literalmente.
Não estamos sozinhas nesse movimento, claro. Pelo Brasil, mulheres incríveis vêm puxando essa revolução silenciosa — Patricia Parenza, Monique Curi, Renata Araújo, Bet Pietro, Tati Torres, A Turma do Gallery — cada uma à sua maneira, criando espaços onde a vida madura não é sinônimo de recolhimento, mas de expansão.
E como tudo aqui se copia, como toda boa história contemporânea, há uma inspiração estrangeira: a sueca Madeleine Gloria, que entendeu antes de muita gente que envelhecer não é o fim da festa — é só a mudança do repertório. Eu colei nela e repliquei a Festa Kikando, junto com Dj Mamede aqui no Rio.
O fato é que esse mercado não é uma modinha simpática. É um reflexo direto de uma realidade incontornável: estamos vivendo mais. E viver mais exige mais vida, não menos. Exige diversão, encontro, corpo em movimento, música alta e, por que não, um pouco de atrevimento.
Porque se há algo que a maturidade deveria nos dar — além de rugas e boletos — é liberdade.
E nada traduz melhor essa liberdade do que uma pista de dança cheia, pulsante, madura e perigosamente viva.
Afinal, morrer de tédio, isso sim, seria imperdoável.
A próxima FESTA KIKANDO acontece dia 10 de abril, às 20.30 horas, no rooftop Vista Bar do Restaurante Maguje, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Ingressos aqui https://www.sympla.com.br/evento/festa-kikando/3341466 Siga @festa_kikando no instagram.

